Economia

Veja como o governo planeja elevar etanol na gasolina a 30% e baratear combustível

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Foto: Logo da Petrobras em sede no Rio de Janeiro

O governo federal anunciou em março de 2025 a intenção de aumentar o percentual de etanol anidro na gasolina comum de 27% para 30% ainda neste ano, uma medida que promete reduzir o preço do combustível nos postos e fortalecer a autonomia energética do Brasil. Liderada pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, a proposta é respaldada por estudos técnicos que confirmam a viabilidade da nova mistura, conhecida como E30, e envolve a participação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para definir os próximos passos. A iniciativa, que já mobiliza o setor sucroenergético e a indústria automobilística, também visa diminuir a dependência de importações de gasolina fóssil, hoje responsáveis por cerca de 10% do consumo nacional. Em 2024, o país importou aproximadamente 3,5 bilhões de litros de gasolina A, volume que pode ser reduzido com o maior uso do biocombustível produzido localmente, especialmente a partir da cana-de-açúcar e do milho. Além disso, o aumento da mistura alinha-se à agenda de transição energética, reforçando a posição do Brasil como líder global na produção de combustíveis renováveis, atrás apenas dos Estados Unidos no ranking de etanol.

A mudança ocorre no contexto da Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, que autoriza o limite de 30% de etanol na gasolina, embora permita ajustes entre 22% e 35%, dependendo de análises técnicas. O ministro destacou que o etanol, mais barato que a gasolina fóssil, deve aliviar o bolso dos consumidores, enquanto a produção nacional, que atingiu 35,6 bilhões de litros na safra 2023/2024, garante oferta suficiente para suprir a demanda adicional.

Por outro lado, a proposta enfrenta resistências. Distribuidoras de combustíveis e parlamentares questionam os impactos da mistura ampliada, propondo alternativas como a venda de gasolina sem etanol e a suspensão temporária do biodiesel no diesel, o que evidencia um embate entre setores econômicos e a política de biocombustíveis do governo.

Quem decide e como funciona o aumento

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) será o responsável por aprovar a elevação do etanol na gasolina para 30%, com base nos estudos encaminhados pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Presidido pelo ministro Alexandre Silveira, o órgão assessora o presidente da República e reúne representantes de diversos ministérios e setores energéticos.

Testes realizados pelo Instituto Mauá entre janeiro e fevereiro de 2025 comprovaram que a mistura E30 é segura para motores flex e veículos a gasolina, incluindo modelos importados, que representam cerca de 17% da frota nacional. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) também validou a estabilidade do combustível, garantindo que não há riscos de corrosão ou perda significativa de desempenho.

Benefícios esperados da nova mistura

Aumentar o etanol na gasolina para 30% deve trazer vantagens econômicas e ambientais. O biocombustível, cotado em média a R$ 2,50 por litro no início de 2025, é mais acessível que a gasolina A, que ultrapassa R$ 4,50 nas refinarias, influenciando diretamente o preço final ao consumidor. Além disso, a maior octanagem do E30, que sobe de 93 para 95, permite motores mais eficientes, alinhando-se às metas do Programa Mover, lançado em 2024 para descarbonizar a indústria automotiva.

Impactos técnicos nos veículos

Os estudos técnicos que embasam a mistura de 30% de etanol na gasolina mostram resultados positivos para a maioria dos veículos em circulação no Brasil. Cerca de 70% da frota nacional é composta por carros flex, projetados para operar com etanol hidratado (E100) ou qualquer proporção de gasolina comum, o que elimina preocupações com adaptação. Já os 30% restantes, que incluem modelos a gasolina puros, foram testados em amostras representativas, com aval da indústria automobilística. A pesquisa apontou que o E30 não causa danos a componentes como bombas de combustível ou tubulações, mesmo em carros mais antigos.

A eficiência energética, no entanto, apresenta leve redução. A gasolina com 27% de etanol (E27) tem um poder calorífico de 27,9 MJ/L, enquanto o E30 cai para 27,6 MJ/L, uma perda de cerca de 1%. Na prática, isso significa que um tanque de 50 litros pode perder até 5 km de autonomia, dependendo do veículo. Apesar disso, o aumento da octanagem compensa parcialmente essa diferença, mantendo o desempenho em níveis aceitáveis.

Setores críticos, como as distribuidoras, alertam para possíveis problemas em motores monocombustíveis mais antigos, fabricados antes da popularização dos flex, mas os testes não identificaram evidências sistêmicas de corrosão ou falhas mecânicas significativas.

Cronograma para implementação do E30

A implementação do E30 está prevista para ocorrer ainda em 2025, com etapas definidas pelo governo. Confira o calendário planejado:

  • Janeiro a fevereiro de 2025: Realização dos testes de viabilidade pelo Instituto Mauá.
  • Março de 2025: Anúncio oficial da proposta pelo ministro Alexandre Silveira e envio dos resultados ao CNPE.
  • Segundo semestre de 2025: Decisão final do CNPE e início da produção em escala pela Petrobras e distribuidoras.

A safra de cana-de-açúcar, que começa em abril, será ajustada para atender à demanda extra de etanol anidro, estimada em 2 bilhões de litros adicionais até o fim do ano.

Resistências e propostas alternativas

Nem todos os setores apoiam o aumento do etanol na gasolina. Em março de 2025, o deputado Marcos Pollon (PL-MS) apresentou um projeto de lei para autorizar a comercialização de gasolina sem etanol e diesel sem biodiesel nos postos, argumentando que os consumidores deveriam ter liberdade de escolha. A proposta reflete críticas de motoristas e especialistas que apontam a redução de autonomia e o impacto em veículos não flex como desvantagens do E30.

Paralelamente, as distribuidoras de combustíveis pediram à ANP a suspensão da mistura de biodiesel no diesel por 90 dias, alegando problemas de qualidade e custos logísticos. O ministro Alexandre Silveira rebateu as iniciativas, defendendo que abandonar os biocombustíveis seria um retrocesso para indústrias consolidadas, como a do etanol, que gera mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos no Brasil.

A reação do governo destaca a prioridade dada à transição energética. Em 2024, o setor sucroenergético investiu R$ 4 bilhões em novas usinas, especialmente no Centro-Oeste, onde o etanol de milho ganha espaço, complementando a produção tradicional de cana-de-açúcar do Sudeste.

Vantagens econômicas e oferta de etanol

A redução do preço da gasolina é um dos pilares da proposta do E30. Com o etanol anidro representando 30% da mistura, o custo do litro da gasolina comum nos postos pode cair entre R$ 0,10 e R$ 0,20, dependendo da região e da tributação estadual. Em 2024, o preço médio da gasolina foi de R$ 5,90, enquanto o etanol hidratado ficou em R$ 3,80, evidenciando o potencial de economia.

A oferta de etanol está garantida pela capacidade produtiva do país. Na safra 2023/2024, o Brasil produziu 29,5 bilhões de litros de etanol hidratado e 6,1 bilhões de anidro, com projeções de crescimento de 5% para 2025, impulsionadas por usinas em São Paulo, Goiás e Mato Grosso. O ministro Alexandre Silveira enfatizou que o estoque atual, somado à safra que inicia em abril, suporta a demanda adicional sem comprometer o abastecimento.

Além disso, a Petrobras planeja retomar investimentos em biocombustíveis, buscando parcerias com o setor privado para ampliar a produção de etanol e biodiesel, uma estratégia que pode gerar até R$ 10 bilhões em novos projetos até 2030.

Efeitos na matriz energética brasileira

Elevar o etanol na gasolina reforça a liderança do Brasil na matriz energética renovável. Atualmente, 48% da energia consumida no país vem de fontes limpas, contra uma média global de 14%. O E30 reduzirá as emissões de CO2 em cerca de 5 milhões de toneladas por ano, segundo estimativas do MME, contribuindo para as metas do Acordo de Paris.

O impacto vai além da gasolina. A política de biocombustíveis, que inclui o aumento do biodiesel no diesel de 14% para 15% em 2025, deve evitar a importação de 7,2 bilhões de litros de diesel fóssil até o fim da década, economizando R$ 20 bilhões em divisas. Em 2024, o consumo de diesel atingiu 63 bilhões de litros, com 25% importados, o que torna a substituição por biocombustíveis uma prioridade estratégica.

A indústria automobilística também se beneficia. Marcas como Toyota e Volkswagen, que anunciaram R$ 11 bilhões em investimentos em híbridos flex em 2024, veem no E30 um incentivo para motores mais eficientes, alinhados à demanda global por sustentabilidade.

Perspectivas para o consumidor

Para os motoristas, o E30 promete alívio no bolso, mas exige adaptação. Veja os principais pontos a considerar:

  • Preço: Redução média de R$ 0,15 por litro na gasolina comum.
  • Autonomia: Perda de até 5 km por tanque de 50 litros em carros a gasolina.
  • Manutenção: Nenhuma adaptação necessária para flex; modelos antigos requerem monitoramento.

A frota nacional, com 46 milhões de veículos leves em 2024, está majoritariamente preparada para a mudança, mas os 8 milhões de carros monocombustíveis, muitos com mais de 15 anos, podem enfrentar desafios em longo prazo, como maior desgaste em peças expostas ao etanol.