Aquiry reunia até 3 milhões de pessoas no sudoeste da AmazôniaPor Luís Henrique Costa
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Uma sociedade antiga que talvez tenha abrigado 3 milhões de pessoas prosperou no sudoeste da Amazônia por mais de mil anos, entre 600 a.C. e 850 d.C. Uma investigação divulgada em 29 de julho de 2026 revela o fenômeno, com a descoberta de centenas de estruturas arqueológicas escondidas sob a mata densa. Segundo os autores, esse grupo teria erguido milhares de centros cerimoniais ao longo de sua existência.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional, que usou a tecnologia LiDAR em levantamentos aéreos para mapear o terreno coberto pela vegetação. Os dados mostraram uma ocupação humana bem maior do que os cientistas imaginavam. O resultado muda a visão sobre a presença de sociedades complexas na região antes da chegada dos europeus.
Os resultados saíram na revista científica Nature no mesmo dia. O trabalho aponta que a civilização Aquiry modelou o ambiente amazônico por cerca de 1.500 anos. A intervenção incluiu a construção de monumentos de terra, a abertura de estradas, o desenvolvimento da agricultura e o manejo de espécies vegetais.
Quantas estruturas e habitantes o levantamento encontrou
O estudo se concentrou em uma pequena faixa do sudoeste amazônico, equivalente a menos de 3% da Grande Amazônia. Mesmo nessa área reduzida, os sobrevoos identificaram 432 estruturas de terra, das quais 396 nunca tinham sido registradas. Com base nesses números e em comparações com trabalhos anteriores, os cientistas calculam que a civilização possa ter erguido entre 24 mil e 30 mil construções semelhantes em toda a sua área de influência.
Calcula-se que esse povo tenha ocupado cerca de 183 mil quilômetros quadrados, extensão comparável à de alguns países atuais. Dentro desse território, a população chegou ao pico de 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas no início do primeiro milênio da era cristã.
As construções têm formatos geométricos variados e estavam ligadas por estradas retas abertas na floresta. Para os estudiosos, esses locais serviam a fins políticos, cerimoniais e a reuniões da comunidade, e não apenas à moradia.
O nome Aquiry foi inspirado no nome indígena do rio Acre. Segundo os pesquisadores, a sociedade não tinha um reino centralizado e único. Funcionava como uma rede de comunidades ligadas por laços culturais, que dividiam costumes e práticas em todo o território.
A floresta também não ficou intocada durante a ocupação. De acordo com o estudo, os habitantes plantavam milho, mandioca e abóbora e manejavam árvores importantes para a alimentação, como a castanheira e outras frutíferas. O quadro indica uma relação profunda com o ambiente.
Os autores afirmam que essa interferência humana deixou marcas duradouras na vegetação amazônica e pode ter influenciado o equilíbrio de carbono na região. Eles sugerem que o tema exige mais investigação em pesquisas climáticas futuras.

De que forma o LiDAR localizou os vestígios sob a mata
O LiDAR desempenhou papel central nessa descoberta arqueológica. O método usa pulsos de laser disparados de aeronaves, que conseguem atravessar pequenas falhas na copa das árvores. Assim, o relevo do solo é registrado e as estruturas são identificadas sem a necessidade de derrubar a floresta.
Martti Pärssinen é arqueólogo e antropólogo da Universidade de Helsinque. Ele liderou a pesquisa e disse que os novos dados mudaram sua compreensão sobre a dimensão da antiga ocupação amazônica.
Em entrevista, Pärssinen afirmou: “Mais recentemente, senti algo semelhante quando compreendi que pode haver até dez vezes mais dessas estruturas de terra na região do que eu havia imaginado anteriormente.” Ele falou ao relembrar o impacto das novas estimativas do levantamento.
Mais adiante na conversa, o pesquisador indicou que o grande número de estruturas em uma área reduzida sugere que outras partes da floresta também podem guardar vestígios semelhantes. Ele afirmou: “A escala do registro arqueológico sugere que muitas outras regiões da Amazônia podem ter sido muito mais densamente povoadas e intensamente modificadas do que se supunha anteriormente.”
Pärssinen também descreveu como imagina a paisagem no auge da sociedade. Os vastos centros cerimoniais eram provavelmente cercados por grandes construções de madeira, campos de cultivo e florestas geridas por várias gerações.
Em outro trecho, ele declarou: “Em determinadas épocas do ano, esses locais ganhariam vida com cerimônias, encontros, música, dança, competições atléticas e outros eventos comunitários.” Pela descrição do pesquisador, os espaços tinham uso coletivo ao longo do ano, e não apenas em uma época específica.
Apesar dos avanços, ainda restam perguntas sem resposta. Não se sabe quais idiomas eram falados pelas diferentes comunidades, como elas se identificavam nem o que levou ao declínio e ao desaparecimento da civilização por volta de 850 d.C. O estudo considera essas questões centrais para pesquisas futuras.







