RJ: com isolamento, Caminhada pela Vida não sai pela 1ª vez em 15 anos
Agência Brasil

RJ: com isolamento, Caminhada pela Vida não sai pela 1ª vez em 15 anos

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Pela primeira vez desde 2005, a Caminhada pela Vida não vai ser realizada. A pandemia do novo coronavírus impediu que a manifestação se repita por trechos da Rodovia Presidente Dutra, em Queimados e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Durante todos esses anos, mães e outras pessoas das famílias de vítimas da violência de Estado fazem a Caminhada Pela Vida para marcar a Chacina da Baixada. 

No dia 31 de março de 2005, 29 pessoas foram mortas por policiais, que descontentes com mudanças feitas pelo comando da Polícia Militar, saíram de um bar da região, entraram em um carro e fizeram disparos pelas ruas por onde passaram nos dois municípios.

“As pessoas foram assassinadas a esmo. Foi uma crueldade. Um banho de sangue.”, apontou o jornalista e assessor do Fórum Grita Baixada, Fábio León, em entrevista à Agência Brasil.

Caminhada suspensa

León ressaltou que com as medidas de isolamento social adotadas no país baseadas em orientações da Organização Mundial de Saúde para combate à disseminação do novo coronavírus, não havia condição de fazer a Caminhada pela Vida, ato incluído no calendário oficial de Nova Iguaçu, após a promulgação da lei de criação da Semana de Luta de Mães e Familiares Vítimas da Violência. 

No lugar da caminhada, o Fórum Grita Baixada organizou uma série de iniciativas para não deixar a data no esquecimento. Desde terça-feira passada (24), o Fórum está fazendo a campanha 15 anos da Chacina da Baixada, com a publicação de cards nos seus perfis nas redes sociais e no seu site. A intenção é que as mensagens sejam divulgadas em outras redes sociais.

⚠⚠⚠CHACINA DA BAIXADA 15 ANOS: De 24 até 31 de março, o Fórum Grita Baixada promove a “Campanha 15 anos da Chacina da…

Publicado por Fórum Grita Baixada em Sábado, 28 de março de 2020

O jornalista chamou atenção para a necessidade de tornar essas questões mais visíveis, como também, o papel que as comunidades e periferias vêm desempenhando neste momento de combate ao novo coronavírus, especialmente, em localidades onde o abastecimento de água não é regular, que é mais um problema da região. “As comunidades estão criando iniciativas próprias para doações e coleta de materiais de higiene pessoal, porque também não têm dinheiro para comprar álcool em gel.

Tristeza

Luciene Silva, de 54 anos perdeu o filho Rafael, que tinha 17 anos no dia da Chacina da Baixada. Junto com outras 19 mães, ela integra a Rede de Mães Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense. Luciene disse ter tristeza de ver que esse tipo de violência continua existindo. “Infelizmente essa violência só cresceu de 2005 para cá. A Rede une essas mães para dar voz a essa dor de tanta saudade, de tanta revolta, de indignação, da perda enorme das mães e dos familiares. É um símbolo o 31 de março para a gente”, contou à Agência Brasil.

De acordo com o coordenador executivo do Fórum Grita Baixada, Adriano Araújo, as mães se reúnem, quinzenalmente, com psicólogas do Núcleo de Atendimento Psicossocial a afetados pela Violência de Estado, que já faziam o trabalho no Rio de Janeiro. “Esse foi o avanço que a gente conseguiu em termos sociais às mães e familiares, mas do ponto de vista de políticas públicas, os resultados são muito tímidos”, comentou com a reportagem, destacando que diante do cenário, é preciso reconhecer a criação da Semana de Luta de Mães e Familiares Vítimas da Violência.

“Mas do ponto de vista prático, a violência de Estado, a violência policial, as chacinas, sejam cometidas por agentes públicos ou por outros agentes criminosos, continuam.”

Impactos

Para Luciene que é mãe de outros três filhos, é importante continuar com conscientização dos impactos da violência de Estado na região, para que a Chacina da Baixada não seja esquecida, mas também porque existem novas vítimas. “Depois da chacina me dei conta da realidade que estava ocorrendo a minha volta. É difícil você perceber quando a violência não chega a sua casa, na sua família, mas quando chega a gente leva um choque e é um impacto muito grande. A gente abre os olhos para o mundo”, apontou, lembrando, que quando perdeu o filho, foi acolhida por um grupo de mães na mesma condição que eram de comunidades do Rio.

“Uma coisa é você ter consolo de uma pessoa da sua família ou de um amigo. Outra coisa é você ser consolada e abraçada por uma mãe que também perdeu o filho. Ela é sua companheira de dor. Ela entende a dor que você está sentindo”, contou, destacando, que as vítimas eram da mesma faixa etária do Rafael.

Segundo Luciene, as mães ficaram frustradas de não poderem fazer a Caminhada pela Vida, mas reconheceu que diante da gravidade da situação causada pelo novo coronavírus, não havia condição de fazer a manifestação. “A gente tem que ser responsável quanto a isso. Como a gente preserva a vida fazendo uma homenagem a quem se foi, mas defendendo a vida, a gente não pode cometer algo que seja contrário a isso, pondo as pessoas em risco, fazendo o contrário do que deve ser feito contra essa pandemia que a gente está vivendo”, completou.

Sem possibilidade de realizar a Caminhada pela Vida, Fábio León postou nas redes sociais do Fórum, um vídeo de 3 minutos feito por ele com depoimento de quatro mães. “A gente tentou preponderar muito mais a luta delas do que o luto para reforçar a importância da militância delas”, disse.

Além disso a produtora Quiprocó abriu no seu site a visualização do documentário Nossos Mortos Têm Voz de 2018, dirigido e roteirizado por Fernando Souza e Gabriel Barbosa.

Segundo Luciene, dos cinco policiais condenados após a Chacina, um ficou em liberdade porque o crime teve outra tipificação. Agora ele está foragido, depois de ter sido condenado por outro crime de morte de jovem. Os restantes permanecem presos no Complexo Penitenciário de Bangu.

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