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Quatro anos após a morte de Diego Armando Maradona, um dos maiores ídolos do futebol mundial, a Argentina vive um momento de intensa comoção com o início do julgamento de sete profissionais de saúde acusados de negligência em seus cuidados. O processo, que começou em 11 de março no tribunal de San Isidro, na província de Buenos Aires, reacende debates sobre as circunstâncias que levaram ao falecimento do craque em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos. Os réus enfrentam a acusação de “homicídio simples com dolo eventual”, crime que pode resultar em penas de 8 a 25 anos de prisão, sob a alegação de que sabiam dos riscos fatais de suas ações ou omissões.

A abertura do julgamento foi marcada por cenas de emoção e tensão. Familiares, fãs e acusados se reuniram no tribunal, enquanto dezenas de torcedores exibiam bandeiras e cartazes com pedidos de “justiça para o Deus do futebol”. O promotor Patricio Ferrari chocou a audiência ao exibir uma foto do corpo de Maradona minutos após sua morte, destacando o estado de inchaço e abandono em que o ex-jogador foi encontrado.

Diante de um caso que mobiliza o país, a expectativa é que o julgamento se estenda até julho, com cerca de 120 testemunhas previstas para depor. Entre elas estão filhos de Maradona, médicos, amigos e jornalistas, que devem trazer luz aos últimos dias do astro, conhecido por sua genialidade em campo e suas lutas pessoais fora dele.

Emoções à flor da pele no tribunal

O primeiro dia de audiência em San Isidro foi carregado de momentos dramáticos. Antes mesmo do início, a tensão já era palpável do lado de fora, onde fãs hostilizaram os réus com gritos de “assassinos”. Verónica Ojeda, ex-companheira de Maradona e mãe de seu filho mais novo, Diego, de 11 anos, chegou às lágrimas ao agradecer o apoio dos torcedores presentes.

Dentro da sala, o clima se intensificou quando o promotor Ferrari apresentou a fotografia de Maradona na cama onde morreu, descrevendo a internação domiciliar como “um teatro do horror”. As filhas do craque, Jana, Dalma e Gianinna, não contiveram o choro ao ver a imagem, que reforçou a tese da acusação de que o ex-jogador foi deixado em condições precárias.

Acusação aponta negligência grave

Apontada como central no processo, a acusação sustenta que a equipe médica agiu com indiferença diante do estado crítico de Maradona. Após uma cirurgia no cérebro para retirada de um coágulo em novembro de 2020, o jogador foi transferido para uma residência em Tigre, ao norte de Buenos Aires, em vez de ser internado em uma unidade médica adequada. O promotor classificou essa decisão como “temerária e sem precedentes”, afirmando que os profissionais sabiam do risco iminente de morte.

Detalhes do caso que chocam o país

A morte de Diego Maradona, em 25 de novembro de 2020, não foi apenas o fim de uma era para o futebol argentino, mas também o início de uma batalha judicial que expõe falhas no cuidado com o ídolo. Ele faleceu em casa devido a um edema pulmonar agudo secundário a uma insuficiência cardíaca crônica, agravada por décadas de problemas de saúde, incluindo vícios em álcool e drogas. A autópsia revelou um quadro delicado, mas a investigação concluiu que o desfecho poderia ter sido evitado com tratamento apropriado.

A família de Maradona, representada por advogados como Mario Baudry, baseia sua denúncia em mensagens e áudios vazados que indicariam que a equipe médica tinha plena consciência do perigo à saúde do ex-jogador. Segundo Baudry, os profissionais sabiam que, mantendo Maradona naquele estado, ele corria risco de morte, mas nada fizeram para mudar o curso dos eventos. O advogado Fernando Burlando, que defende Dalma e Gianinna, destacou o impacto físico do abandono: no dia de seu velório, o corpo estava tão inchado que mal cabia no caixão.

O julgamento reúne sete acusados: o neurocirurgião Leopoldo Luciano Luque, a psiquiatra Agustina Cosachov, o psicólogo Carlos Ángel Díaz, a médica coordenadora Nancy Forlini, o coordenador de enfermeiros Mariano Perroni, o médico clínico Pedro Pablo Di Spagna e o enfermeiro Ricardo Almirón. Uma oitava profissional, a enfermeira Dahiana Gisela Madrid, será julgada separadamente em julho, por um júri popular, após solicitação de sua defesa.

Cronologia dos eventos até o julgamento

Entender o caminho até o tribunal exige revisitar os principais marcos do caso. Veja os momentos-chave:

  • 25 de novembro de 2020: Maradona morre em Tigre, aos 60 anos, enquanto se recuperava de uma cirurgia cerebral realizada semanas antes.
  • 2021: Um painel de 20 especialistas médicos conclui que o tratamento foi “inadequado, deficiente e imprudente”, apontando que o ex-jogador teria maior chance de sobrevivência em uma unidade hospitalar.
  • 2022: Promotores formalizam a acusação de homicídio com dolo eventual contra oito profissionais de saúde.
  • Abril de 2023: A Justiça argentina confirma que os réus irão a julgamento.
  • 11 de março: Início do processo em San Isidro, com sete acusados no banco dos réus.

O processo enfrentou adiamentos, com a data original de outubro de 2024 sendo remarcada para março deste ano, após pedidos de réus como Luque e Cosachov.

Defesa rebate acusações

Enquanto a acusação busca provar negligência, os réus se defendem alegando que suas responsabilidades eram limitadas. Leopoldo Luque, neurocirurgião e médico pessoal de Maradona, argumenta que o jogador era um paciente difícil, resistente a recomendações médicas, e que a internação domiciliar foi uma escolha do próprio craque. Ele insiste que a morte foi súbita e imprevisível, decorrente de um evento cardíaco.

Agustina Cosachov, psiquiatra responsável pelo tratamento mental de Maradona, tem sua defesa liderada por Vadim Mischanchuk, que se diz otimista quanto a uma absolvição. O advogado afirma que sua cliente cuidava apenas da saúde mental do ex-jogador, não tendo relação com a insuficiência cardíaca que o levou à morte. Já Rodolfo Baqué, defensor do enfermeiro Ricardo Almirón, questiona por que seu cliente está sendo julgado, destacando que ele alertou sobre a pulsação elevada de Maradona, de 118 batimentos por minuto, e não tinha poder de decisão sobre o tratamento.

Repercussão entre os fãs e a família

Fora do tribunal, o julgamento reacende a devoção dos argentinos por Maradona, reverenciado como um herói nacional por liderar a seleção à vitória na Copa do Mundo de 1986. Dezenas de fãs se reuniram em San Isidro com faixas que diziam “Justiça para Deus”, refletindo o apelido “D10S”, uma junção do número 10 que usava em campo com a palavra “Deus” em espanhol. Pichações com pedidos de justiça também são vistas em La Paternal, bairro onde o craque começou sua carreira no Argentinos Juniors.

As filhas Dalma e Gianinna, presentes no julgamento, têm usado redes sociais para clamar por punição aos responsáveis. A família aponta que os áudios e mensagens mostram uma estratégia da equipe médica para isolar Maradona de parentes, possivelmente para evitar interferências que poderiam alterar o curso do tratamento negligente.

O que está em jogo no processo

Com cerca de 120 testemunhas escaladas, o julgamento promete ser um marco na história judicial argentina. Além dos sete réus em San Isidro, a enfermeira Dahiana Madrid enfrenta um processo paralelo, que começará em julho. Os depoimentos incluirão familiares, como a ex-esposa Claudia Villafañe, e profissionais que acompanharam Maradona ao longo dos anos, além de peritos que analisarão as evidências médicas.

A promotoria planeja apresentar mais de 120 mil mensagens trocadas entre os membros da equipe médica, que supostamente revelam a indiferença diante do agravamento do estado de saúde do ex-jogador. O exame toxicológico, que não encontrou álcool ou drogas ilegais no corpo de Maradona, também será debatido, contrastando com relatos de que enfermeiros forneciam maconha e álcool para lidar com seu comportamento.

Legado de Maradona em foco

Mais de quatro anos após sua morte, Maradona segue como um símbolo intocável na Argentina. Seu velório na Casa Rosada, sede do governo, reuniu milhares de pessoas em um adeus emocionado, seguido por três dias de luto nacional. Recentemente, a Justiça autorizou a exumação de seu corpo para transferência a um mausoléu em Puerto Madero, em Buenos Aires, que deve atrair até um milhão de visitantes por ano.

O julgamento não apenas busca justiça pela morte do ídolo, mas também coloca em xeque a responsabilidade médica em casos de figuras públicas. A pressão popular por respostas pode influenciar o desfecho, enquanto o país acompanha cada etapa do processo com expectativa e emoção.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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