Aras reforça críticas à Lava Jato e afirma que República não combina com heróis, dizem senadores
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmou nesta quarta-feira (29) que a República “não combina com heróis”, em uma crítica a integrantes da Operação Lava Jato.
O relato foi feito por senadores que participaram de reunião com Aras.
“Ele [Aras] disse que uma República não combina com heróis”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), um dos participantes do encontro.
“Ele disse que sofre uma oposição sistemática dentro do MP [Ministério Público], mas ele acredita que não pode haver dois MPs, um MP com a web oficial e outro com um grupo privatizado”, afirmou o congressista.
O encontro virtual foi realizado a pedido do grupo Muda Senado. Aras foi contatado pelo senador Marcos do Val (Podemos-ES). Ao todo, oito congressistas participaram da conversa.
Segundo o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), o procurador-geral reforçou ainda mais as críticas já feitas anteriormente aos integrantes da Lava Jato.
“Ele repete as mesmas ilações [contra a Lava Jato], ao mesmo tempo em que defende o trabalho e o legado da Lava Jato, mas ele diz que tem um banco de dados muito grande que não é conhecido”, disse Vieira.
O MPF (Ministério Público Federal) atravessa uma crise que opõe a cúpula da instituição em Brasília e integrantes das forças-tarefas da Lava Jato.
Nesta terça-feira (29), Aras já havia afirmado que a operação em Curitiba tem “caixa de segredos”. A afirmação foi feita durante encontro virtual com o grupo Prerrogativas.
“Em todo o MPF [Ministério Público Federal] no seu sistema único tem 40 terabytes. Para o funcionamento do seu sistema, a força-tarefa de Curitiba tem 350 terabytes e 38 mil pessoas com seus dados depositados, que ninguém sabe como foram escolhidos”, afirmou Aras.
“Não se pode imaginar que uma unidade institucional se faça com segredos, com caixas de segredos.”
A fala do chefe do MPF ocorreu durante a webconferência Os Desafios da PGR em Tempos de Pandemia, promovida pelo grupo Prerrogativas.
Aras disse que recentemente foram descobertos 50 mil documentos invisíveis à corregedoria.
“Não podemos aceitar 50 mil documentos sob opacidade. É um estado em que o PGR não tem acesso aos processos, tampouco os órgãos superiores, e isso é incompatível”, afirmou.
Ele fez o comentário ao abordar a proposta de criação da Unac (Unidade Nacional de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado) em discussão no MPF. A equipe da Lava Jato repudiou as críticas e afirmou que não há segredos.
No mês passado, a PGR tentou ter acesso aos dados armazenados pela investigação no Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo.
Na ocasião, a força-tarefa em Curitiba recebeu a visita de Lindôra Araújo, uma das principais auxiliares de Aras, mas se recusou a entregar os dados, questionando a legalidade da busca e acusando o procurador-geral de “manobra ilegal”.
Segundo a força-tarefa, não houve comunicação de qual seria a pauta da reunião. Os procuradores afirmaram que “não foi formalizado nenhum ofício solicitando informações ou diligências, ou informando procedimento correlato, ou mesmo o propósito e o objetivo do encontro”.
Sob o argumento de que o acesso tem respaldo em decisões judiciais, incluindo despacho de 2015 do então juiz Sergio Moro, Aras recorreu ao Supremo Tribunal Federal.
O presidente da corte, Dias Toffoli determinou o compartilhamento de dados. Ao expedir a ordem, o ministro afirmou que a postura da Lava Jato viola o princípio da unidade do Ministério Público.
“No momento existe em curso uma intensa movimentação para acabar com a Lava Jato e para desqualificar todos os atores públicos responsáveis pelo êxito dessa operação. Não podemos permitir esta inversão absurda “, disse o senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR).
Ainda segundo os senadores, nesta quarta, Aras afirmou que pediu um laudo pericial do sistema de distribuição eletrônica de processos. Segundo o procurador-geral afirmou aos senadores, o processo “era totalmente fraudável e que poderia ter direcionamento para chegar em procuradores”.
“Ele disse que até a escolha da lista tríplice era um sistema passível de fraude”, disse Rodrigues.
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