Estudo na Noruega comprova que humanos levaram peixes às montanhas

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Noruega - Vadym Lavra - shutterstock.com Foto: Noruega - Vadym Lavra - shutterstock.com

Caçadores-coletores do período Mesolítico na Noruega transportaram deliberadamente trutas-marrons vivas para lagos isolados de montanha há cerca de 7.000 anos, antes do surgimento da agricultura. A comprovação consta em um estudo liderado pela Universidade de Oslo, publicado na revista científica Antiquity, a partir da análise de armadilhas de pesca de madeira preservadas no Lago Tesse, na região montanhosa central do sul do país.

A descoberta registra o exemplo mais antigo conhecido no mundo de translocação de peixes realizada por seres humanos. O trabalho científico, intitulado “The introduction of fish to the Scandinavian mountains by hunter-fisher-gatherers 5000 BC” (A introdução de peixes nas montanhas escandinavas por caçadores-pescadores-coletores em 5000 a.C., em tradução livre), detalha como esses grupos remodelaram ecossistemas inteiros para garantir reservas de alimento.

“A soltura de trutas-marrons por caçadores-pescadores-coletores em lagos anteriormente sem peixes nas montanhas norueguesas por volta de 5000 a.C. é um exemplo muito claro da capacidade geral dos humanos de remodelar ecossistemas inteiros, mesmo antes da introdução da agricultura”, afirmou Axel Mjærum, arqueólogo da Universidade de Oslo e autor principal do estudo.

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Armadilhas de madeira no Lago Tesse detalham a engenharia da pesca

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Foto: peixes – yeshaya dinerstein/Shutterstock,com

As estruturas de pesca foram avistadas pela primeira vez pelo caminhante e arqueólogo amador Reidar Marstein, quando o nível da água do Lago Tesse baixou durante a primavera. O lago funciona como reservatório para uma usina hidrelétrica, operação que reduz o volume de água sazonalmente e expõe o leito antigo da bacia. Antes que a água subisse novamente na temporada seguinte à localização dos vestígios, a equipe de arqueólogos escavou as estruturas preservadas na lama e aplicou métodos de datação por radiocarbono (técnica que mede o decaimento do carbono-14 para determinar a idade de materiais orgânicos) e dendrocronologia (método que calcula a idade da madeira pela análise dos anéis de crescimento do tronco).

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Os dados técnicos do local e das estruturas analisadas pelos pesquisadores da Universidade de Oslo reúnem medidas exatas sobre a operação pré-histórica:

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  • Altitude do Lago Tesse: 2.800 pés (cerca de 850 metros) acima do nível do mar.
  • Estruturas datadas no leito: 4 armadilhas de madeira para captura de peixes.
  • Material recolhido na escavação: 113 amostras de madeira coletadas e 73 estacas distintas identificadas cravadas no fundo do lago.
  • Dimensões da estrutura mais bem preservada: composta por 46 estacas de madeira, sendo cerca de 40 dispostas em uma câmara circular de aproximadamente 3,5 metros de largura e outras 6 alinhadas como uma cerca para direcionar os peixes para o interior.
  • Produção histórica da bacia: estimada em 10 toneladas anuais de trutas-marrons antes da transformação do lago em reservatório hidrelétrico.

Por que as trutas não chegavam sozinhas às montanhas da Noruega?

A topografia acidentada do sul da Noruega impedia a migração natural da espécie Salmo trutta (nome científico da truta-marrom) para as zonas de maior altitude. Após o recuo da camada de gelo da Fenoescândia (região geográfica e geológica que abrange a Península Escandinava, a Finlândia, a Carélia e a Península de Kola), a formação de cachoeiras, corredeiras e trechos de rios íngremes criou barreiras físicas intransponíveis para os animais aquáticos que habitavam os cursos d’água inferiores.

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Para estabelecer uma população capaz de se reproduzir nas águas frias das montanhas, os grupos humanos precisaram carregar os exemplares vivos morro acima, superando os desníveis rochosos. A introdução planejada reduzia a necessidade de longos deslocamentos até a faixa costeira ou aos grandes rios dos vales, oferecendo uma fonte previsível de proteína perto dos acampamentos sazonais de caça e coleta.

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A confirmação obtida através das estacas de madeira encerra uma discussão acadêmica que durava mais de um século na Europa sobre a origem da fauna aquática em lagos alpinos isolados. Durante mais de 100 anos, cientistas levantaram a hipótese de que populações antigas haviam transportado os animais para as montanhas da Noruega, enquanto uma linha teórica concorrente atribuía o fenômeno ao transporte acidental de ovas grudadas nas penas ou patas de aves aquáticas, pois faltavam provas físicas que datassem o início da presença dos peixes naquelas águas. O estudo comprova que a ação foi humana e que as trutas-marrons pescadas até os dias atuais no Lago Tesse são descendentes diretas das populações introduzidas pelos caçadores-coletores pré-históricos.

A sequência histórica e científica que levou à comprovação do manejo ambiental na Escandinávia abrange milênios de transformações na paisagem e pesquisas recentes:

  • Por volta de 8000 a.C.: ocorre o recuo da camada de gelo da Fenoescândia, deixando lagos elevados isolados por cachoeiras e rios íngremes.
  • Por volta de 5000 a.C. (há cerca de 7.000 anos): grupos do Mesolítico transportam trutas-marrons vivas e constroem as armadilhas de madeira no Lago Tesse.
  • Há cerca de 6.000 anos: a agricultura e a pecuária chegam à Escandinávia, mais de mil anos depois do início do manejo de peixes nas montanhas.
  • Década de 1940: o Lago Tesse passa a operar como reservatório de uma usina hidrelétrica.
  • Primavera de 2022: Reidar Marstein localiza as primeiras estacas expostas no leito seco do reservatório.
  • Ano de 2023: arqueólogos realizam a escavação das armadilhas antes da subida das águas.
  • 20 de julho de 2026: o estudo é publicado online na revista científica Antiquity, da editora acadêmica Cambridge University Press, integrando o Volume 100, Edição 413, de outubro de 2026.

Apesar da precisão na datação das armadilhas de captura, o método exato utilizado pelos caçadores-coletores há 7.000 anos para manter as trutas vivas e com água oxigenada durante a subida das montanhas — como o eventual uso de recipientes confeccionados com couro, casca de árvore ou madeira — não deixou vestígios materiais diretos no sítio arqueológico.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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