Regina Duarte e sua filha, a também atriz Gabriela Duarte, estão novamente juntas no palco, em meio a uma atmosfera de visível tensão. Esse desconforto, no entanto, não vem da peça “A Filha da…”, que irá estrear em São Paulo no próximo dia 27 de agosto de 2026, marcando a primeira vez que as duas contracenam em duas décadas. O nervosismo surgiu durante uma entrevista concedida em 20 de agosto de 2026, no Teatro BDO Jaraguá, onde, ao abordar sua breve participação no governo de Jair Bolsonaro, Regina declarou taxativamente que “agora acabou, morreu esse assunto”.
Enquanto na comédia “A Filha da…” as personagens buscam ocultar um assassinato, na realidade da entrevista, as atrizes demonstravam um desejo de deixar a política para trás, na esperança de recuperar o prestígio artístico que Regina Duarte sentiu ter perdido.
Retorno aos palcos com a filha Gabriela Duarte
Esse empenho em mudar a narrativa não é sem razão. Em 2020, Regina Duarte teve uma passagem marcante e controversa pelo governo federal, pouco depois de encerrar um contrato de 50 anos com a TV Globo, emissora onde foi carinhosamente apelidada de “namoradinha do Brasil”.
Como titular da Secretaria Especial da Cultura, a artista colecionou diversas críticas e gerou polêmicas. Em maio daquele ano, ela interrompeu uma entrevista ao vivo quando um vídeo da atriz Maitê Proença foi exibido.
No vídeo em questão, Maitê Proença solicitava que a então secretária apresentasse soluções concretas para a classe artística, que enfrentava os desafios da pandemia. Regina Duarte também gerou mal-estar na mesma entrevista ao falar sobre as mortes ocorridas durante a ditadura militar, afirmando: “A humanidade não para de morrer. Se você falar de vida, do lado tem morte.”
Pouco tempo após essa entrevista, mais de 500 artistas publicaram uma carta aberta repudiando as declarações da atriz. Diante do grande desgaste, Regina pediu demissão após 74 dias no cargo. O então presidente Jair Bolsonaro prometeu que ela assumiria a Cinemateca Brasileira, mas essa promessa nunca foi cumprida.
Sobre o custo pessoal de sua incursão na política, Regina minimiza a experiência, dizendo: “Não teve custo nenhum. Eu saí de lá depois de 74 dias, voltei para minha vida e segui magnificamente bem. Tem gente que não me perdoa até hoje de ter ido. Tem gente que não me perdoa até hoje de ter voltado”, disse a atriz, inclusive com uma interrupção da filha, que sugeriu que ela não respondesse à pergunta.
Gabriela Duarte expressa visões políticas distintas da mãe
Em outras ocasiões, Gabriela já havia demonstrado ter posições políticas diferentes das de sua mãe. Há cinco anos, em entrevista, ela criticou a gestão do governo Bolsonaro durante a pandemia, afirmando: “É trágico. Não temos uma liderança honesta, clara, que se preocupe com a vida.”
Durante a entrevista, que durou pouco mais de uma hora, a conversa começou de forma tranquila, mas foi se tornando progressivamente tensa à medida que os temas políticos eram abordados. A equipe das artistas intervinha com frequência, interrompendo as perguntas sobre o assunto, mesmo com Regina mostrando disposição para respondê-las.
Em um dado momento, uma profissional da equipe pediu que os cinegrafistas parassem de registrar a conversa. Foi nesse clima que Regina Duarte reiterou que não tinha interesse em ser ministra ou secretária novamente. “Não, definitivamente não. Senão, eu teria ficado mais lá, lutado para proporcionar alguma coisa para a classe artística, para o povo brasileiro”, disse, sendo interrompida novamente.
Questionada se isso significava o fim de sua participação na política, Regina respondeu: “Eu estou aberta. Eu estou viva. Quando a pessoa está viva, ela está aberta para o que der e vier. Ela pode dizer sim, ela pode dizer não. Está em aberto.” Sua opinião sobre Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro e candidato do Partido Liberal ao Palácio da Alvorada, no entanto, não foi tão aberta assim.
A atriz já expressou admiração pelo ex-presidente, mas se recusou a confirmar se mantém a mesma admiração por seu herdeiro político. “Você está me perguntando em quem eu vou votar? Fale do que fale, você vai concluir que eu vou votar nele ou não vou. A resposta é essa. Eu não vou responder em quem eu vou votar, tá?”, afirmou Regina, com um tom de voz firme e gestos que beiravam o teatral.
Legado na teledramaturgia brasileira persiste
Mesmo com a tensão da entrevista, as qualidades que fizeram de Regina Duarte um nome central na teledramaturgia brasileira ainda são evidentes. A artista mantém o mesmo magnetismo, a verve dramática e a intensidade emocional que consagraram suas personagens no Brasil e internacionalmente.
Uma de suas atuações mais icônicas foi como Raquel Acioli, heroína da novela “Vale Tudo”, exibida entre 1988 e 1989. No ano passado, a trama ganhou um remake que foi alvo de críticas devido às alterações em relação ao enredo original. “Eu jamais faria uma coisa dessas. Pegar o título de um ícone da teledramaturgia brasileira e fazer as mudanças que foram feitas”, declarou Regina.
As mudanças mais impactantes ocorreram justamente na protagonista, interpretada na nova versão por Taís Araujo. Na releitura, a cozinheira retorna à venda de sanduíches na praia após a falência de sua empresa — um detalhe que não existia na obra original. “O que é isso? Que personagem é essa? Eu não reconheço o meu personagem”, disse Regina.
A atriz reforça sua insatisfação: “Não chama de ‘Vale Tudo’. A novela pode ter sido ótima, embora eu não tenha visto, mas não podia chamar ‘Vale Tudo’.”
Outra personagem que deixou sua marca foi Malu, da série “Malu Mulher”, exibida em 1979 e 1980. A produção foi pioneira ao abordar temas que só seriam amplamente debatidos anos mais tarde, como a independência feminina. Para Regina, a personagem foi um ponto de virada em sua vida. “Ela me tornou uma nova mulher. Abriu a minha cabeça dizendo ‘é possível, sim, ter vontade, ter opinião, lutar por isso tudo.’”
Apesar de seu papel em “Malu Mulher”, a artista afirmou que não se considera feminista. “Não gosto dessas ‘tachações’, porque tem hora que eu sou machista para caramba. Tem hora que eu acho que é a hora do homem botar o pé na porta. E eu agradeço, porque não quero fazer isso. Eu quero entregar essa função para ele, sabe? Acho que a gente tem que dividir.”
O reencontro artístico de mãe e filha
Falando em parcerias, Regina e Gabriela Duarte formaram uma das duplas mais requisitadas da dramaturgia nacional. A novela “Por Amor”, clássico de Manoel Carlos exibido em 1997 e 1998, é um dos maiores exemplos do sucesso dessa dobradinha.
Na trama de “Por Amor”, Regina interpretou uma das Helenas do autor, enquanto Gabriela deu vida à sua filha. Após esse trabalho, elas fizeram outras duas produções juntas em 1999: a minissérie “Chiquinha Gonzaga” e a peça “Honra”. Depois desses projetos, Gabriela optou por se afastar da parceria, explicando: “O que eu busquei foi entender a minha própria identidade.”
Essa busca por sua identidade, contudo, foi complexa e desafiadora. “Eu ouvi muitas vezes assim ‘a sua carreira vai acabar.’” Mesmo com os comentários, a atriz manteve sua decisão e seguiu um caminho próprio. Agora, encerrada sua jornada solo, Gabriela retorna aos palcos ao lado da mãe em “A Filha da…”, uma comédia nonsense dirigida por Darson Ribeiro, que também conta com Vinícius Tardelli e Clau Carvalho no elenco.
A trama, ambientada nos anos 1990, mostra Gabriela interpretando uma mulher obcecada pela princesa Diana. Ao chegar em casa, a personagem vê a foto do agora rei Charles 3º em um jornal e atira na fotografia, num ato que parece uma vingança pelas traições do monarca. No entanto, ela mata o marido acidentalmente. A partir daí, a personagem tenta esconder o crime com a ajuda da mãe, vivida por Regina Duarte.
Gabriela comentou sobre a experiência: “A descoberta de como fazer uma peça tão fora do convencional é muito divertida”, e acrescentou que explorar esse novo território tem sido um desafio estimulante. “Mas ainda bem que os desafios existem, porque a gente gosta.”
Regina Duarte concorda com a filha, ressaltando que o espetáculo possui uma estranheza cativante. “Ele sai daquele patamar que as pessoas esperam da’.”
