Operação da Polícia Civil contra bets ilegais mira rede de R$ 739 milhões no DF e em cinco estadosPor Thiago Lemos
5 min de leitura
![]() |
A Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação Azzardo na manhã desta quinta-feira, 05 de novembro de 2026, para desarticular um esquema interestadual de apostas esportivas eletrônicas clandestinas e lavagem de dinheiro que movimentou R$ 739 milhões. A ação mobilizou duzentos agentes de segurança para o cumprimento de mandados de busca, apreensão e sequestro patrimonial em endereços do Distrito Federal e de cinco estados brasileiros: São Paulo, Paraná, Ceará, Rio Grande do Norte e Goiás. As apurações começaram há cerca de cinco meses a partir de uma representação técnica formulada pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
O trabalho investigativo foi coordenado pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, vinculada ao Departamento de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado da corporação distrital. Os investigadores descobriram que os valores transferidos por usuários via pagamentos instantâneos por PIX em plataformas de quota fixa sem registro federal eram direcionados a contas de pessoas jurídicas sem qualquer ligação operacional com o segmento esportivo, incluindo uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de artigos de tarô, ambas estabelecidas formalmente na região administrativa de Sobradinho.
As diligências de campo revelaram dezenas de firmas de fachada registradas entre fevereiro e julho de 2026, com valores de capital social idênticos e endereços situados em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia. Em um único imóvel comercial de Ceilândia, os policiais constataram que dez empresas compartilhavam o mesmo número de telefone e funcionavam como estruturas fantasmas destinadas a concentrar os recursos arrecadados dos apostadores, realizando a posterior dispersão monetária por meio de compras de criptoativos e transferências bancárias sucessivas.
O Ministério da Fazenda destacou a gravidade da infiltração de quadrilhas no setor desportivo ao acompanhar o cumprimento das medidas judiciais em âmbito nacional.
“A relação entre crime organizado e mercado ilegal está documentada”, informou o Ministério da Fazenda por meio de nota técnica sobre as apurações que fundamentaram o cerco às operadoras irregulares.
Envolvimento de fintech paulista e fraudes em autorizações estaduais
O rastreamento dos fluxos monetários alcançou a sede de uma fintech de soluções de crédito autorizada pelo Banco Central do Brasil, localizada no centro financeiro da capital paulista. De acordo com o inquérito policial, a instituição de pagamento processou cerca de R$ 1 bilhão em operações financeiras com rodízio contínuo de procuradores, intermediando repasses diretos entre as empresas fantasmas do Distrito Federal e plataformas de jogos digitais não autorizadas. A autoridade monetária nacional já havia divulgado no encerramento de julho de 2026 a intenção formal de cancelar o credenciamento de funcionamento da referida sociedade de crédito direto.
A apuração também identificou que o grupo utilizava de maneira fraudulenta licenças concedidas pelas loterias estaduais da Paraíba e do Rio de Janeiro para conferir aparência de regularidade às apostas esportivas. Nenhuma das plataformas eletrônicas alvos de mandados estava contemplada nos atos administrativos estaduais, cujos efeitos territoriais perderam validade com a publicação da Medida Provisória 1.394/2026, de 25 de setembro de 2026, instrumento que proibiu a intermediação, exploração e publicidade de modalidades não autorizadas expressamente pelo governo federal.
Os mandados no estado de São Paulo concentraram-se em escritórios de alto padrão na Avenida Brigadeiro Faria Lima, no bairro de Pinheiros e no polo corporativo da Vila Olímpia. Em território goiano, as equipes policiais cumpriram decisões judiciais nas cidades de Goiânia, Planaltina de Goiás e Valparaíso de Goiás.
Estrutura da operação e penalidades previstas
As medidas cautelares buscam descapitalizar os núcleos operacionais e identificar os beneficiários finais das remessas financeiras ilícitas no futebol nacional.
- Órgão responsável: Polícia Civil do Distrito Federal, por intermédio da Draco e do Decor
- Apoio técnico: Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda e Banco Central do Brasil
- Valores sob apuração: R$ 739 milhões nas contas das empresas de fachada e cerca de R$ 1 bilhão na fintech intermediadora
- Mandados judiciais: 24 ordens de busca, apreensão e bloqueios patrimoniais cumpridas no Distrito Federal
- Estados com mandados cumpridos: São Paulo, Paraná, Ceará, Rio Grande do Norte e Goiás
- Crimes imputados: exploração de loteria não autorizada, estelionato eletrônico, lavagem de capitais, falsidade ideológica e organização criminosa
- Faixa de penalidades: penas de reclusão que variam de 11 anos e 6 meses a 31 anos, alcançando 33 anos de prisão em caso de fraude documental pública
Os computadores, registros contábeis e aparelhos de telefonia recolhidos nas buscas foram encaminhados para a sede da Polícia Civil em Brasília, onde os peritos forenses extraem dados telemáticos para instruir as ações penais contra os administradores do esquema.







