Denílson cobra atitude contra racismo de Luighi no Palmeiras: “É crime que não pode passar em branco”Por Janderson
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A luta contra o racismo no futebol ganhou mais um capítulo emocionante na noite de 15 de março, quando o ex-jogador Denílson, hoje comentarista da Globo, usou o palco do programa “Altas Horas” para abordar o caso do jovem Luighi, atleta do Palmeiras vítima de ofensas raciais. Durante uma partida da Libertadores Sub-20 contra o Cerro Porteño, no Paraguai, Luighi, de apenas 18 anos, foi alvo de gestos e insultos racistas por parte de torcedores adversários, um episódio que gerou revolta e mobilização no Brasil. Com um discurso carregado de emoção, Denílson não apenas condenou o ocorrido, mas também destacou a necessidade de ações concretas para combater o preconceito que ainda persiste no esporte. Ele criticou a falta de resposta imediata das autoridades presentes no jogo e reforçou o papel de figuras públicas na amplificação dessa discussão, apontando que o silêncio diante de tais atos é inadmissível.
No programa, exibido pela Globo, Denílson trouxe à tona sua experiência como ex-atleta e comunicador, enfatizando a responsabilidade de quem tem visibilidade. Ele lamentou o impacto do racismo em um jogador tão jovem, ainda em formação, e fez um apelo por mudanças estruturais no futebol. O caso de Luighi, que chorou ao relatar o crime após o jogo, ressoou em clubes, autoridades e personalidades, mas as punições aplicadas ao Cerro Porteño foram consideradas insuficientes por muitos, reacendendo o debate sobre a eficácia das medidas contra o racismo no esporte sul-americano.
A participação de Denílson no “Altas Horas” foi um marco na cobertura midiática do episódio, unindo sua trajetória como pentacampeão mundial em 2002 a uma causa que transcende o esporte. O comentarista, que recentemente migrou da Band para a Globo após 15 anos, aproveitou o momento para reiterar seu compromisso com pautas sociais, especialmente em um contexto onde o futebol, apesar de ser um símbolo de união, ainda reflete as mazelas da sociedade.
Emoção à flor da pele no “Altas Horas”
Denílson não conteve a emoção ao falar sobre o caso de Luighi no programa “Altas Horas”, apresentado por Serginho Groisman. Com a voz embargada, ele descreveu o episódio como um golpe duro, especialmente por envolver um jovem que deveria estar vivendo os primeiros passos de uma carreira promissora. “Quando ele se emociona do modo como se emocionou, porque ali é uma emoção genuína, você vê que o nó na garganta dele são palavras pesadas”, afirmou o ex-jogador, destacando a sinceridade do desabafo de Luighi após a partida. O jovem palmeirense, ao ser questionado por um repórter sobre o jogo, rebateu com indignação, cobrando atenção ao ato racista que acabara de sofrer.
O comentarista também criticou a omissão de quem estava no estádio no momento do incidente. Segundo ele, a falta de reação do árbitro, dos policiais e até do repórter presente reflete uma naturalização perigosa do racismo. “Nem o repórter que fez a pergunta e muita gente não está vendo o que está acontecendo. A verdade é essa”, disse Denílson, apontando como o foco no resultado da partida muitas vezes ofusca crimes graves como esse.
A fala de Denílson no programa rapidamente repercutiu nas redes sociais, com muitos elogiando sua postura firme e sensível. Sua transição recente para a Globo, onde agora integra programas como o novo dominical do SporTV e o “Globo Esporte” paulista, parece ter ampliado ainda mais o alcance de suas mensagens, colocando-o como uma voz relevante na luta contra o racismo.
O caso que abalou o futebol brasileiro
O incidente com Luighi aconteceu durante a vitória do Palmeiras por 3 a 0 sobre o Cerro Porteño, em jogo válido pela Libertadores Sub-20, no Paraguai. Nos minutos finais da partida, um torcedor adversário, segurando uma criança no colo, imitou gestos de macaco direcionados ao meia Figueiredo, que estava sendo substituído. Logo em seguida, Luighi, ao deixar o gramado, foi alvo de insultos racistas e até de uma cusparada do mesmo torcedor. Revoltado, o jovem tentou buscar ajuda dos policiais presentes, mas não obteve resposta. “Fui nos policiais que estavam do lado. Falei: ‘Vocês vão deixar ele falar isso daí para mim? Vocês não vão fazer nada?’ E eles só olharam para mim, de mão cruzada”, relatou Luighi ao “Fantástico”.
A indignação do jogador explodiu na entrevista pós-jogo, quando, ao ser questionado sobre a partida, ele interrompeu o repórter para cobrar providências. “É sério isso? Vocês não vão me perguntar sobre o ato de racismo que ocorreu hoje comigo? Até quando vamos passar por isso? O que fizeram comigo é crime”, desabafou, com lágrimas nos olhos. O vídeo do momento viralizou, sensibilizando torcedores, clubes e até autoridades como o presidente Lula, que classificou o racismo como “o fracasso da humanidade”.
A Conmebol, entidade responsável pela competição, aplicou uma multa de 50 mil dólares ao Cerro Porteño, além de determinar jogos com portões fechados e exigir uma campanha antirracismo nas redes sociais do clube. A punição, no entanto, foi alvo de críticas do Palmeiras e da CBF, que a consideraram branda diante da gravidade do caso. O clube paulista chegou a pedir a exclusão do time paraguaio da competição, mas a medida não foi acatada.
Racismo no futebol: um problema persistente
O caso de Luighi não é isolado no futebol sul-americano ou mundial. Denílson, ao abordar o tema no “Altas Horas”, fez questão de lembrar outros episódios marcantes envolvendo jogadores brasileiros. Ele citou os ataques racistas sofridos por Vini Jr., do Real Madrid, na Espanha, além de casos históricos com Roberto Carlos e Daniel Alves. Apesar de nunca ter enfrentado racismo diretamente durante seus anos no Real Betis, na Espanha, o ex-jogador confessou sentir uma dor profunda ao ver o que atletas negros ainda enfrentam. “Me dói o coração porque sou cidadão espanhol também, tenho o passaporte e minha nacionalidade espanhola, morei lá durante muitos anos. Eu, graças a Deus, nunca sofri o racismo. Mas me dói saber que num lugar que vivi durante muitos anos tem acontecido isso”, lamentou.
No Brasil, o racismo no esporte também tem uma longa trajetória. Jogadores como Pelé, nos anos 1950 e 1960, já relatavam insultos raciais, e casos recentes, como os de Aranha, ex-goleiro do Palmeiras, em 2014, mostram que o problema persiste. Dados da ONG Observatório da Discriminação Racial no Futebol apontam que, só em 2023, foram registrados mais de 40 episódios de racismo em estádios brasileiros e sul-americanos, muitos sem punições significativas.
A gravidade do caso de Luighi, segundo Denílson, está no fato de atingir um jovem em início de carreira. “Estamos falando de um garoto que aparentemente não tem ainda a noção do mundo que está vivendo”, destacou o comentarista, reforçando como o episódio pode deixar cicatrizes permanentes em alguém que deveria estar focado apenas em seu desenvolvimento como atleta.
Repercussão e apoio a Luighi
A reação de Luighi ao racismo que sofreu gerou uma onda de solidariedade no Brasil e no exterior. Clubes como Corinthians, São Paulo e Santos divulgaram notas de repúdio e apoio ao jogador do Palmeiras, enquanto nomes como Vini Jr., do Real Madrid, e Gianni Infantino, presidente da Fifa, se manifestaram publicamente. Infantino chamou o ocorrido de “comportamento vergonhoso” e prometeu medidas mais duras, embora sem detalhar ações específicas. Já o presidente Lula usou as redes sociais para condenar o ato e cobrar punições exemplares da Fifa, Conmebol e CBF.
No Palmeiras, a presidente Leila Pereira foi enfática ao prometer ir “até as últimas instâncias” para garantir justiça. Ela chegou a fazer contato direto com os presidentes da CBF e da Conmebol, exigindo a exclusão do Cerro Porteño da Libertadores Sub-20. João Paulo Sampaio, coordenador da base do clube, revelou que o torcedor responsável foi identificado, mas a falta de uma legislação mais rigorosa no Paraguai pode dificultar a punição. No país, uma lei de 2022 prevê multas de até 7,8 mil reais por atos racistas, mas não prisão, como ocorre no Brasil desde 2023, quando a injúria racial foi equiparada ao crime de racismo.
A mobilização em torno de Luighi também chegou às redes sociais, onde torcedores e personalidades compartilharam mensagens de apoio. O jovem, que já marcou gols importantes pelo time principal do Palmeiras, como no empate contra o Flamengo no Maracanã em 2023, tornou-se um símbolo de resistência contra o preconceito.
Cronologia do caso Luighi: do jogo à repercussão
O episódio envolvendo Luighi seguiu uma sequência de eventos que expôs as falhas no combate ao racismo no futebol. Aqui está um resumo dos principais momentos:
- 6 de março: Durante a partida Cerro Porteño x Palmeiras, pela Libertadores Sub-20, Luighi e Figueiredo sofrem ataques racistas de torcedores paraguaios. Luighi desabafa ao vivo após o jogo.
- 7 de março: Palmeiras, CBF e Conmebol emitem notas de repúdio. Leila Pereira cobra punição severa, e o Cerro Porteño publica um comunicado condenando o ato, mas sem medidas concretas.
- 15 de março: Denílson aborda o caso no “Altas Horas”, emocionando-se ao falar sobre o impacto em Luighi e a necessidade de ações efetivas.
- 17 de março: A Conmebol anuncia a punição ao Cerro Porteño: multa de 50 mil dólares, jogos com portões fechados e campanha antirracismo, decisão criticada como insuficiente.
Essa linha do tempo mostra como o caso ganhou proporções nacionais e internacionais, mas também evidencia a lentidão em adotar medidas que realmente inibam novos episódios.
O papel de Denílson na luta contra o racismo
Com 47 anos e uma carreira consolidada na comunicação, Denílson encontrou na Globo uma nova plataforma para ampliar suas mensagens. Ele, que se aposentou dos gramados em 2010 e passou 14 anos como comentarista na Band, destacou no “Altas Horas” seu compromisso em pautar temas como o racismo. “Eu trabalho com comunicação já há 15 anos e hoje obviamente fico feliz de fazer parte do Grupo Globo e continuar levantando essa bandeira”, afirmou, reforçando o poder da visibilidade que atletas e comunicadores possuem.
A trajetória de Denílson no futebol inclui momentos icônicos, como o título mundial de 2002 com a seleção brasileira, quando ficou conhecido por ser “perseguido” por quatro defensores turcos na semifinal. Agora, ele usa essa notoriedade para ir além do esporte, abordando questões sociais que afetam não apenas os jogadores, mas a sociedade como um todo. Sua fala no programa foi um exemplo claro dessa transição, mostrando como ele alia leveza e seriedade em sua nova fase na Globo.
O comentarista também trouxe uma perspectiva pessoal ao debate, ao mencionar sua experiência na Espanha. Apesar de não ter sofrido racismo diretamente, ele reconheceu a dor de ver outros atletas enfrentando o problema em um país onde viveu por anos, o que torna sua posição ainda mais empática e contundente.
Medidas contra o racismo: o que está em jogo?
A punição ao Cerro Porteño reacendeu o debate sobre a efetividade das sanções no futebol sul-americano. A multa de 50 mil dólares e os jogos com portões fechados foram vistos como insuficientes pelo Palmeiras, que prometeu acionar a Fifa para buscar medidas mais duras. A CBF, por sua vez, pediu a exclusão do clube paraguaio da competição, mas até o momento não houve avanços nesse sentido. A Conmebol, em comunicado, prometeu “medidas disciplinares apropriadas”, mas a falta de ações concretas contra os torcedores responsáveis frustrou muitos.
No Brasil, a legislação deu um passo importante em 2023, ao equiparar injúria racial ao crime de racismo, com penas que podem chegar a cinco anos de prisão. No Paraguai, porém, a lei de 2022 limita-se a multas, o que dificulta punições mais severas em casos como o de Luighi. Especialistas apontam que, sem uma harmonização de políticas entre os países sul-americanos, atos racistas continuarão a ocorrer com relativa impunidade.
Algumas sugestões já levantadas por comentaristas e dirigentes incluem:
- Perda de pontos ou eliminação de clubes em competições.
- Prisão imediata de torcedores identificados em atos racistas.
- Campanhas educativas obrigatórias em estádios e escolas.
- Suspensão de partidas até a remoção dos agressores.
Essas ideias, no entanto, ainda esbarram na falta de vontade política e na burocracia das entidades esportivas, deixando jogadores como Luighi vulneráveis a novos ataques.
Luighi: a força de uma nova geração
Luighi, aos 18 anos, já carrega uma história de superação dentro e fora de campo. Promovido ao time principal do Palmeiras em 2023, ele marcou gols decisivos, como o do empate contra o Flamengo no Brasileirão e outro na classificação às quartas do Paulista de 2025. Apesar da concorrência no ataque, o técnico Abel Ferreira o vê como uma joia da base, apelidada de “geração de R$ 1 bilhão” ao lado de nomes como Endrick e Estêvão.
Fora das quatro linhas, o jovem enfrentou preconceitos desde cedo. Em entrevista ao “Fantástico”, ele revelou como o racismo o marcou em sua comunidade, com seguranças de shoppings o seguindo por conta de sua cor e origem. “Um dia eu coloquei na minha mente que como eu jogo futebol, só o futebol poderia mudar isso”, contou, emocionado. O ataque no Paraguai, porém, mostrou que mesmo o esporte não está imune a essa realidade.
A coragem de Luighi ao cobrar a Conmebol ao vivo inspirou muitos. Sua atitude foi elogiada por Denílson no “Altas Horas” e por figuras como Felipe Melo, que revelou ter conversado com o jovem após o ocorrido. “Passou uma hora e ele me mandou uma mensagem falando: ‘Não paro de chorar, mas Deus sabe de todas as coisas’”, disse o ex-volante ao SporTV, mostrando o impacto emocional do episódio.







