Moagem de cana cresce com tempo seco; Unica vê impacto pontual de coronavírus
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Moagem de cana cresce com tempo seco; Unica vê impacto pontual de coronavírus

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) – A moagem de cana do centro-sul do Brasil na primeira quinzena de março somou 2,99 milhões de toneladas, aumento de 88% na comparação com o mesmo período do ano passado, à medida que o tempo seco permitiu que mais empresas operassem neste período que antecede o início oficial da safra na região, em 1º de abril, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira pela associação Unica.

Mas a indústria da principal região produtora de cana do país tem sofrido impactos pontuais de ações para controlar o coronavírus, que levaram algumas empresas a postergarem o início da moagem para abril, disse à Reuters o diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues, avaliando que os problemas estão sendo resolvidos.

Ele disse que, até o final do mês, 79 unidades (incluindo 11 que produzem etanol de milho) estarão em operação, ante 80 usinas ao fim de março de 2019, após 12 usinas postergaram o início dos trabalhos para a primeira quinzena de abril.

“Foi seco o clima, foi favorável para a moagem na quinzena, dentro da normalidade. Mas algumas tiveram problema pontuais… Essa postergação… algumas tiveram problema de não conseguir concluir manutenção industrial, algumas fizeram grandes manutenções”, afirmou Padua, explicando que determinadas empresas não liberaram trabalhadores e outras tiveram até dificuldades de conseguir hotéis nos municípios.

As restrições impostas pelo coronavírus por algumas localidades afetaram ainda a emissão de autorização de transporte de cana, e mesmo as poucas áreas que dependem de trabalhadores para a colheita manual tiveram atrasos, que devem ser resolvidos, segundo Padua, já que o setor confia que a indústria de alimentação e combustíveis seja considerada essencial e isenta de restrições pela doença.

Na primeira quinzena deste mês, 26 usinas iniciaram a moagem e, até o dia 16 de março, o centro-sul contava com 43 unidades em operação, sendo 32 usinas processando cana-de-açúcar e 11 empresas com fabricação de etanol de milho (sendo três dedicadas exclusivamente ao processamento desta matéria-prima).

Na mesma data de 2019 foram registradas 25 unidades processando cana e outras seis somente com milho.

Ainda assim, a produção de açúcar do centro-sul na primeira quinzena de março foi considerada “marginal”, somando apenas 40,83 mil toneladas, segundo a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

Já a produção de etanol saltou 72% na primeira parte de março, para 244 milhões de litros –ainda em volumes distantes de meses de maior operação–, com o setor destinando quase 90% da cana para a fabricação do biocombustível.

A Unica prevê que 198 usinas estarão em operação na região centro-sul até 15 de abril, quando a nova safra já estiver sendo efetivamente contabilizada, contra 157 unidades registradas em igual período do ano passado.

MIX

A entidade disse ainda que as empresas estão tomando cuidados necessários devido ao coronavírus para manter operações e garantir oferta de etanol e açúcar, além de eletricidade.

A Unica observou também que a matéria-prima cana, por suas características, não pode ser estocada, o que impede a interrupção do processo produtivo.

Uma interrupção impactaria “severamente os mais de 700 mil trabalhadores da indústria e os 70 mil produtores agrícolas de cana-de-açúcar”, comentou Padua.

O coronavírus, que tem causado uma reviravolta nos mercados de combustíveis, poderá impactar a quantidade de cana destinada à fabricação de açúcar ou etanol. Mas o diretor da Unica avalia que ainda é cedo para previsões mais certeiras.

“Acho que é muito difícil (falar de mix), as usinas nossas têm capacidade de migrar de uma hora para outra (para açúcar e etanol), essa primeira quinzena não dá pra gente ainda ter uma ideia clara”, afirmou ele.

Mas o diretor opinou.

“Não acredito que a safra será tão mais açucareira como algumas projeções indicam por aí. Algumas empresas vão ver melhor o cenário (antes de definirem o mix), o que vai acontecer com o mercado mundial de açúcar, se vai ter essa necessidade (de açúcar)”, disse ele, diante de expectativa de um déficit global do adoçante.

“O etanol, o que tiver, vai ter demanda, demanda no mercado interno vai ter, pode não ter preço”, admitiu ele, uma vez que a Petrobras tem reduzido fortemente os valores dos combustíveis, na esteira da derrocada dos valores do petróleo.

Dados preliminares de mercado citados pela Unica indicam que houve crescimento superior a 3% no consumo de combustíveis do ciclo Otto no país em fevereiro, e que a uma “retração esperada em decorrência das medidas para conter a disseminação da Covid-19 só deve ser observada a partir de março”.

(Por Roberto Samora; edição de Luciano Costa)

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