Voo com 135 brasileiros deportados pousa em Fortaleza e expõe política migratória de TrumpPor Carolina Costa
Atualizado 8 min de leitura
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Um avião trazendo 135 brasileiros deportados dos Estados Unidos aterrissou na manhã deste sábado no Aeroporto Internacional de Fortaleza, no Ceará, marcando o quarto voo do tipo desde o início do segundo mandato de Donald Trump. A aeronave, que partiu de Alexandria, no estado da Louisiana, fez uma escala técnica em Porto Rico antes de chegar à capital cearense por volta das 9h. Após o desembarque, os repatriados passaram por triagem e receberam atendimento psicológico, itens de higiene e alimentação, enquanto parte deles seguiu para Belo Horizonte em um voo da Força Aérea Brasileira (FAB). A escolha de Fortaleza como destino reflete uma decisão do governo brasileiro para reduzir o tempo em que os deportados permanecem algemados, uma prática padrão das autoridades americanas durante o transporte.
O grupo é composto por homens, mulheres, adolescentes e crianças, muitos dos quais oriundos de Minas Gerais, que historicamente concentra o maior número de brasileiros deportados dos Estados Unidos. A operação envolveu coordenação entre o governo federal, a Polícia Federal e autoridades locais, que monitoraram o desembarque para garantir que as algemas fossem retiradas assim que o avião tocasse o solo brasileiro. A secretária de Direitos Humanos do Ceará, Socorro França, destacou a importância de acolher os repatriados de forma humanizada, oferecendo suporte imediato para aliviar o impacto emocional da deportação.
✈️Novo voo com 135 brasileiros deportados dos EUA chega a Fortaleza neste sábado (15)https://t.co/HtFkW6RjEx https://t.co/HtFkW6RjEx
— Diário do Nordeste (@diarioonline) March 15, 2025
A política migratória mais rígida implementada por Trump desde sua posse em janeiro tem acelerado o envio de brasileiros em situação irregular de volta ao país. Esse voo, que trouxe 135 pessoas, é parte de um acordo bilateral firmado entre Brasil e Estados Unidos em 2018, mas as condições do transporte têm gerado debates sobre o tratamento dispensado aos deportados, especialmente após episódios anteriores de desembarques com algemas em território nacional.
Detalhes da operação em Fortaleza
A chegada do voo em Fortaleza foi acompanhada por uma estrutura preparada para receber os 135 brasileiros. Equipes da Polícia Federal entraram na aeronave logo após o pouso para verificar se algum passageiro ainda estava algemado, um procedimento que se tornou protocolo após incidentes em voos anteriores. Nenhum deportado saiu do avião com restrições físicas, e todos foram encaminhados para um processo de triagem que incluiu identificação e avaliação de saúde.
Depois do acolhimento inicial, um avião da FAB decolou às 11h rumo ao Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, levando a maioria dos repatriados, que têm origem em Minas Gerais. A previsão de chegada em solo mineiro é às 15h deste sábado. Aqueles que optaram por permanecer no Ceará receberam assistência para seguir viagem por conta própria ou encontrar familiares. O governo cearense disponibilizou kits com alimentos, como frutas e sanduíches, além de produtos de higiene, como sabonetes e escovas de dente, para atender às necessidades imediatas dos deportados.
Contexto da deportação em 2025
Desde o início do segundo mandato de Donald Trump, em 20 de janeiro, os Estados Unidos intensificaram as deportações de imigrantes em situação irregular, incluindo brasileiros. Esse voo é o quarto a chegar ao Brasil neste ano, somando-se a operações realizadas em janeiro e fevereiro. O primeiro voo, em 24 de janeiro, pousou em Manaus com 88 brasileiros, mas gerou polêmica quando os passageiros desembarcaram algemados, levando o governo brasileiro a ajustar os procedimentos para evitar que isso se repetisse em território nacional.
O aumento no número de deportações reflete as promessas de campanha de Trump, que incluiu medidas como a retomada da construção do muro na fronteira com o México e uma operação em larga escala contra imigrantes ilegais. Em cinco anos, mais de 7 mil brasileiros foram deportados dos Estados Unidos, com a maioria desembarcando em Belo Horizonte até o início de 2025, quando Fortaleza passou a ser o novo ponto de entrada.
Cronologia dos voos de deportação em 2025
Os voos de brasileiros deportados neste ano seguem um padrão logístico ajustado após negociações entre Brasil e Estados Unidos. Veja os principais marcos:
- 24 de janeiro: Primeiro voo com 88 brasileiros pousa em Manaus, com destino original a Belo Horizonte. Problemas técnicos forçam escala, e desembarque com algemas gera tensão diplomática.
- 7 de fevereiro: Segundo voo traz 111 brasileiros a Fortaleza, com parte seguindo para Confins em avião da FAB.
- 21 de fevereiro: Terceiro voo chega à capital cearense com 94 deportados, incluindo nove crianças e dois idosos. Dois passageiros são presos por mandados judiciais.
- 15 de março: Quarto voo, com 135 brasileiros, pousa em Fortaleza, consolidando a cidade como porta de entrada.
Essa sequência evidencia a adaptação do governo brasileiro para reduzir o tempo de voo sobre o território nacional e evitar constrangimentos, como o uso prolongado de algemas.
Impacto emocional e social dos deportados
Relatos de brasileiros que chegam em voos como o deste sábado apontam para um impacto emocional significativo. Muitos passaram meses detidos em centros de imigração nos Estados Unidos antes da deportação, enfrentando condições difíceis, como longos períodos sem alimentação adequada. No voo de 7 de fevereiro, por exemplo, os passageiros ficaram até 12 horas sem comer, segundo a secretária Socorro França. O atendimento psicológico oferecido em Fortaleza busca mitigar esse trauma, especialmente para crianças e adolescentes, que compõem uma parcela dos repatriados.
A maioria dos deportados é formada por jovens adultos entre 21 e 40 anos, muitos dos quais tentaram construir uma vida nos Estados Unidos em busca de melhores oportunidades econômicas. Minas Gerais, principal origem desses imigrantes, tem uma longa história de fluxo migratório para o exterior, especialmente para cidades americanas como Boston e Miami. A deportação, no entanto, interrompe esses planos, trazendo desafios de reintegração ao Brasil.
Por que Fortaleza se tornou o destino principal
A escolha de Fortaleza como ponto de desembarque reflete uma estratégia do governo brasileiro para encurtar a duração dos voos fretados pelos Estados Unidos. A capital cearense é uma das cidades mais próximas geograficamente do território americano, reduzindo o trajeto em cerca de seis horas em comparação com Belo Horizonte. Essa decisão foi tomada após o incidente de Manaus, quando autoridades americanas insistiram em manter os deportados algemados durante uma conexão, o que foi rejeitado pelo Brasil por questões de soberania.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que os voos pousassem no ponto mais próximo da entrada no espaço aéreo brasileiro, garantindo que as algemas fossem retiradas imediatamente. O Itamaraty também negociou com os Estados Unidos para ajustar as condições de transporte, buscando evitar maus-tratos e assegurar um regresso mais digno aos cidadãos.
Perfil dos deportados neste voo
Embora os dados completos sobre os 135 passageiros deste sábado ainda estejam sendo processados, informações preliminares indicam que o grupo inclui homens e mulheres de diversas faixas etárias. Cerca de 80% são de Minas Gerais, mas há também deportados de outros estados, como Ceará e Rondônia. A presença de famílias com crianças é outro aspecto recorrente, com pelo menos oito menores de 10 anos identificados em voos anteriores neste ano.
A triagem realizada pela Polícia Federal revelou que, diferentemente do voo de 21 de fevereiro, não havia passageiros com mandados de prisão em aberto neste grupo. Todos foram liberados para seguir seus destinos após os procedimentos iniciais, seja no Ceará ou em Minas Gerais, com apoio logístico do governo brasileiro.
Medidas de acolhimento em solo brasileiro
O governo do Ceará montou uma operação estruturada para receber os deportados, com equipes médicas, psicólogos e assistentes sociais no aeroporto. Além dos kits de alimentação e higiene, os repatriados têm acesso a informações sobre transporte e contato com familiares. Para aqueles que seguem para Belo Horizonte, a FAB garante a continuidade da viagem, enquanto os que permanecem no Nordeste recebem orientações para se deslocar por conta própria.
Em Minas Gerais, a chegada dos deportados também mobiliza esforços locais. A Fecomércio, responsável pelo Sistema S, já ofereceu suporte em voos anteriores, como transporte, hospedagem e alimentação por até dez dias na unidade do Sesc Venda Nova, em Belo Horizonte. Essa rede de assistência busca facilitar a transição dos repatriados, muitos dos quais retornam sem recursos financeiros imediatos.
Números que mostram a dimensão da deportação
A intensificação das deportações sob o governo Trump é visível nos dados acumulados. Confira alguns números relevantes:
- Mais de 7 mil brasileiros deportados dos Estados Unidos desde 2020.
- 119 voos fretados chegaram a Confins entre 2019 e 2024.
- 428 brasileiros repatriados em quatro voos em 2025, até março.
- 80% dos deportados neste sábado são de Minas Gerais.
Esses números reforçam a posição de Belo Horizonte como principal destino final, mas a mudança para Fortaleza como porta de entrada sinaliza uma nova fase na logística das deportações.







