Marido de Deise Moura pediu divórcio um dia antes de sua morte na prisão no caso do bolo envenenado no RS
Deise Moura dos Anjos, acusada de envenenar familiares com arsênio em Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, foi encontrada morta na Penitenciária Estadual Feminina de Guaíba na manhã desta quinta-feira (13). A morte ocorreu um dia após seu marido, Diego dos Anjos, comunicar-lhe a decisão de se divorciar. O caso, que já gerava grande repercussão devido à gravidade dos crimes e às relações familiares conturbadas, ganha novos desdobramentos enquanto a polícia investiga as circunstâncias do falecimento da acusada.
O histórico de conflitos entre Deise e a família de Diego se estendia por anos, mas as investigações apontam que a situação se intensificou nos meses que antecederam o crime. Segundo depoimentos colhidos pela Polícia Civil, Deise já demonstrava sinais de instabilidade emocional e apresentava comportamentos agressivos em discussões com parentes. Relatos indicam que sua relação com a sogra, Zeli dos Anjos, era particularmente difícil, sendo este um dos possíveis motivos para o planejamento do envenenamento.
A sequência de acontecimentos que culminou na morte de Deise levanta diversas questões sobre a dinâmica familiar e os possíveis fatores que a levaram a cometer os crimes. A tragédia começou em setembro de 2024, com a morte do sogro Paulo Luiz dos Anjos, cuja causa inicialmente não levantou suspeitas, mas que depois foi associada à ingestão de arsênio. O envenenamento do bolo, ocorrido na véspera de Natal do mesmo ano, resultou na morte de três pessoas e em outras duas hospitalizadas.
Histórico de desavenças e relação conturbada
O casamento entre Deise e Diego já enfrentava dificuldades antes mesmo da morte do sogro. Em depoimentos à polícia, Diego afirmou que a relação entre eles se deteriorou drasticamente após o falecimento do pai, e que havia considerado a separação por diversas vezes, mas adiou a decisão por conta do filho do casal. Segundo o marido, Deise tinha um temperamento explosivo e era controladora em relação às finanças da família. Ele relatou que, em momentos de tensão, ela se tornava agressiva e hostil.
A crise conjugal se tornou mais evidente nos meses seguintes ao crime do bolo envenenado. A polícia apurou que Diego se distanciou emocionalmente da esposa e passou a questionar seu comportamento, principalmente após a descoberta do arsênio na perícia dos corpos das vítimas. A revelação das evidências contra Deise fez com que o relacionamento se tornasse insustentável, culminando no pedido formal de divórcio, feito apenas um dia antes de sua morte na penitenciária.
O envenenamento e as investigações sobre o caso
A investigação revelou que Deise Moura dos Anjos adquiriu o arsênio pela internet e pesquisou métodos de envenenamento antes dos crimes. O primeiro episódio suspeito foi a morte de Paulo Luiz dos Anjos, ocorrida em setembro de 2024. Na época, a causa foi atribuída a problemas de saúde, mas novos exames revelaram que a vítima havia ingerido quantidades letais de arsênio, o que levantou suspeitas sobre a participação da acusada.
No dia 24 de dezembro de 2024, durante uma confraternização familiar, um bolo contaminado com arsênio foi servido. Cinco pessoas passaram mal após ingerir o alimento, e três delas não resistiram: Maida Berenice da Silva, de 59 anos, Neuza Denise dos Anjos, de 65 anos, e Tatiana Denise dos Anjos, de 47 anos. A perícia confirmou que o bolo continha altos níveis da substância tóxica. As investigações indicam que Deise tinha a sogra como principal alvo, mas outras vítimas acabaram ingerindo o veneno.
Tentativas de ocultação dos crimes e novos desdobramentos
Após a ingestão do bolo, a sogra de Deise, Zeli dos Anjos, sobreviveu ao envenenamento e foi internada. Posteriormente, a polícia descobriu que Deise tentou levar um pastel para Zeli no hospital, o que gerou suspeitas de uma nova tentativa de envenenamento. A vigilância hospitalar impediu que o alimento fosse consumido, o que pode ter evitado outra tragédia.
Outro fator que chamou a atenção das autoridades foi a tentativa de cremação do corpo de Paulo Luiz dos Anjos, o sogro da acusada. A polícia acredita que Deise tentou eliminar provas do crime antes que os exames revelassem a presença de arsênio no organismo da vítima. A exumação do corpo, realizada no final de 2024, foi um dos elementos cruciais para a reabertura do caso e o indiciamento de Deise.
O impacto da prisão e as circunstâncias da morte
Desde sua prisão preventiva, em janeiro de 2025, Deise estava isolada das demais detentas por medida de segurança. A penitenciária afirmou que a acusada recebia acompanhamento psicológico, mas sua morte, ocorrida um dia após o pedido de divórcio, levanta questionamentos sobre o monitoramento de sua saúde mental dentro da unidade. A causa preliminar da morte sugere suicídio, mas a perícia ainda investiga se houve qualquer outro fator envolvido.
A Polícia Civil informou que encontrou uma carta deixada por Deise, cujo conteúdo não foi divulgado. A análise das imagens de segurança e dos registros de movimentação dentro da penitenciária devem auxiliar na determinação das circunstâncias exatas da morte.
Aspectos técnicos e químicos do arsênio como veneno
O arsênio é um dos venenos mais utilizados ao longo da história devido à sua dificuldade de detecção em exames médicos convencionais. Entre seus efeitos, estão vômitos, diarreia intensa, falência renal e, em doses letais, a morte por falência múltipla dos órgãos. A exposição prolongada ao arsênio pode causar sintomas menos perceptíveis, como fraqueza muscular, convulsões e alterações neurológicas.
No caso do bolo envenenado, a perícia encontrou resíduos da substância nos ingredientes e nas embalagens utilizadas por Deise. A quantidade detectada no organismo das vítimas indicou que a dose foi altamente letal, sem chance de reversão após a ingestão.
Consequências jurídicas e novas investigações
A morte de Deise encerra um capítulo do caso, mas deixa em aberto diversas questões que ainda precisam ser respondidas. A polícia continua analisando se houve outras vítimas antes do episódio do bolo envenenado, já que o histórico familiar sugere que os crimes podem ter sido premeditados ao longo do tempo. A Justiça do Rio Grande do Sul também avalia a possibilidade de novas diligências para aprofundar as investigações.
O caso do bolo envenenado se tornou um dos mais impactantes do estado nos últimos anos, chamando a atenção para a complexidade das relações familiares e os riscos de conflitos não resolvidos. A tragédia resultou na perda de várias vidas e deixou sequelas emocionais nos sobreviventes.
Fatores psicológicos e criminológicos no perfil de Deise Moura
Especialistas em criminologia analisam que crimes de envenenamento geralmente são cometidos por indivíduos com perfil manipulador e grande capacidade de dissimulação. Em suas redes sociais, Deise frequentemente postava mensagens sobre família e amor, mas os depoimentos colhidos pela polícia revelam um comportamento controlador e agressivo dentro do lar.
O uso do arsênio e a tentativa de ocultação de provas indicam planejamento e frieza na execução dos crimes. O histórico de controle financeiro e os desentendimentos com a família do marido reforçam a hipótese de que os envenenamentos foram premeditados, motivados por desavenças e conflitos familiares.
As autoridades seguem investigando possíveis novos desdobramentos do caso. O Ministério Público pode requisitar a reabertura de inquéritos sobre outras mortes suspeitas na família. A Justiça também analisa o impacto jurídico da morte de Deise sobre os processos já instaurados, considerando que a ação penal contra ela será extinta em razão do falecimento.

















