Corinthians lidera ranking com dívida de R$ 2 bilhões entre clubes brasileirosPor Thiago Lemos
8 min de leitura
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O futebol brasileiro enfrenta uma crise financeira sem precedentes, com os 20 principais clubes acumulando dívidas que superaram R$ 12 bilhões em 2024, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. O Corinthians, um dos gigantes do esporte, lidera o ranking dos mais endividados, com um débito próximo de R$ 2 bilhões, segundo levantamento da Sports Value. A situação, agravada por investimentos elevados e má gestão, reflete um cenário preocupante para o clube do Parque São Jorge, que viu sua receita de R$ 1,14 bilhão em 2024 ser insuficiente para cobrir os gastos. Atlético-MG, Cruzeiro, Vasco e São Paulo completam o topo da lista, enquanto clubes como Athletico-PR e Cuiabá se destacam por não apresentarem dívidas. O problema, que atinge até mesmo clubes com altas receitas, evidencia a necessidade de mudanças estruturais na gestão financeira do futebol nacional.
A escalada das dívidas ocorre em um momento de recorde de faturamento, o que torna o cenário ainda mais paradoxal. Apesar do aumento de receitas com patrocínios, direitos de transmissão e bilheteria, os clubes brasileiros enfrentam dificuldades para equilibrar as contas. O Corinthians, por exemplo, destinou R$ 107 milhões para investimentos no futebol em 2024, mas acumulou R$ 192 milhões em contas a pagar e reconheceu R$ 191 milhões em dívidas anteriores.
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Essa crise não é exclusividade do Timão. Outros grandes clubes, como Atlético-MG e Cruzeiro, também enfrentam desafios financeiros significativos, com débitos de R$ 1,4 bilhão e R$ 981,1 milhões, respectivamente. A seguir, um panorama dos principais fatores que contribuem para o endividamento:
- Investimentos elevados: Gastos com contratações e salários superam as receitas em muitos clubes.
- Má gestão financeira: Falta de planejamento a longo prazo agrava os passivos.
- Obrigações com estádios: Financiamentos de arenas, como a Neo Química Arena, pesam nas contas.
- Juros altos: Dívidas de curto prazo geram custos adicionais significativos.
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— Corinthians (@Corinthians) June 29, 2025
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Raízes do endividamento no Corinthians
O Corinthians enfrenta um dos momentos mais delicados de sua história financeira. O clube, que já foi referência em arrecadação, viu sua dívida crescer exponencialmente nos últimos anos, impulsionada pela construção da Neo Química Arena. O estádio, inaugurado em 2014, gerou custos que ainda não foram totalmente quitados, com financiamentos e juros que consomem grande parte do orçamento. Em 2024, o clube pagou mais de R$ 300 milhões apenas em juros, um valor que compromete sua capacidade de investir em reforços ou infraestrutura.
Além disso, a gestão de Augusto Melo, iniciada em 2024, enfrentou críticas por decisões que elevaram o endividamento. A atual administração é responsável por cerca de R$ 400 milhões do aumento da dívida, enquanto outros R$ 300 milhões decorrem de juros de gestões anteriores. Processos trabalhistas e atrasos no pagamento de salários e direitos de imagem também contribuem para o quadro, com ex-jogadores e funcionários recorrendo à Justiça para cobrar valores pendentes.
Atlético-MG e a Arena MRV
O Atlético-MG, segundo colocado no ranking, conseguiu reduzir sua dívida em 35% em 2023, mas ainda deve R$ 1,4 bilhão. Grande parte desse montante está atrelada à construção da Arena MRV, inaugurada em 2023. O estádio, que custou cerca de R$ 1 bilhão, é visto como um ativo estratégico para o futuro do clube, mas os custos operacionais e os financiamentos ainda pressionam as finanças. Cerca de R$ 507 milhões são devidos a bancos, enquanto R$ 410 milhões referem-se à obra do estádio.
Apesar dos desafios, o Galo tem se beneficiado de receitas robustas, especialmente com a venda de jogadores e patrocínios. Em 2023, o clube arrecadou R$ 500 milhões, o que ameniza a relação entre dívida e receita. No entanto, a dependência de empréstimos bancários e os juros elevados continuam sendo obstáculos para a sustentabilidade financeira.
Cruzeiro e a transição para SAF
Com uma dívida de R$ 981,1 milhões, o Cruzeiro enfrenta os reflexos de anos de má gestão e um período na Série B. A transição para o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), com a entrada de novos investidores, ainda não resolveu completamente os problemas financeiros herdados da era associativa. Bancos e ex-jogadores são alguns dos principais credores, com montantes significativos ainda a serem pagos.
A Raposa, no entanto, tem mostrado sinais de recuperação. Em 2023, o clube viveu uma de suas melhores temporadas desde o retorno à Série A, o que impulsionou as receitas. Ainda assim, os custos operacionais e os investimentos em contratações, como a tentativa de contratar Gabigol com salário de R$ 2,5 milhões mensais, indicam que o clube continua apostando alto, mesmo com um passivo considerável.
Vasco e São Paulo: desafios de gigantes
O Vasco da Gama, com R$ 928,5 milhões em dívidas, enfrenta um cenário agravado por sua transformação em SAF. Apesar do aumento de 14% no endividamento entre 2022 e 2023, o clube carioca tem buscado equilibrar as contas com a entrada de novos recursos. A dívida, no entanto, reflete anos de dificuldades financeiras, incluindo processos trabalhistas e pendências com fornecedores.
Já o São Paulo, com R$ 852,9 milhões em dívidas, vive um momento de reestruturação financeira. O clube, que conquistou a Copa do Brasil em 2023, gerou receitas de R$ 681 milhões no mesmo ano, mas fechou com um déficit de R$ 62 milhões. A gestão de Julio Casares tem apostado na base, com jogadores como Lucas Moura e Rodrigo Nestor, para reduzir custos com contratações. Mesmo assim, o aumento de 14% na dívida entre 2022 e 2023 mostra que o equilíbrio financeiro ainda está distante.
Clubes com dívidas controladas
Nem todos os clubes brasileiros enfrentam crises financeiras. Athletico-PR e Cuiabá se destacam por não apresentarem dívidas em seus balanços de 2023. O Furacão, por exemplo, quitou os débitos relacionados à construção da Ligga Arena e registrou o maior superávit de sua história. O Cuiabá, que adotou o modelo SAF, também se mantém financeiramente estável. Outros clubes, como Flamengo e Fortaleza, aparecem com dívidas relativamente baixas, de R$ 353 milhões e R$ 115,3 milhões, respectivamente.
Os fatores que contribuem para o sucesso financeiro desses clubes incluem:
- Gestão eficiente: Planejamento a longo prazo e controle de gastos.
- Receitas diversificadas: Exploração de patrocínios, bilheteria e venda de jogadores.
- Investimentos estratégicos: Prioridade a projetos com retorno financeiro, como arenas modernas.
- Modelo SAF: Adoção de estruturas empresariais que atraem investidores.
Gastos elevados e fair play financeiro
A falta de adesão de clubes como Corinthians e Atlético-MG a debates sobre fair play financeiro, promovidos pela CBF, levanta preocupações. Ambos estão entre os cinco clubes da Série A que não participaram de grupos de trabalho para discutir regras que promovam a sustentabilidade financeira. A ausência reflete, em parte, a dificuldade de cumprir normas mais rígidas em meio a dívidas bilionárias.
Os gastos elevados com contratações e salários são uma constante entre os clubes mais endividados. O Botafogo, por exemplo, investiu R$ 325 milhões em reforços em 2024, enquanto o Cruzeiro desembolsou R$ 180 milhões apenas na janela de meio de ano. Essas apostas, embora possam trazer resultados em campo, aumentam a pressão sobre as finanças.
Caminhos para a recuperação financeira
A adoção do modelo SAF tem sido uma alternativa para clubes como Vasco, Cruzeiro e Botafogo, que buscam atrair investidores e reestruturar suas finanças. A entrada de capital externo, no entanto, exige transparência e planejamento para evitar que os recursos sejam mal utilizados. Além disso, a venda de jogadores tem se mostrado uma fonte crucial de receita, com o Corinthians arrecadando R$ 251 milhões em transferências em 2023.
Outro ponto é a renegociação de dívidas. O Corinthians, por exemplo, apresentou um plano para quitar R$ 367 milhões ao longo de dez anos, focando em débitos trabalhistas e fiscais. A redução de custos operacionais, como salários elevados, também é essencial para que os clubes recuperem a saúde financeira.
Pressão por resultados e sustentabilidade
A pressão por resultados imediatos muitas vezes leva os clubes a tomarem decisões financeiras arriscadas. Contratações de alto custo, como as feitas por Corinthians e Atlético-MG, visam manter a competitividade, mas comprometem o orçamento. A sustentabilidade, portanto, depende de um equilíbrio entre investimentos no elenco e responsabilidade fiscal.
Clubes como Palmeiras, que reduziram a relação entre dívida e receita, mostram que é possível conciliar sucesso esportivo e financeiro. O Verdão, com uma dívida de R$ 825,3 milhões, mantém um faturamento elevado e uma gestão que prioriza a estabilidade. O desafio para os demais é seguir esse exemplo, adotando práticas que garantam a sobrevivência a longo prazo.















