Deputado Glauber Braga é detido durante desocupação da UERJ em meio a tensão entre PM e estudantesPor Carolina Costa
Atualizado 7 min de leitura
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Em um episódio que gerou ampla repercussão, o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) foi detido pela Polícia Militar do Rio de Janeiro na tarde de 20 de setembro de 2024, enquanto participava de um ato de apoio aos estudantes que ocupavam a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A ação da polícia ocorreu em cumprimento a uma ordem judicial que determinava a desocupação dos prédios da universidade, ocupados pelos manifestantes desde julho.
Contexto da Ocupação na UERJ
A ocupação na UERJ começou em julho de 2024 como uma resposta dos estudantes aos cortes nos auxílios estudantis essenciais, como o auxílio-alimentação e a Bolsa Auxílio Vulnerabilidade Social (BAVS), que impactam diretamente os alunos mais carentes. Essas políticas são vitais para a permanência dos estudantes na universidade, e os cortes levaram à mobilização dos alunos para pressionar as autoridades e a reitoria da instituição. A decisão de desocupar os prédios foi emitida por uma juíza da 13ª Vara do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que deu prazo para que os manifestantes deixassem o local voluntariamente.
No entanto, os estudantes resistiram à ordem judicial, mantendo o bloqueio em várias áreas da universidade, o que acabou levando à intervenção da Polícia Militar. Com a chegada da PM ao campus, o confronto se intensificou, especialmente após a utilização de bombas de efeito moral por parte das autoridades, que foram lançadas para dispersar os manifestantes.
A Atuação de Glauber Braga e sua Detenção
Glauber Braga, que se encontrava no local para apoiar os estudantes, tentou mediar a situação, buscando um diálogo com as forças policiais para evitar uma escalada da violência. Durante a tentativa de impedir a ação da tropa de choque, o deputado foi atingido por spray de pimenta, assim como outros manifestantes, e acabou detido. Em um vídeo que circula nas redes sociais, é possível ver o momento em que Braga é levado pelos policiais, gerando protestos por parte dos estudantes presentes.
O parlamentar foi levado, junto com outros manifestantes, para a Cidade da Polícia, localizada no bairro de Jacarezinho. Entre os detidos, além de Glauber, estavam dois estudantes e um jornalista que cobria o evento. O deputado Tarcísio Motta, também do PSOL e candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, acompanhou a situação na delegacia, onde a defesa dos detidos foi organizada.
Polêmica sobre a Legalidade da Prisão
A prisão de Glauber Braga gerou indignação entre políticos e representantes de movimentos sociais, que consideram a ação da Polícia Militar uma medida desproporcional e inconstitucional. A Constituição brasileira garante imunidade parlamentar, permitindo que um deputado federal só seja preso em caso de flagrante por crime inafiançável, o que não se aplicaria ao contexto da desocupação. Esse ponto foi levantado pela deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), esposa de Braga, que criticou a ação da polícia e afirmou que a detenção de seu marido foi um ato arbitrário. Ela destacou que Glauber estava no local em defesa dos estudantes, que enfrentavam ameaças e agressões por parte da tropa de choque.
Em nota, o PSOL do Rio de Janeiro classificou a prisão do deputado como uma tentativa de silenciar a luta dos estudantes e ressaltou o uso de força excessiva pela PM, que contou com o apoio de veículos blindados, conhecidos como “caveirões”, além de armamento menos letal. A sigla também destacou que Braga estava no local como defensor dos direitos humanos e dos direitos dos estudantes, e não deveria ter sido alvo de detenção.
Ação Policial e Reação dos Estudantes
A ação policial na UERJ, que foi amplamente criticada, envolveu o uso de helicópteros para monitorar a situação e o reforço de tropas na região do campus do Maracanã. A Polícia Militar justificou a necessidade de intervenção alegando que os manifestantes teriam ateado fogo em objetos para bloquear a Rua São Francisco Xavier, uma das principais vias de acesso à universidade, o que configuraria um risco à segurança pública.
Em contrapartida, os estudantes relataram que a ação da polícia foi violenta desde o início, com o uso de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar o grupo. Muitos relataram ferimentos leves e dificuldades respiratórias devido ao uso de substâncias químicas pela PM. Os estudantes também criticaram o fato de a polícia não ter tentado negociar antes de recorrer ao uso da força.
A ocupação na UERJ faz parte de um movimento mais amplo de resistência ao desmonte das políticas públicas de permanência estudantil no Brasil. Nos últimos anos, cortes no orçamento destinado a universidades públicas têm gerado preocupações entre alunos e professores sobre a viabilidade de manutenção de programas que garantem o acesso de estudantes de baixa renda ao ensino superior. A situação na UERJ se tornou emblemática dessa luta, e a prisão de um parlamentar que tentava interceder em favor dos estudantes trouxe ainda mais visibilidade à causa.
Desdobramentos Legais e Políticos
Ainda não há clareza sobre os próximos passos legais envolvendo a prisão de Glauber Braga e os demais manifestantes. Advogados do parlamentar afirmam que já estão preparando medidas judiciais para reverter a detenção e responsabilizar as autoridades envolvidas pelo abuso de poder. A imunidade parlamentar será um dos principais argumentos da defesa, que deve levar o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) se necessário.
Do ponto de vista político, a detenção de um deputado federal em um protesto estudantil pode ter repercussões significativas. Movimentos sociais e estudantis têm convocado novos atos em apoio a Glauber Braga e aos estudantes da UERJ, e há expectativas de que o caso ganhe ainda mais destaque nas discussões sobre a liberdade de manifestação e os limites da atuação policial em contextos de protestos.
Além disso, o episódio reforçou o debate sobre a importância de políticas públicas de apoio a estudantes carentes e o papel do Estado na manutenção dessas políticas. Com a proximidade das eleições municipais, o tema da educação pública e dos cortes orçamentários deve ganhar ainda mais relevância, especialmente entre candidatos progressistas, como é o caso de Tarcísio Motta, que está diretamente envolvido na defesa dos direitos dos estudantes da UERJ.
O caso de Glauber Braga e a ocupação da UERJ são símbolos de uma disputa maior entre diferentes visões sobre o papel do Estado na educação e nos direitos sociais. A tensão entre estudantes, governo e forças de segurança mostra a complexidade de se resolver conflitos que envolvem direitos fundamentais, como o acesso à educação e a liberdade de manifestação. A detenção do parlamentar, que deveria gozar de imunidade em situações como essa, coloca em evidência questões legais e políticas que ainda precisarão ser debatidas tanto no âmbito jurídico quanto no campo público.







