Aprosoja rebate Biden e aponta baixa competitividade agrícola dos EUA e UE

Fronteira entre área agrícola e floresta amazônica em Mato Grosso

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) – A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) rebateu nesta quarta-feira ameaças do candidato à Presidência dos Estados Unidos Joe Biden relacionadas à Amazônia e apontou que muitas críticas ambientais feitas por países do Hemisfério Norte estariam relacionadas à baixa competitividade em relação à agricultura do Brasil.

A avaliação do presidente da Aprosoja, Bartolomeu Braz Pereira, ecoou posição do presidente Jair Bolsonaro, que classificou a declaração de Biden como “desastrosa” e “gratuita”.

Questionado em uma coletiva de imprensa para esclarecer motivos que levaram a Aprosoja a deixar a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), em meio a divergências sobre como o setor produtivo deve se portar diante dos desafios ambientais, Braz Pereira disse que Biden está “fazendo política” ao ameaçar o Brasil.

Biden propôs em debate com Donald Trump na véspera que países de todo mundo se reúnam para fornecer 20 bilhões de dólares para a preservação da Amazônia e disse que o Brasil enfrentará “consequências econômicas significativas”, caso o país não pare a destruição da floresta e se ele for eleito.

“O Joe Biden está ali fazendo política, vimos pelo debate um nível muito baixo para uma potência mundial”, afirmou Braz Pereira.

Ele acrescentou que muitos países do Hemisfério Norte não têm uma agricultura competitiva e por isso atacam o Brasil sob o ponto de vista do meio ambiente.

E lembrou que o presidente francês, Emmanuel Macron, também fez declarações nessa linha recentemente, já que a França não seria competitiva no meio rural, despejando bilhões por ano em subsídios.

“A França e a União Europeia têm dificuldade de seus produtores serem competitivos… colocaram os produtores com tantos subsídios… A Europa hoje dá mais de 100 bilhões de dólares de subsídios àqueles produtores, e produz muito menos que nós…”, afirmou.

Ele apontou também que os EUA dariam 90 bilhões de dólares de subsídios aos seus produtores, supostamente devido à baixa competitividade.

“Além de termos florestas, nós nos tornamos competitivos. Eles não têm florestas e não são competitivos, então cria-se algo para atacar o modelo brasileiro”, completou.

O Brasil é o maior produtor e exportador global de soja, à frente dos EUA, que por sua vez têm uma produção de milho que supera a brasileira em mais de três vezes.

RESERVAS AMBIENTAIS

Pereira argumentou que o modelo do Brasil, com delimitação de reservas ambientais dentro das propriedades rurais, é vencedor sob o ponto de vista da produção e da preservação ambiental.

Com relação a queimadas, o presidente da Aprosoja disse que quem mais perde com o fogo são os produtores rurais, por conta da queima da palha usada no plantio direto, base da agricultura brasileira altamente produtiva.

E por isso não há interesse de agricultores atearem fogo em qualquer área, afirmou ele. Quando a palha deixada de uma safra para a outra queima, as terras perdem umidade com mais facilidade e a lavoura tem sua produtividade reduzida, algo que leva anos para ser recuperado.

Por isso, ele ressaltou que o setor rural tem aparato de combate a incêndios maior que o Estado e tem realizado operações contra fogo.

Ele ainda defendeu a regularização fundiária para que se possa saber o que é desmatamento legal e o que é ilegal, algo que defendeu que deve ser punido.

Bartolomeu disse que os produtores devem exercer seu “direito de propriedade”, incluindo desmatar áreas dentro da legalidade, respeitando os limites estabelecidos para cada região do país, conforme o Código Florestal.

Sobre especificamente a saída da Aprosoja da Abag, o líder agrícola disse que isso ocorreu porque a associação do agronegócio não estava ouvindo os anseios do setor de soja, e isso, segundo ele, não colabora com uma necessária mudança de visão de que o agricultor não somente produz no Brasil, mas também preserva o meio ambiente.

“A Abag representa o negócio e não entende o que é produção”, disse ele, ressaltando que não faltou diálogo antes dos associados da Aprosoja votarem pela saída da Abag.

O presidente da Aprosoja disse ainda que outras entidades do agronegócio estão agora buscando uma união para mostrar à sociedade que o setor produz e preserva.

Procurada, a Abag afirmou que todos os membros da associação estão sujeitos às mesmas regras, e que os participantes ganham e perdem nos diversos temas, e “isso é o que caracteriza uma associação de diálogo”.

“Nossa credibilidade, ação pela sustentabilidade, legalidade e atuação apolítica do Agro nacional no Brasil e no exterior é histórica e dispensa comentários, é conhecida e transparente. Portanto mais uma vez somente lamentamos a saída de um membro da mesa de diálogo.”

A Abag disse também que continuará a “luta em defesa total por um só agronegócio”, que seja “responsável, sustentável e legal, características do Agro nacional”.

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