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Mix Vale

Nova York testemunhou um dia de montanha-russa nos mercados financeiros nesta terça-feira, 8 de abril. As ações americanas, que abriram em forte alta impulsionadas por preços atrativos e esperanças de negociações comerciais, perderam força ao longo do dia após a Casa Branca confirmar uma escalada drástica nas tarifas contra a China. A secretária de imprensa Karoline Leavitt anunciou que, a partir da meia-noite de quarta-feira, todas as importações chinesas enfrentarão uma tarifa adicional de 84%, elevando o total a pelo menos 104%. O anúncio pegou os investidores de surpresa, revertendo o otimismo matinal e reacendendo temores de uma guerra comercial em grande escala. O Dow Jones, que chegou a subir 375 pontos, ou 1%, terminou o dia com ganhos modestos, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq, após picos de 4% e 4,5%, fecharam com altas de apenas 0,6% e 0,5%, respectivamente.

Os últimos dias foram marcados por uma carnificina nos mercados, com quedas acentuadas motivadas pela política protecionista de Donald Trump. Após três sessões consecutivas de perdas, Wall Street buscava um respiro, e os investidores aproveitaram valuations historicamente baixos para comprar ações. O índice S&P 500, por exemplo, fechou segunda-feira com uma relação preço/lucro abaixo de 17, um nível considerado barato pelos padrões históricos. Esse cenário atraiu compradores em busca de barganhas, mas a confirmação das tarifas sobre a China trouxe de volta a incerteza, limitando a recuperação.

Enquanto os mercados tentavam se estabilizar, a volatilidade foi a tônica do dia. A expectativa de negociações comerciais com países aliados, como Japão e Coreia do Sul, alimentou o rali inicial. No entanto, a postura firme da Casa Branca contra Pequim mudou o humor dos investidores. Thomas Martin, gerente sênior de portfólio da Globalt Investments, destacou que o mercado ainda não está livre de riscos. “A notícia das tarifas ameniza qualquer entusiasmo excessivo”, afirmou, refletindo o sentimento de cautela que tomou conta de Wall Street à medida que o dia avançava.

O impacto imediato das tarifas de 104%

A decisão de elevar as tarifas contra a China para 104% representa um dos movimentos mais agressivos de Trump desde seu retorno à Casa Branca. A medida se soma às tarifas gerais de 10% impostas no sábado passado sobre quase todos os produtos importados pelos Estados Unidos, mas vai além ao mirar especificamente Pequim com uma sobretaxa que mais que dobra o custo de entrada de bens chineses no mercado americano. A justificativa do governo é clara: reduzir o déficit comercial e proteger a indústria nacional. Contudo, analistas alertam que o impacto pode ser devastador tanto para a economia doméstica quanto global.

Empresas americanas que dependem de importações da China, como varejistas e fabricantes de eletrônicos, enfrentarão custos significativamente mais altos. A Apple, por exemplo, que viu seu valor de mercado despencar US$ 500 milhões nos últimos dois dias, é uma das mais afetadas. Outras gigantes da tecnologia, como Nvidia e Microsoft, também sentiram o peso da incerteza, com quedas expressivas nas ações ao longo da semana. O aumento nos custos de produção deve ser repassado aos consumidores, o que pode alimentar a inflação em um momento em que o Federal Reserve já luta para mantê-la sob controle.

Do outro lado do Pacífico, a China reagiu com firmeza. O Ministério do Comércio do país declarou que “lutará até o fim” contra as tarifas americanas, prometendo manter suas próprias taxas retaliatórias de 34%, anunciadas na sexta-feira passada. Pequim também adotou medidas adicionais, como restrições à exportação de terras raras – minerais essenciais para a indústria de tecnologia – e sanções a empresas americanas de defesa. A escalada das tensões transforma a disputa em um jogo de alto risco, com ambos os lados relutantes em ceder.

Um mercado à espera de negociações

Apesar do tombo inicial causado pelo anúncio das tarifas, os mercados globais mostraram sinais de resiliência nesta terça-feira. Na Ásia, a maioria dos índices fechou em alta, com o Nikkei 225 do Japão subindo 6% e o Hang Seng de Hong Kong avançando 1,5%. Na Europa, o STOXX 600 ganhou 2,72%, enquanto o FTSE 100 de Londres e o DAX da Alemanha registraram altas de 2,71% e 2,48%, respectivamente. Esses ganhos refletem a esperança de que Trump possa recuar ou negociar acordos com aliados, suavizando o impacto das tarifas recíprocas previstas para entrar em vigor na quarta-feira.

Nos Estados Unidos, os investidores estão atentos a qualquer sinal de distensão. Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, afirmou na Fox News que o governo recebeu “um grande número de solicitações de negociações” de outros países. Ele destacou que Japão e Coreia do Sul são prioridades, com Trump confirmando uma ligação positiva com o presidente interino sul-coreano Han Duck-soo. Na segunda-feira, o primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba também conversou com o presidente americano, enviando uma equipe a Washington para discutir um possível acordo comercial.

A possibilidade de negociações trouxe alívio temporário. O índice VIX, conhecido como o “medidor de medo” de Wall Street, caiu 13% após atingir níveis recordes nas últimas sessões. Ainda assim, o sentimento predominante entre os traders permanece de cautela. “Os investidores estão buscando qualquer indício de um acordo comercial”, observou Jamie Cox, diretor administrativo do Harris Financial Group. “O mercado está pronto para uma recuperação forte, mas depende de notícias concretas.”

  • Sinais de otimismo: A queda do VIX sugere uma redução no nervosismo imediato entre os traders.
  • Foco em aliados: Negociações com Japão e Coreia do Sul podem abrir caminho para exceções às tarifas.
  • Aposta em barganhas: Ações baratas continuam atraindo compradores dispostos a assumir riscos.

Por que os mercados oscilam tanto?

A volatilidade observada nesta terça-feira não é novidade em períodos de incerteza econômica. Após três dias de quedas acentuadas, os investidores aproveitaram o início da semana para buscar oportunidades em ações sobrevendidas. Keith Lerner, da Truist, explicou que esse movimento é típico após choques de mercado. “Recuperações históricas costumam vir junto com quedas massivas, especialmente quando há medo de perder uma alta”, disse. O fenômeno, conhecido como FOMO (fear of missing out), impulsiona compras rápidas em momentos de aparente estabilização.

Um exemplo claro disso ocorreu na segunda-feira, quando uma notícia falsa sobre uma pausa de 90 dias nas tarifas fez os índices subirem temporariamente. Embora a Casa Branca tenha desmentido o rumor, o episódio mostrou como os mercados estão sensíveis a qualquer informação. Michael Block, da Third Seven Capital, apontou que os traders estão “prontos para o fogo”, ou seja, aguardando notícias reais que possam sustentar um rali mais consistente.

A relação preço/lucro baixa do S&P 500 também foi um catalisador para as compras. Fechando abaixo de 17 na segunda-feira, o índice ofereceu uma janela de oportunidade para investidores que acreditam em uma recuperação de longo prazo. No entanto, a confirmação das tarifas de 104% contra a China trouxe uma dose de realidade, limitando os ganhos e mantendo os mercados em um estado de alerta.

A ameaça de uma guerra comercial global

A política tarifária de Trump não se limita à China. No sábado passado, ele impôs tarifas de 10% sobre quase todas as importações americanas, uma medida que já havia abalado os mercados. Agora, com as tarifas recíprocas previstas para quarta-feira, dezenas de países enfrentarão taxas que podem chegar a 50%, dependendo de seus déficits comerciais com os EUA. A China, no entanto, é o alvo principal, com a sobretaxa adicional de 84% elevando o total a 104% – um nível sem precedentes na história recente do comércio internacional.

A resposta chinesa foi imediata e contundente. Além das tarifas de 34% sobre produtos americanos, Pequim anunciou restrições à exportação de sete tipos de terras raras, uma investigação antidumping sobre equipamentos médicos americanos e a suspensão de importações de aves de duas empresas dos EUA. Essas ações sinalizam que a China está preparada para uma batalha prolongada, mesmo que isso custe caro à sua economia, já enfraquecida por uma demanda interna lenta.

O embate entre as duas maiores economias do mundo é descrito como um “jogo de galinha de alto risco”. Trump deu à China até a meia-noite de terça-feira para recuar de suas tarifas retaliatórias, mas Pequim se manteve firme. A recusa em ceder reflete a visão do governo chinês de que aceitar as exigências americanas seria uma capitulação inaceitável. Enquanto isso, os EUA insistem em demandas como a venda do TikTok a uma empresa americana e a transferência de portos no Canal do Panamá, questões que a China rejeitou categoricamente.

O impacto nos Estados Unidos e além

As tarifas de 104% terão consequências imediatas para os consumidores e empresas americanas. Produtos como eletrônicos, roupas e brinquedos, amplamente importados da China, devem ficar mais caros. Grandes varejistas, como Walmart e Target, já alertaram que os aumentos de custo serão repassados aos clientes, o que pode pressionar ainda mais a inflação. Na segunda-feira, o índice de preços ao consumidor já estava acima da meta de 2% do Federal Reserve, e analistas preveem que as tarifas agravem essa tendência.

Para as empresas, o cenário é igualmente desafiador. A Apple, que depende da China para grande parte de sua cadeia de suprimentos, perdeu bilhões em valor de mercado nos últimos dias. Outras companhias, como Nike e Tesla, também enfrentam dificuldades, com quedas de 9% e 5% em suas ações nesta semana. A incerteza levou algumas montadoras, como Ford e General Motors, a pedir isenções para peças importadas, mas até agora não há sinais de que o governo cederá.

Globalmente, os efeitos em cascata já são visíveis. Na Europa, a União Europeia propôs comprar mais gás natural liquefeito dos EUA para compensar seu déficit comercial, uma tentativa de evitar tarifas mais altas. No Japão, o primeiro-ministro Shigeru Ishiba destacou que seu país é o maior investidor estrangeiro direto nos EUA, argumentando por uma relação comercial mais equilibrada. Enquanto isso, países emergentes, como o Brasil, temem perder competitividade no mercado americano devido às tarifas de 10% já em vigor.

  • Aumentos de preços: Eletrônicos e bens de consumo devem encarecer nos EUA.
  • Pressão inflacionária: Tarifas podem elevar a inflação acima dos níveis atuais.
  • Negociações globais: Países aliados buscam acordos para evitar sobretaxas.

Previsões sombrias de Wall Street

Bancos de investimento como Goldman Sachs e JPMorgan Chase emitiram alertas sombrios sobre o futuro da economia americana. O Goldman Sachs elevou a probabilidade de uma recessão nos EUA nos próximos 12 meses para 45%, enquanto o JPMorgan prevê que uma escalada na guerra comercial pode derrubar o crescimento global já neste ano. Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, criticou as tarifas em sua carta anual aos acionistas, argumentando que elas aumentarão preços, desacelerarão a economia e enfraquecerão alianças internacionais.

A visão pessimista contrasta com o otimismo de alguns membros do governo Trump. Peter Navarro, conselheiro comercial do presidente, declarou na Fox News que o mercado “está encontrando o fundo” e previu um Dow Jones a 50.000 pontos sem recessão. “As empresas do S&P 500 serão as primeiras a produzir aqui, liderando a recuperação”, afirmou. No entanto, até mesmo aliados de Trump, como Elon Musk e Bill Ackman, expressaram preocupação, chamando as tarifas de uma política falha que pode prejudicar mais do que beneficiar.

Os dados do mercado mostram um quadro misto. O S&P 500 caiu cerca de 9% na semana passada, enquanto o Nasdaq despencou 10%, apagando US$ 6 trilhões em valor de mercado em apenas dois dias. A Apple liderou as perdas entre as gigantes da tecnologia, mas o grupo das “sete magníficas” – Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla – perdeu US$ 1,8 trilhão desde o início da escalada tarifária. Apesar disso, a alta de terça-feira sugere que os investidores ainda veem potencial de recuperação, desde que haja sinais de alívio nas tensões comerciais.

Cronograma das tarifas de Trump

As tarifas anunciadas por Trump seguem uma sequência de eventos que abalaram os mercados nos últimos dias. Aqui está o calendário dos principais movimentos:

  • Sábado, 5 de abril: Tarifas gerais de 10% entram em vigor para quase todas as importações dos EUA.
  • Sexta-feira, 4 de abril: China anuncia tarifas retaliatórias de 34% sobre produtos americanos, efetivas a partir de 10 de abril.
  • Terça-feira, 8 de abril: Casa Branca confirma tarifas de 104% contra a China, a partir da meia-noite de quarta-feira.
  • Quarta-feira, 9 de abril: Tarifas recíprocas, que variam até 50% para outros países, entram em vigor.

Esse cronograma reflete a rapidez com que a política comercial de Trump está sendo implementada, deixando pouco tempo para negociações ou ajustes por parte de empresas e governos afetados.

A reação dos mercados globais

Enquanto Wall Street oscilava, os mercados asiáticos mostraram uma recuperação significativa nesta terça-feira. O Nikkei 225 do Japão disparou 6%, impulsionado por esperanças de um acordo comercial com os EUA. Em Hong Kong, o Hang Seng subiu 1,5%, recuperando parte das perdas de 13% sofridas na segunda-feira – a maior queda diária desde 1997. Na Coreia do Sul, o Kospi avançou 0,3%, enquanto o ASX 200 da Austrália ganhou 2,3%. Esses movimentos indicam que os investidores asiáticos estão apostando em uma possível distensão com aliados dos EUA, mesmo com a China sob pressão.

Na Europa, o otimismo também prevaleceu. O STOXX 600 subiu 2,72%, com ganhos consistentes no CAC da França (2,5%), no DAX da Alemanha (2,48%) e no FTSE 100 de Londres (2,71%). A proposta da União Europeia de importar mais GNL americano foi vista como um passo positivo, embora as tarifas recíprocas de até 20% contra o bloco ainda estejam no horizonte. A resiliência dos mercados globais contrasta com a cautela em Wall Street, onde o impacto direto das tarifas contra a China pesa mais fortemente.

A volatilidade não se limitou às ações. O preço do ouro, um ativo considerado seguro, atingiu um pico histórico de US$ 3.167,57 a onça na quinta-feira passada, mas recuou ligeiramente nesta terça-feira. Já o petróleo, tanto o Brent quanto o WTI, acumula perdas de quase 7% na semana, refletindo temores de uma desaceleração na demanda global. O dólar, por sua vez, caiu em relação a moedas como o euro (-2%) e o iene japonês (-1,5%), sinalizando uma fuga de investidores para ativos menos expostos ao risco americano.

O que os investidores esperam agora?

Com as tarifas de 104% contra a China confirmadas, os investidores estão divididos entre o medo de uma recessão e a esperança de acordos comerciais. A Casa Branca informou que mais de 70 países já procuraram o governo para negociar, e Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, confirmou durante uma audiência no Senado que as conversas estão em andamento com cerca de 50 nações. Essas negociações abordam não apenas tarifas, mas também barreiras não tarifárias, como regulamentações que dificultam as exportações americanas.

Para os traders, o próximo grande catalisador será qualquer anúncio concreto de Trump. “O mercado está preparado para um rali de cortar o rosto”, disse Jamie Cox, sugerindo que uma única notícia positiva – como um acordo com Japão ou Coreia do Sul – poderia disparar uma alta significativa. Por outro lado, uma escalada ainda maior na guerra comercial, especialmente se a China intensificar suas represálias, pode levar a novas quedas.

Enquanto isso, os valuations baixos continuam a atrair compradores. O S&P 500, mesmo após as perdas recentes, permanece abaixo de sua média histórica de preço/lucro, o que sugere que há espaço para crescimento se a incerteza diminuir. No entanto, a sombra das tarifas de 104% e a postura inflexível de ambos os lados tornam o futuro incerto, mantendo os mercados em um estado de constante alerta.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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