A febre dos bebês reborn, bonecas hiper-realistas que imitam recém-nascidos, tomou conta das redes sociais e chegou aos corredores legislativos de Santa Catarina. Em cidades como Itajaí, Florianópolis e Palhoça, vereadores e autoridades municipais protocolaram projetos de lei para proibir o uso desses bonecos em unidades de saúde públicas. A medida, que já provoca debates acalorados, surge após casos isolados de pessoas tentando acessar serviços médicos com os brinquedos, gerando preocupação com o uso adequado de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Embora os casos sejam raros, a repercussão nas redes sociais amplificou o tema, levando autoridades a agir rapidamente. Um episódio em Itajaí, onde uma mulher levou uma boneca para “tomar vacina” a pedido de sua filha, foi o estopim para propostas legislativas no estado. Parlamentares argumentam que é preciso garantir a eficiência dos serviços de saúde, enquanto colecionadores defendem o caráter terapêutico e artístico dos bonecos.
A seguir, os principais pontos que alimentam a discussão:
- Projetos de lei em tramitação visam proibir atendimentos médicos a bonecos em unidades públicas.
- Apenas um caso registrado em Santa Catarina envolveu uma tentativa de uso de bebê reborn em posto de saúde.
- A popularidade dos bonecos cresceu com vídeos virais no TikTok e Instagram, atraindo tanto admiradores quanto críticos.
- Especialistas destacam o potencial terapêutico dos reborns, mas alertam para os limites de seu uso em espaços públicos.
O debate em Santa Catarina reflete uma tendência nacional, com projetos semelhantes surgindo em outros estados, como Minas Gerais e Rio de Janeiro. A onda reborn, que mistura arte, afeto e polêmica, continua a desafiar as fronteiras entre hobby e responsabilidade pública.
Origem da polêmica em Itajaí
Em janeiro de 2025, uma mãe acompanhou a filha de 4 anos a um posto de saúde em Itajaí, no litoral catarinense. A criança, fascinada por sua boneca reborn, pediu que o brinquedo recebesse uma vacina, e a mãe, atendendo ao desejo da filha, simulou o procedimento para gravar um vídeo. O conteúdo, postado nas redes sociais, alcançou milhares de visualizações, mas também gerou críticas de internautas que questionaram a seriedade do ato. A Secretaria de Saúde de Itajaí confirmou que o caso foi isolado e não envolveu atendimento médico efetivo, mas a repercussão foi suficiente para motivar uma resposta legislativa.
O vereador Beto Cunha, do partido Republicanos, protocolou o Projeto de Lei 012/2025 na Câmara de Vereadores de Itajaí. O texto propõe a proibição de atendimentos médicos a bonecos reborn em unidades públicas municipais, com multa de até cinco salários mínimos para infratores. Segundo Cunha, a medida visa evitar confusões que possam comprometer o atendimento a pacientes reais, além de proteger os recursos públicos. “Não estamos contra o hobby, mas o SUS é para pessoas, não para objetos”, declarou o vereador em entrevista à imprensa local.
A proposta ainda está em fase inicial de tramitação e deve passar por comissões antes de ir a votação. Enquanto isso, colecionadores da região se organizam em grupos de WhatsApp e Telegram para defender o uso das bonecas, argumentando que o caso foi mal interpretado. Para muitos, os reborns são mais do que brinquedos: representam uma forma de expressão artística e, em alguns casos, uma ferramenta para lidar com luto ou ansiedade.
Propostas legislativas em outras cidades
Além de Itajaí, outras cidades catarinenses entraram na onda de regulamentação dos bebês reborn. Em Florianópolis, o vereador Claudinei Marques, também do Republicanos, apresentou um projeto de lei na Câmara Municipal em 19 de maio de 2025. A proposta busca garantir que os serviços de saúde pública sejam usados exclusivamente para pacientes humanos, evitando situações que possam gerar mal-entendidos. A prefeitura da capital informou que não há registros de atendimentos a bonecos em unidades municipais, mas Marques defende a medida como preventiva.
Em Palhoça, na Grande Florianópolis, o vice-prefeito em exercício, Rosiney Horácio, do partido PODE, foi além ao propor um projeto de lei semelhante. Horácio ganhou atenção nas redes sociais após publicar um vídeo em que joga uma boneca reborn para longe, em um gesto que ele descreveu como simbólico. “Queremos respeito ao SUS e aos profissionais de saúde”, afirmou. A assessoria da prefeitura de Palhoça esclareceu que não há casos registrados de uso de bonecos em unidades de saúde, mas a proposta reflete a preocupação com a possível replicação de episódios como o de Itajaí.
Os projetos em tramitação nas três cidades compartilham objetivos semelhantes:
- Proibir o uso de bonecos reborn em atendimentos médicos no SUS.
- Estabelecer multas para quem tentar acessar serviços públicos com os brinquedos.
- Garantir que recursos de saúde sejam direcionados a pacientes reais.
- Prevenir confusões que possam atrasar atendimentos prioritários.
Apesar das semelhanças, cada proposta tem particularidades. Em Florianópolis, o projeto inclui diretrizes para orientar profissionais de saúde sobre como lidar com situações envolvendo bonecos, enquanto em Palhoça há ênfase na fiscalização de unidades públicas. A tramitação dessas propostas promete gerar debates acalorados nos próximos meses, com audiências públicas previstas para ouvir a população e especialistas.
Reação de Chapecó e ausência de casos
No oeste catarinense, Chapecó tornou-se um ponto focal na discussão sobre os bebês reborn, mas por motivos diferentes. O prefeito João Rodrigues, do PSD, publicou um vídeo em suas redes sociais em maio de 2025, no qual classificou como “loucura” a prática de levar bonecos a unidades de saúde. Em tom contundente, Rodrigues afirmou que qualquer pessoa que tentasse consultar um bebê reborn seria internada involuntariamente. “A pessoa não pode estar bem”, disse, em uma postagem que alcançou mais de 100 mil visualizações no Instagram.
A declaração do prefeito gerou reações mistas. Enquanto alguns moradores apoiaram a postura, outros criticaram o tom estigmatizante, argumentando que o comentário desrespeita pessoas que usam os bonecos por razões terapêuticas. A prefeitura de Chapecó informou que não há registros de atendimentos a bonecos em unidades de saúde locais, e, ao contrário de outras cidades, não há projeto de lei em tramitação sobre o tema. A ausência de casos concretos levanta questionamentos sobre a necessidade de medidas tão drásticas, mas Rodrigues mantém sua posição, defendendo a prioridade do SUS para pacientes reais.
O que são bebês reborn
Os bebês reborn são bonecas artesanais feitas de vinil ou silicone, projetadas para imitar recém-nascidos com detalhes impressionantes, como textura de pele, cabelos implantados fio a fio e olhos de vidro. Criados inicialmente nos Estados Unidos na década de 1990, esses bonecos ganharam popularidade no Brasil nos últimos anos, especialmente entre colecionadores e pessoas que os utilizam como ferramentas terapêuticas. O processo de criação, conhecido como “reborning”, pode levar semanas, e os preços variam de R$ 750 a R$ 9,5 mil, dependendo da complexidade e dos materiais usados.
Os usos dos bebês reborn são diversos:
- Colecionismo: Muitos adquirem os bonecos como peças de arte, valorizando o trabalho artesanal.
- Terapia: Psicólogos relatam que os bonecos ajudam em casos de luto, ansiedade ou isolamento social.
- Entretenimento: Influenciadores criam conteúdo nas redes sociais, simulando rotinas de cuidado com os bonecos.
- Educação: Algumas escolas de enfermagem usam modelos de silicone para treinar cuidados neonatais.
Apesar de sua versatilidade, o uso dos bonecos em espaços públicos, como unidades de saúde, tem gerado controvérsias. Enquanto colecionadores defendem a legitimidade do hobby, críticos argumentam que a prática pode sobrecarregar serviços públicos e desrespeitar a seriedade do atendimento médico.
Debate nas redes sociais
A popularidade dos bebês reborn explodiu nas redes sociais em 2025, impulsionada por vídeos no TikTok e Instagram que mostram “mães” e “pais” compartilhando rotinas com os bonecos. Esses conteúdos, que incluem desde passeios em carrinhos até simulações de consultas médicas, atraem milhões de visualizações, mas também dividem opiniões. Um vídeo postado por uma influenciadora de Florianópolis, que simulava um “parto” de um bebê reborn, alcançou mais de 2 milhões de visualizações em abril, gerando tanto elogios quanto críticas.
Os comentários nas redes refletem a polarização:
- Apoio: “É uma arte linda e ajuda muita gente a lidar com a dor.”
- Crítica: “Isso é perda de tempo e desrespeito com quem precisa de atendimento de verdade.”
- Humor: “Daqui a pouco vão pedir certidão de nascimento para a boneca!”
- Questionamento: “Será que isso é saudável ou precisa de acompanhamento psicológico?”
A viralização desses conteúdos motivou a criação de comunidades online, como grupos no WhatsApp e Telegram, onde colecionadores trocam dicas e organizam eventos, como a Reborn Expo, realizada anualmente em São Paulo. No entanto, a exposição nas redes também intensificou o escrutínio público, levando autoridades a propor regulamentações para limitar o uso dos bonecos em espaços públicos.
Perspectiva dos colecionadores
Para muitos entusiastas, os bebês reborn são mais do que objetos: são símbolos de afeto, criatividade e, em alguns casos, cura emocional. Em Florianópolis, a artesã Mariana Silva, de 38 anos, produz bonecos reborn há uma década e relata um aumento na procura em 2025. “As pessoas buscam os bonecos por diferentes motivos, desde colecionar até lidar com a perda de um filho”, explica. Cada boneco leva cerca de 20 dias para ser concluído, com detalhes que vão desde veias aparentes até unhas pintadas à mão.
Colecionadores como Ana Ribeiro, de Itajaí, defendem o hobby e criticam os projetos de lei. “É injusto generalizar por causa de um caso isolado. Minha boneca me ajuda a lidar com a depressão, e nunca pensei em levá-la a um hospital”, diz. Ana faz parte de um grupo de WhatsApp com mais de 500 membros, onde colecionadores compartilham fotos e dicas de cuidados com os bonecos. Eventos presenciais, como feiras em Campinas e São Paulo, também ganharam força, atraindo centenas de visitantes anualmente.
A comunidade enfrenta preconceitos, com relatos de olhares de desaprovação em espaços públicos. Para combater o estigma, alguns colecionadores planejam criar associações formais para representar o segmento e esclarecer o propósito das bonecas. Um workshop está programado para junho de 2025 em Campinas, onde artesãos ensinarão técnicas de pintura e montagem, destacando o lado artístico do hobby.
Saúde mental e usos terapêuticos
Psicólogos e psicanalistas têm opiniões divergentes sobre os bebês reborn. A psicóloga Larissa Fonseca, de Florianópolis, destaca que os bonecos podem ser ferramentas terapêuticas valiosas em casos específicos. “Para pessoas que sofreram perdas gestacionais ou lidam com depressão, cuidar de um reborn pode trazer conforto emocional”, afirma. Ela cita exemplos de idosos com Alzheimer que usam os bonecos para reduzir a ansiedade, simulando cuidados com bebês de sua memória.
No entanto, especialistas alertam para os limites. A psicanalista Maysa Balduíno, de Joinville, enfatiza que o apego excessivo aos bonecos, a ponto de comprometer a rotina ou a percepção da realidade, pode indicar questões emocionais que requerem acompanhamento profissional. “O reborn pode ser um objeto transicional, mas não substitui a psicoterapia”, explica. Dados de um estudo da Universidade de São Paulo (USP) mostram que atividades lúdicas, como brincar com bonecas, ativam áreas do cérebro ligadas à criatividade e ao relaxamento, mas o impacto varia de pessoa para pessoa.
Os projetos de lei em Santa Catarina não abordam diretamente a saúde mental, mas propostas em outros estados, como o Rio de Janeiro, sugerem programas de acolhimento psicossocial para pessoas com vínculos intensos com os bonecos. Em Florianópolis, a Secretaria de Saúde planeja capacitar profissionais para identificar casos em que o uso de reborns possa indicar necessidade de suporte psicológico, embora não haja diretrizes específicas em vigor.
Mercado em ascensão
O mercado de bebês reborn no Brasil está em franca expansão. Em 2025, o setor movimentou cerca de R$ 50 milhões, segundo estimativas de artesãos e lojistas. Cidades como Campinas, São Paulo e Florianópolis concentram o maior número de “cegonhas”, como são chamadas as artesãs que produzem os bonecos. Uma loja em Campinas, a Alana Babys, fatura até R$ 300 mil por mês com a venda de reborns, acessórios e cursos de reborning.
Os preços refletem a complexidade do trabalho artesanal:
- Bonecos de vinil: R$ 750 a R$ 2.000.
- Bonecos de silicone com detalhes avançados: R$ 3.000 a R$ 9.500.
- Acessórios (carrinhos, berços, roupas): R$ 100 a R$ 1.500.
- Cursos de reborning: R$ 500 a R$ 2.000 por workshop.
A ascensão do mercado também é impulsionada pelas redes sociais, onde influenciadores monetizam conteúdos com os bonecos. Um perfil no Instagram dedicado a um bebê reborn pode gerar até R$ 5.000 por mês com parcerias publicitárias, segundo estimativas do setor. A popularidade levou ao aumento da oferta de bonecos falsificados, produzidos em massa na China, que custam a partir de R$ 200, mas não têm a mesma qualidade artesanal.
Reações nacionais e paralelos legislativos
A polêmica em Santa Catarina não é um caso isolado. Em Minas Gerais, o deputado estadual Cristiano Caporezzo protocolou o Projeto de Lei 3.757/2025, que proíbe o atendimento de bonecos reborn no SUS, com multas de até dez vezes o valor do serviço prestado. No Rio de Janeiro, a aprovação do “Dia da Cegonha Reborn” gerou controvérsias, enquanto um projeto de lei propõe programas de saúde mental para “pais” de reborns. Na Câmara dos Deputados, três projetos nacionais abordam o tema, incluindo a proibição de atendimentos médicos a bonecos e sanções para quem usar os brinquedos para obter benefícios sociais.
Um levantamento do UOL revelou que, apesar da multiplicação de projetos de lei, apenas um caso real de tentativa de atendimento médico a um bebê reborn foi registrado no Brasil, em Guanambi, na Bahia. O episódio envolveu uma jovem com transtorno psiquiátrico que foi orientada a voltar para casa antes de entrar na unidade de saúde. A escassez de casos concretos levanta debates sobre a proporcionalidade das medidas legislativas, mas parlamentares defendem a necessidade de regulamentação preventiva.
Eventos e feiras especializadas
A febre dos bebês reborn também se manifesta em eventos presenciais. A Reborn Expo, realizada em São Paulo desde 2018, atrai cerca de 1.500 visitantes anualmente, com exposições de bonecos, workshops e concursos de customização. Em 2025, a edição da expo incluiu um “concurso de fantasia”, onde bonecos foram vestidos com temas como Páscoa e super-heróis. Eventos menores, como encontros em parques, também ganharam força, como o que reuniu dezenas de “mães” reborn no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, em abril de 2025.
Em Santa Catarina, colecionadores planejam um encontro regional em Florianópolis para julho de 2025, com o objetivo de promover o lado artístico dos bonecos e combater preconceitos. “Queremos mostrar que é um hobby legítimo, não uma loucura”, diz a organizadora Carla Mendes, que coleciona reborns há cinco anos. A expectativa é que o evento reúna cerca de 200 participantes, incluindo artesãos e influenciadores digitais.
Limites jurídicos e sociais
A onda reborn também levanta questões jurídicas. No Brasil, bonecos não têm personalidade jurídica, o que impede a concessão de benefícios como licença-maternidade ou pensão alimentícia. Um caso emblemático em Goiás, onde um casal disputou a “guarda” de um bebê reborn após a separação, destacou os desafios legais. A boneca, que tinha um perfil no Instagram com milhares de seguidores, gerava receita publicitária, transformando-se em um ativo financeiro. A advogada do caso, Suzana Ferreira, explicou que o Judiciário tratou a boneca como um bem material, dividindo seu valor monetário.
Outras tentativas de usar reborns para obter vantagens, como assentos preferenciais em transportes públicos, também enfrentam resistência. A Prefeitura de Curitiba emitiu um comunicado em 2025 esclarecendo que carregar um bebê reborn não dá direito a benefícios no transporte coletivo. Em Recife, uma audiência pública discutiu o impacto do uso de bonecos em serviços prioritários, com propostas para reforçar a fiscalização.
Papel dos famosos e influenciadores
A popularidade dos bebês reborn ganhou reforço com a participação de figuras públicas. A ex-BBB Gracyanne Barbosa adotou um boneco chamado Benício em 2025, compartilhando sua rotina nas redes sociais. “Ele me trouxe felicidade”, escreveu em uma postagem que alcançou 500 mil curtidas. A modelo Nicole Bahls também aderiu à tendência, exibindo um bebê reborn em formato de porco, em homenagem à sua paixão por animais.
O padre Fábio de Melo, conhecido por seu engajamento nas redes, “adotou” uma boneca reborn com síndrome de Down durante uma visita a uma maternidade de bonecas em Orlando, nos Estados Unidos. O gesto, uma homenagem à sua mãe, gerou elogios, mas também críticas de internautas que questionaram a seriedade da ação. Em resposta, o padre esclareceu que a adoção foi simbólica e que respeita quem usa os bonecos por afeto ou terapia.
Proximos passos legislativos
As propostas em Santa Catarina ainda estão em fase inicial, com audiências públicas previstas para os próximos meses. Em Itajaí, o projeto de Beto Cunha deve ser discutido em comissão até julho de 2025, com possibilidade de votação no segundo semestre. Em Florianópolis, o vereador Claudinei Marques planeja incluir emendas ao projeto para esclarecer como os profissionais de saúde devem agir em casos envolvendo bonecos. Em Palhoça, a proposta de Rosiney Horácio enfrenta resistência de vereadores que questionam sua relevância, dado que não há casos registrados no município.
No âmbito nacional, os projetos na Câmara dos Deputados devem passar por comissões temáticas antes de seguirem para votação no plenário. A expectativa é que o tema continue gerando debates, com pressão de colecionadores por uma abordagem mais equilibrada e menos estigmatizante. Enquanto isso, o mercado de reborns segue crescendo, e as bonecas permanecem no centro de uma discussão que mistura arte, saúde mental e responsabilidade pública.

