Rio de Janeiro registra primeira morte por febre do Oropouche em Cachoeiras de MacacuPor Jeronimo Santos
10 min de leitura
![]() |
O estado do Rio de Janeiro enfrenta um novo desafio de saúde pública com a confirmação do primeiro óbito por febre do Oropouche, uma doença transmitida por mosquitos que, até recentemente, era mais comum na região amazônica. A vítima, um homem de 64 anos residente em Cachoeiras de Macacu, faleceu após um mês de internação, marcando um momento de alerta para as autoridades sanitárias. A Secretaria de Estado de Saúde intensificou o monitoramento e a capacitação de profissionais para conter a disseminação do vírus. A seguir, os principais aspectos da situação:
- Casos confirmados: O Brasil registrou 5.102 casos em 2024, com avanço para o Sudeste.
- Vetor principal: O mosquito Culicoides paraensis, conhecido como maruim, é o transmissor predominante.
- Sintomas: Febre súbita, dor de cabeça intensa e dores musculares, semelhantes à dengue.
Primeiro óbito no Rio de Janeiro
A morte registrada em Cachoeiras de Macacu ocorreu em março de 2025, após o paciente, um homem de 64 anos, ser internado em fevereiro na Região Metropolitana. Ele apresentou sintomas graves da febre do Oropouche, incluindo febre alta, dores articulares e complicações que exigiram cuidados intensivos. A Secretaria de Estado de Saúde confirmou o caso como o primeiro óbito pela doença no estado, destacando a necessidade de reforçar as ações de vigilância. A análise do caso revelou que a vítima não tinha histórico de viagem recente para áreas endêmicas, sugerindo possível transmissão local.
O avanço da febre do Oropouche para o Sudeste preocupa especialistas, que monitoram a adaptação do vírus a novos ambientes. Em 2024, o estado do Rio já havia registrado casos em municípios como Japeri, Valença, Piraí e a capital, totalizando dez infecções confirmadas até abril. A investigação epidemiológica segue para determinar se o caso de Cachoeiras de Macacu foi autóctone ou importado, com captura de mosquitos em andamento para avaliar a presença do vetor na região.
Origem e transmissão do vírus
A febre do Oropouche é causada pelo vírus Orthobunyavirus oropoucheense, identificado pela primeira vez no Brasil em 1960, a partir de uma amostra de sangue de um bicho-preguiça durante a construção da rodovia Belém-Brasília. A doença é transmitida principalmente pelo mosquito Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora, comum em áreas úmidas e com vegetação densa. Em áreas urbanas, o Culex quinquefasciatus, popularmente chamado de pernilongo, também pode atuar como vetor, ampliando o risco em cidades.
O ciclo de transmissão envolve:
- Hospedeiros silvestres: Primatas, preguiças e possivelmente aves.
- Hospedeiros urbanos: Seres humanos, que se tornam amplificadores do vírus.
- Ambientes favoráveis: Zonas com acúmulo de matéria orgânica, mangues e rios.
A proliferação do maruim é favorecida por condições climáticas quentes e úmidas, típicas do verão, o que explica o aumento de casos durante os primeiros meses do ano.
Sintomas e diagnóstico
Os sintomas da febre do Oropouche surgem de forma súbita e podem ser confundidos com os de outras arboviroses, como dengue e chikungunya. Pacientes relatam febre alta, dor de cabeça intensa, dores musculares e articulares, além de sintomas como náuseas, tontura e fotofobia. Em casos raros, a doença pode evoluir para complicações graves, como meningoencefalite, especialmente em pessoas imunocomprometidas.
O diagnóstico é desafiador devido à semelhança com outras doenças. A confirmação depende de exames laboratoriais, como RT-PCR e testes sorológicos, realizados em laboratórios de referência, como o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz. A vigilância epidemiológica desempenha um papel crucial, especialmente em regiões não endêmicas, onde a doença pode passar despercebida.

Ações de vigilância e prevenção
A Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro monitora semanalmente o avanço da febre do Oropouche, com capacitações contínuas para profissionais de saúde nos municípios. Desde 2024, o estado implementou estratégias para evitar a proliferação do vírus, incluindo:
- Investigação entomológica: Captura de mosquitos em áreas com casos confirmados.
- Treinamento de equipes: Orientação para diagnóstico precoce e manejo clínico.
- Comunicação com a população: Alertas sobre medidas preventivas.
As autoridades recomendam o uso de repelentes, roupas que cubram o corpo e a instalação de telas em janelas para reduzir o contato com o maruim, que é mais ativo ao amanhecer e ao entardecer.
Avanço da doença no Brasil
O Brasil registrou um aumento significativo de casos de febre do Oropouche em 2024, com 5.102 infecções confirmadas até maio, segundo o Ministério da Saúde. A região Norte, especialmente Amazonas e Rondônia, concentrou a maior parte dos casos, mas a doença se espalhou para estados como Bahia, Espírito Santo, Piauí e Rio de Janeiro. A faixa etária mais afetada está entre 20 e 29 anos, embora óbitos tenham ocorrido em diferentes grupos.
Em julho de 2024, o Ministério da Saúde confirmou as primeiras mortes pela doença no mundo, registradas na Bahia. As vítimas eram duas mulheres jovens, de 21 e 24 anos, sem comorbidades, que apresentaram sintomas graves, incluindo sangramentos e queda abrupta de plaquetas. Um terceiro óbito, de um homem de 59 anos em Santa Catarina, segue em investigação.
Transmissão vertical e complicações
A febre do Oropouche ganhou atenção devido a casos de transmissão vertical, quando o vírus é passado da mãe para o feto. Em Pernambuco, foi confirmado o primeiro óbito fetal causado pela doença, em uma gestante de 28 anos na 30ª semana de gestação. Outros oito casos de transmissão vertical estão em análise, sendo quatro em Pernambuco, um na Bahia e três no Acre. Destes, quatro resultaram em óbito fetal, e quatro apresentaram anomalias congênitas, como microcefalia.
As autoridades de saúde intensificaram a vigilância em gestantes com suspeita de arboviroses, recomendando a coleta de amostras de soro, sangue e tecidos para detectar o vírus. A possibilidade de complicações neurológicas em recém-nascidos reforça a necessidade de monitoramento rigoroso durante a gravidez.
Expansão para o Sudeste
A chegada da febre do Oropouche ao Sudeste marca uma mudança no padrão epidemiológico da doença. Em 2024, o Espírito Santo registrou 886 casos até janeiro de 2025, representando 99% dos casos nacionais no período. Municípios como Alfredo Chaves e Laranja da Terra, com plantações de banana e café, apresentaram condições ideais para a proliferação do maruim. No Rio de Janeiro, os 99 casos confirmados até janeiro de 2025 indicam uma disseminação progressiva.
A urbanização do vírus, com o pernilongo como vetor potencial, aumenta o risco em áreas densamente povoadas. A Secretaria de Estado de Saúde do Rio mantém contato com municípios para reforçar estratégias de controle vetorial, como a eliminação de criadouros de mosquitos em áreas com acúmulo de lixo orgânico.
Medidas de controle vetorial
O controle do mosquito maruim é mais complexo que o do Aedes aegypti, transmissor da dengue, devido às diferenças em seus hábitos de reprodução. O maruim prefere ambientes úmidos e sombreados, como mangues e áreas com vegetação densa, o que exige ações específicas:
- Limpeza de áreas: Remoção de matéria orgânica acumulada.
- Monitoramento de criadouros: Identificação de locais com água parada.
- Educação comunitária: Incentivo à proteção individual contra picadas.
As autoridades também avaliam a possibilidade de pulverização em áreas críticas, embora a eficácia contra o maruim seja limitada.
Histórico de surtos no Brasil
A febre do Oropouche tem histórico de surtos no Brasil desde a década de 1970, principalmente na região amazônica. Em 2011, Manaus enfrentou um surto significativo durante o período chuvoso, com centenas de casos confirmados. Nos últimos anos, a doença se espalhou para outras regiões, com registros em estados como Roraima, Acre e Pará.
A ampliação dos testes diagnósticos, iniciada em 2023 pelo Ministério da Saúde, contribuiu para a identificação de casos fora da Amazônia. Laboratórios Centrais de Saúde Pública agora testam amostras negativas para dengue, Zika e chikungunya, revelando a presença do vírus Oropouche em estados antes considerados livres da doença.
Prevenção em áreas urbanas
A população do Rio de Janeiro recebeu orientações para adotar medidas preventivas contra a febre do Oropouche, especialmente em áreas próximas a matas e rios. As recomendações incluem:
- Uso de repelentes: Aplicação em áreas expostas da pele.
- Roupas protetoras: Camisas de mangas longas e calças.
- Telas de proteção: Instalação em residências para bloquear o maruim.
- Limpeza de quintais: Eliminação de folhas e lixo orgânico.
A Secretaria de Saúde também incentiva que pessoas com sintomas procurem unidades de saúde imediatamente para avaliação e notificação dos casos.
Casos em outros estados
Além do Rio de Janeiro, outros estados registraram aumento de casos em 2025. Em Pernambuco, uma idosa de 71 anos faleceu em 2024, marcando o primeiro óbito de um adulto pela doença no estado. O Espírito Santo, com 6.424 casos confirmados até janeiro de 2025, enfrenta uma situação de alerta, com transmissão vertical confirmada em quatro pacientes. São Paulo também relatou casos, como o primeiro em Ubatuba, em uma área próxima a matas.
A disseminação da doença reflete fatores como mudanças climáticas, que favorecem a proliferação de mosquitos, e o aumento da mobilidade populacional, que facilita a introdução do vírus em novas regiões.
Monitoramento contínuo
A Sala Nacional de Arboviroses, coordenada pelo Ministério da Saúde, acompanha a evolução da febre do Oropouche em tempo real, com diálogo constante entre secretarias estaduais e municipais. Visitas técnicas e buscas ativas de casos são realizadas em áreas afetadas, com foco na identificação precoce de surtos.
No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Saúde mantém um cronograma de capacitações para médicos e enfermeiros, enfatizando a importância de perguntar aos pacientes sobre viagens recentes a áreas endêmicas. A notificação imediata de casos suspeitos é obrigatória, dada a capacidade de mutação do vírus e seu potencial epidêmico.
Desafios no diagnóstico
A semelhança entre a febre do Oropouche e outras arboviroses dificulta o diagnóstico clínico, exigindo testes laboratoriais específicos. A ampliação da rede de Laboratórios Centrais de Saúde Pública permitiu maior detecção, mas a infraestrutura em regiões menos desenvolvidas ainda enfrenta limitações.
Médicos são orientados a considerar a febre do Oropouche em pacientes com sintomas compatíveis, especialmente em áreas com casos confirmados. A demora no diagnóstico pode agravar casos raros, como os que evoluem para complicações neurológicas ou hemorrágicas.
Recomendações para gestantes
Gestantes representam um grupo de risco devido à possibilidade de transmissão vertical. As autoridades de saúde recomendam:
- Consulta médica imediata: Em caso de febre ou outros sintomas.
- Proteção contra mosquitos: Uso de repelentes seguros e roupas adequadas.
- Acompanhamento pré-natal: Monitoramento rigoroso de possíveis complicações.
A vigilância de desfechos gestacionais, como abortos e malformações, foi intensificada em estados com casos confirmados, com coleta de amostras para análise laboratorial.






