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Ottawa testemunhou um marco histórico neste domingo, 9 de março, com a eleição de Mark Carney como líder do Partido Liberal e, consequentemente, novo primeiro-ministro do Canadá. Aos 59 anos, o ex-banqueiro central, que nunca ocupou um cargo eletivo, venceu a disputa interna com 85,9% dos votos, superando nomes como Chrystia Freeland, Karina Gould e Frank Baylis. A escolha ocorre em um momento crítico para o país, que enfrenta uma guerra comercial com os Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, marcada por tarifas de 25% sobre produtos canadenses e ameaças de anexação. Carney, conhecido por sua gestão durante crises globais, como a recessão de 2008 e o Brexit, assume o comando com a promessa de proteger a soberania e a economia canadense. Sua trajetória inclui 13 anos no Goldman Sachs, a liderança do Banco do Canadá entre 2008 e 2013 e do Banco da Inglaterra até 2020, além de papéis na ONU como enviado especial para ações climáticas.

A renúncia de Justin Trudeau, anunciada em janeiro após quase uma década no poder, abriu caminho para essa transição. Trudeau, que enfrentava queda de popularidade devido a questões como inflação e crise habitacional, deixou o cargo em meio a pressões internas e externas. Carney, que já atuou como conselheiro econômico informal de Trudeau durante a pandemia, agora lidera um partido que busca se reinventar diante de desafios inéditos.

Centenas de apoiadores, vestidos de vermelho e branco, lotaram o centro de convenções em Ottawa para celebrar a vitória. O evento, carregado de simbolismo, reflete a urgência de um Canadá unido contra as provocações de Trump, que já chamou o país de “51º estado” americano.

Trajetória de Carney impulsiona sua ascensão

Um outsider no poder

Mark Carney chega ao cargo de primeiro-ministro com um perfil único na história canadense. Nascido em Fort Smith, nos Territórios do Noroeste, e criado em Edmonton, Alberta, ele construiu uma carreira sólida no setor financeiro antes de entrar na política. Graduado em economia por Harvard e com mestrado e doutorado em Oxford, Carney passou 13 anos no Goldman Sachs, onde atuou em diversas capitais globais. Em 2003, ingressou no Banco do Canadá como vice-governador, assumindo a liderança em 2008, durante a crise financeira global. Sua gestão foi elogiada por evitar os piores impactos da recessão no país. Em 2013, ele fez história ao se tornar o primeiro não britânico a comandar o Banco da Inglaterra, guiando a economia britânica pelo tumultuado processo do Brexit.

Diferentemente de seus antecessores, Carney nunca foi parlamentar ou ocupou um cargo eletivo, o que o coloca como uma figura atípica na política canadense. Apesar disso, sua experiência em crises internacionais e sua reputação como negociador habilidoso foram decisivas para sua vitória esmagadora na eleição interna do Partido Liberal. Com mais de 131 mil votos entre os 151 mil depositados pelos membros do partido, ele deixou Chrystia Freeland, ex-vice-primeira-ministra, em segundo lugar com pouco mais de 11 mil votos.

Experiência global em tempos de crise

A habilidade de Carney em lidar com situações de alta pressão é um dos pilares de sua campanha. Durante a crise de 2008, ele implementou políticas monetárias que protegeram o Canadá de uma recessão mais profunda, ganhando reconhecimento internacional. No Banco da Inglaterra, enfrentou os desafios do Brexit, cortando juros e reiniciando a compra de ativos para estabilizar a economia britânica. Mais recentemente, como enviado especial da ONU para ações climáticas, defendeu o “net zero” como uma oportunidade comercial, embora tenha recuado de algumas afirmações polêmicas, como a neutralidade de carbono de seu portfólio na Brookfield Asset Management, onde foi vice-presidente.

No cenário atual, com Trump impondo tarifas e ameaçando a economia canadense, Carney propõe retaliar dólar por dólar e diversificar as relações comerciais do país a médio prazo. Sua visão é vista como uma resposta direta à necessidade de liderança experiente em um momento de instabilidade global e tensões com o vizinho do sul.

Desafios à frente do novo governo

Enfrentando a guerra comercial com os EUA

A eleição de Mark Carney ocorre em um contexto de crescente hostilidade econômica com os Estados Unidos. Donald Trump, que assumiu a presidência americana pela segunda vez, impôs tarifas de 25% sobre bens canadenses, pausando-as temporariamente dias antes da votação liberal. A retórica agressiva do presidente americano, que inclui insinuações de transformar o Canadá em um estado americano, inflamou o sentimento nacionalista no país. Pesquisas recentes mostram que os liberais, antes atrás dos conservadores por mais de 20 pontos, agora estão empatados estatisticamente, impulsionados pela saída de Trudeau e pela percepção de ameaça externa.

Carney já sinalizou que pretende chamar uma eleição geral nas próximas semanas, aproveitando o momento de união nacional. Embora a legislação exija um pleito até 20 de outubro, a oposição, liderada pelo conservador Pierre Poilievre, planeja um voto de desconfiança assim que o Parlamento retorne, em 24 de março. Poilievre, que ajustou sua campanha de “Canadá está quebrado” para “Canadá em primeiro lugar”, enfrenta um adversário com credenciais globais que contrastam com sua experiência exclusivamente política.

Principais desafios domésticos e internacionais

Além da guerra comercial, Carney herdará desafios internos significativos. A inflação, o custo de vida elevado e a crise de moradia, que desgastaram a popularidade de Trudeau, continuam a pressionar os canadenses. O novo líder também terá de decidir o destino de políticas como o imposto sobre carbono, que ele já defendeu, mas recentemente sugeriu revisar. Internacionalmente, sua experiência como enviado da ONU para o clima pode fortalecer a posição do Canadá em negociações globais, enquanto ele busca equilibrar crescimento econômico e sustentabilidade.

Aqui estão alguns dos principais desafios que Carney enfrentará:

  • Guerra comercial: Negociar com os EUA para reduzir tarifas e proteger exportações.
  • Economia interna: Combater a inflação e resolver a crise habitacional.
  • Eleição iminente: Garantir uma vitória liberal contra os conservadores de Poilievre.
  • Soberania: Reafirmar a independência canadense frente às provocações de Trump.

Caminho rumo à liderança consolidada

Cronograma da transição e próximas etapas

O processo de transição de poder no Canadá segue um calendário apertado. Após a vitória no domingo, Carney deve ser empossado como primeiro-ministro nos próximos dias, substituindo oficialmente Trudeau. O Parlamento, atualmente suspenso, retorna em 24 de março, mas a expectativa é de que uma eleição geral seja convocada antes disso. Confira as datas-chave:

  • 9 de março: Carney eleito líder do Partido Liberal.
  • Próximos dias: Posse oficial como primeiro-ministro.
  • 24 de março: Retorno do Parlamento, com possível voto de desconfiança.
  • 20 de outubro: Prazo máximo para a próxima eleição geral.

A rapidez dessa transição reflete a urgência do momento, com o Canadá buscando estabilidade em meio a incertezas econômicas e políticas. Carney, que renunciou a cargos comerciais em janeiro ao lançar sua candidatura, agora foca exclusivamente na liderança do país.

Um líder sem assento parlamentar

Legalmente, Carney pode governar sem uma cadeira na Câmara dos Comuns, mas a tradição exige que ele busque um assento o quanto antes. Historicamente, líderes como John Turner, em 1984, assumiram o cargo sem serem parlamentares, mas enfrentaram dificuldades. Carney planeja concorrer em uma eleição suplementar ou no pleito geral, dependendo de sua estratégia para consolidar o poder. Sua falta de experiência eletiva, embora criticada por adversários como Poilievre, é vista por apoiadores como um trunfo, trazendo uma perspectiva externa ao establishment político.

Com a eleição de Carney, o Canadá entra em uma nova era, marcada por um líder com raízes no setor financeiro e uma visão global. Sua capacidade de navegar crises passadas será testada em um cenário de tensões com os EUA e demandas internas por mudanças. Ottawa, que vibrou com sua posse, agora aguarda os próximos passos de um primeiro-ministro que promete ação em tempos turbulentos.

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