Nos anos 1960, Brian Wilson, fundador e líder dos Beach Boys, transformou a música pop com o icônico álbum Pet Sounds, lançado em 1966, que até hoje é reverenciado como uma obra-prima do rock. Em uma playlist criada para a Rolling Stone EUA em 2015, Wilson selecionou oito músicas que considera indispensáveis em sua formação musical, revelando as influências que moldaram sua genialidade. Essas faixas, que vão de George Gershwin a Bob Dylan, mostram a diversidade de sons que inspiraram o artista na Califórnia, onde ele nasceu, em 1942. A lista oferece um mergulho na mente criativa de um dos maiores compositores do século XX, cuja vida foi marcada por inovação, desafios pessoais e um legado eterno.
A seleção de Wilson não é apenas uma coleção de canções favoritas, mas um reflexo de momentos cruciais de sua trajetória. Ele destacou, por exemplo, a primeira música que ouviu na infância, uma obra que despertou sua paixão pela música. Além disso, a lista inclui artistas que rivalizaram com os Beach Boys na efervescente cena musical dos anos 1960, como os Beatles e os Rolling Stones.
Para entender o impacto dessas escolhas, é preciso olhar para o contexto da época. Os Beach Boys, formados por Wilson, seus irmãos Carl e Dennis, o primo Mike Love e o amigo Al Jardine, surgiram em 1961, em Hawthorne, Califórnia. A banda rapidamente se tornou um símbolo da cultura jovem americana, com letras sobre surfe, carros e amores adolescentes.
- Influências iniciais: A infância de Wilson foi marcada pela música, desde os discos que ouvia com a família até as harmonias vocais que praticava com os irmãos.
- Rivalidade criativa: A competição saudável com os Beatles impulsionou Wilson a explorar novos arranjos e técnicas de estúdio.
- Legado duradouro: As escolhas musicais de Wilson mostram como ele absorveu e reinterpretou estilos variados, criando um som único.
Primeira nota da infância
Aos dois anos, Brian Wilson ouviu Rhapsody in Blue, de George Gershwin, e ficou tão encantado que pediu à mãe para tocar a música novamente. A composição, lançada em 1924, é uma fusão de jazz e música clássica, com violinos que cativaram o jovem Wilson. Essa experiência, segundo ele, foi um marco em sua relação com a música, plantando a semente de sua obsessão por harmonias complexas. A influência de Gershwin é perceptível em faixas como God Only Knows, de Pet Sounds, onde Wilson combina melodias delicadas com arranjos orquestrais.
O impacto de Rhapsody in Blue vai além da infância. Wilson frequentemente mencionava a obra como um exemplo de como a música pode evocar emoções profundas. Sua admiração por Gershwin o levou a experimentar com estruturas não convencionais, algo que se tornou uma marca registrada dos Beach Boys.
Beatles e a revolução pop
Entre as oito músicas escolhidas, uma faixa dos Beatles ocupa lugar de destaque: Norwegian Wood (This Bird Has Flown), do álbum Rubber Soul (1965). Wilson revelou que a canção, escrita por John Lennon e com influências de Bob Dylan, o deixou impressionado pela originalidade das letras e pela inovação sonora, especialmente pelo uso da cítara por George Harrison. A música marcou um ponto de virada na rivalidade amigável entre os Beach Boys e os Beatles, que se inspiravam mutuamente.
Rubber Soul foi um divisor de águas para Wilson. Ele viu no álbum uma coesão que o inspirou a criar Pet Sounds como uma obra completa, não apenas uma coleção de singles. Paul McCartney, por sua vez, reconheceu a influência de Pet Sounds em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), criando um ciclo de inspiração mútua que elevou o pop a um novo patamar.
Rolling Stones e a energia crua
Outra escolha de Wilson foi (I Can’t Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones, lançada em 1965. A faixa, com seu riff icônico e letras rebeldes, capturou a energia da juventude da época. Wilson, que chegou a visitar o estúdio onde os Stones mixavam a música, destacou a potência emocional da canção. Sua inclusão na lista revela como ele apreciava a diversidade de estilos, mesmo aqueles distantes do som polido dos Beach Boys.
A relação de Wilson com os Rolling Stones também reflete o respeito mútuo entre os artistas dos anos 1960. Os Stones, admiradores de Pet Sounds, chegaram a promover o álbum entre seus fãs, um gesto que mostra a camaradagem da época. A influência de Satisfaction aparece em faixas mais enérgicas dos Beach Boys, como I Get Around, que combinam ritmo e atitude.
Bob Dylan e a poesia folk
Bob Dylan também está presente na lista de Wilson com Like a Rolling Stone, de 1965. A música, com sua narrativa poética e arranjo inovador, revolucionou o rock ao romper com as estruturas tradicionais das canções pop. Wilson admirava a habilidade de Dylan em contar histórias complexas, algo que ele tentou emular em faixas introspectivas de Pet Sounds, como Caroline, No.
A escolha de Dylan reflete a busca de Wilson por profundidade lírica. Embora os Beach Boys fossem conhecidos por letras leves, Wilson começou a explorar temas mais pessoais e melancólicos, influenciado por compositores como Dylan. Essa transição é evidente em álbuns posteriores, como Smile, que, embora inacabado na época, mostrou sua ambição artística.
Chuck Berry e o ritmo do rock
O rock and roll de Chuck Berry também marcou presença na lista com Johnny B. Goode (1958). A energia contagiante e os riffs de guitarra da música influenciaram diretamente o som inicial dos Beach Boys, especialmente em hits como Surfin’ U.S.A., que ecoa o estilo de Berry. Wilson via na simplicidade do rock de Berry uma base para suas próprias inovações.
- Raízes do rock: Berry foi uma influência para toda a geração de Wilson, definindo o som da juventude americana.
- Adaptação criativa: Wilson pegou elementos de Berry e os combinou com harmonias vocais sofisticadas.
- Conexão emocional: A energia de Johnny B. Goode ressoava com a vibe otimista dos primeiros álbuns dos Beach Boys.
Outras influências notáveis
Além das faixas já mencionadas, Wilson incluiu músicas de artistas como The Four Freshmen, cujo estilo vocal inspirou as harmonias dos Beach Boys, e Phil Spector, conhecido pela técnica de produção Wall of Sound. Essas escolhas mostram a amplitude de suas referências, que vão do jazz vocal à produção grandiosa. A lista completa revela um artista que absorvia tudo ao seu redor, transformando influências em algo novo.
Cada música escolhida por Wilson representa um pedaço de sua evolução. Ele não apenas ouvia essas faixas, mas as estudava, desconstruindo arranjos e harmonias para criar seu próprio som. Esse processo meticuloso é parte do que fez de Pet Sounds um marco, influenciando gerações de músicos.
Desafios pessoais e resiliência
A trajetória de Wilson não foi apenas de sucessos. Diagnosticado com esquizofrenia e enfrentando um distúrbio neurocognitivo grave, ele lidou com problemas de saúde mental por décadas. Sua autobiografia, Eu Sou Brian Wilson (2016), detalha como a música foi sua âncora em momentos difíceis. As oito músicas de sua lista são, de certa forma, um reflexo dessa resiliência, mostrando como ele encontrou inspiração mesmo em meio a adversidades.
A relação conturbada com o pai, Murry Wilson, também marcou sua vida. Murry, que gerenciou os Beach Boys nos primeiros anos, foi uma figura autoritária, mas também incentivou o talento musical dos filhos. Essa dualidade aparece nas memórias de Wilson, que via na música uma forma de escapar das tensões familiares.
Legado vivo na música
As escolhas de Wilson continuam a inspirar artistas e fãs. Sua habilidade de misturar gêneros e criar algo único abriu portas para o experimentalismo no pop. Hoje, Pet Sounds é estudado em escolas de música, e faixas como Good Vibrations são celebradas por sua inovação técnica. A lista de oito músicas é um convite para explorar as raízes de um gênio que mudou a história da música.
A influência de Wilson vai além dos anos 1960. Artistas contemporâneos, de indie a eletrônica, citam os Beach Boys como referência. Sua playlist, publicada há quase uma década, segue relevante, conectando gerações através de clássicos atemporais.
Curiosidades sobre a playlist
A seleção de Wilson é cheia de histórias interessantes, que revelam tanto sua personalidade quanto o contexto cultural da época:
- Rhapsody in Blue foi tocada em um rádio na casa da família Wilson, marcando um dos primeiros recuerdos musicais do artista.
- Wilson assistiu a shows dos Rolling Stones e se impressionou com a energia ao vivo da banda.
- Sua admiração pelos Beatles o levou a trocar ideias com Paul McCartney sobre produção musical.
- A escolha de Dylan reflete sua vontade de explorar letras mais introspectivas, algo incomum no pop da época.
Música como refúgio
Para Wilson, a música sempre foi mais que arte; era sobrevivência. Ele descreveu em entrevistas como as melodias o ajudavam a enfrentar os “demônios internos”. As oito faixas de sua lista são um testemunho disso, representando não apenas influências, mas também momentos de conexão emocional. Sua história mostra como a criatividade pode florescer mesmo em meio a desafios.
Um olhar para o passado
A playlist de Wilson é uma janela para os anos 1960, uma era de transformação cultural e musical. Cada música reflete um aspecto dessa revolução, do experimentalismo dos Beatles à rebeldia dos Rolling Stones. Ao compartilhar suas escolhas, Wilson ofereceu aos fãs uma chance de entender o que o motivava a criar.
A morte de Wilson em 11 de junho de 2025, aos 82 anos, trouxe um vazio para o mundo da música. Sua contribuição, porém, permanece viva, e as oito músicas que ele destacou são uma forma de manter sua memória acesa.
