Forrozeiras denunciam vazamento de fotos íntimas em grupos do Telegram

Dança forró
Foto: Dança forró - Foto: Caio Pederneiras / Shutterstock.com

Em julho de 2025, pelo menos 12 mulheres que frequentam casas de forró no Brasil e na Europa denunciaram à Polícia Federal (PF), com apoio da Bancada Feminista do PSOL, homens acusados de vazar e vender fotos e vídeos íntimos em grupos do Telegram, como “Cremosinhas da Putaria” e “Vazadinhas Inéditas”. As vítimas, conhecidas como forrozeiras, relataram que as imagens foram captadas sem consentimento após encontros fora dos eventos de dança, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Turim, na Itália. O Ministério Público Federal (MPF) encaminhou as denúncias para investigação, que inclui crimes como pornografia de vingança, assédio sexual e agressões. A ação expõe uma rede de violência digital contra mulheres no meio do forró.

A denúncia ganhou força após postagens nas redes sociais alertarem sobre os grupos, que operam há anos e reúnem homens ligados ao universo do forró, incluindo frequentadores, músicos e professores. As vítimas, muitas abaladas emocionalmente, relatam crise de ansiedade e medo de frequentar eventos. A investigação da PF busca identificar os responsáveis e desmantelar os grupos.

As mulheres, amparadas por coletivos feministas, decidiram formalizar as denúncias após descobrirem que suas imagens circulavam em plataformas digitais. A Bancada Feminista, com atuação na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), organizou as queixas e acionou o MPF, que identificou indícios de uma possível organização criminosa.

  • Principais pontos das denúncias:
    • Fotos e vídeos íntimos vazados sem permissão.
    • Assédio sexual e agressões relatados em casas de forró.
    • Grupos do Telegram com mais de 150 participantes.
    • Casos registrados no Brasil e na Europa.

Origem das denúncias

As denúncias começaram a surgir no início de 2025, quando uma forrozeira recebeu um alerta de um homem que viu sua foto de perfil do Instagram na capa do grupo “Cremosinhas da Putaria”. Ele enviou um print mostrando a imagem, acompanhada de conteúdo explícito de outras mulheres. A vítima relatou ao g1 que sua vida “virou um inferno”, com crises de pânico e ansiedade após a descoberta. Outras mulheres compartilharam experiências semelhantes, apontando que os abusos ocorreram após relacionamentos com homens conhecidos em casas de forró, como Remelexo, Canto da Ema e Giramundo.

A Bancada Feminista do PSOL, liderada por figuras como a deputada Paula Nunes, começou a coletar relatos pelas redes sociais. As vítimas descreveram um padrão: homens se aproximavam em eventos de forró, ganhavam confiança e, posteriormente, registravam imagens íntimas sem consentimento em ambientes privados. Essas imagens eram então compartilhadas ou vendidas em grupos do Telegram, que cobravam taxas de até R$ 50 mensais para acesso.

O grupo “Cremosinhas da Putaria”, ativo há quase uma década, exigia que novos membros enviassem conteúdo explícito de mulheres, além de informações pessoais, como endereço e vulnerabilidades. As regras do grupo, descritas como misóginas por ativistas, tratavam as mulheres como “presas” e incentivavam a exploração de fragilidades.

  • Detalhes dos grupos no Telegram:
    • Exigência de pagamento para acesso.
    • Compartilhamento de dados pessoais das vítimas.
    • Regras que incentivam violência e objetificação.
    • Participação de músicos, professores e frequentadores de forró.
Frente Fulô iniciou campanha contra assédio e misoginia no festival nacional em Itaúnas
Frente Fulô iniciou campanha contra assédio e misoginia no festival nacional em Itaúnas – Foto: Divulgação

Ação da Polícia Federal e MPF

O Ministério Público Federal em São Paulo recebeu as denúncias em meados de 2025 e, após análise inicial, solicitou à Polícia Federal a abertura de um inquérito. A investigação abrange crimes como pornografia de vingança, lesão corporal, ameaça e assédio sexual. A PF, que preferiu não comentar o caso, já identificou alguns suspeitos com base nos relatos das vítimas, mas outros permanecem anônimos.

A complexidade do caso reside na possível conexão internacional, já que grupos como “Vazadinhas Inéditas” operam na Europa, envolvendo vítimas em países como Itália e Alemanha. Uma brasileira residente em Turim relatou ter visto imagens que poderiam ser suas em uma confraternização, o que a levou a suspeitar de dois homens, um italiano e um inglês, conhecidos em festivais de forró. A investigação da PF pode se estender a autoridades europeias para apurar a rede.

A SaferNet, organização de combate a crimes digitais, apontou em relatório de 2024 que mais de 1,25 milhão de usuários do Telegram no Brasil participam de grupos que compartilham conteúdo ilícito, incluindo imagens íntimas sem consentimento. Esse dado reforça a gravidade do problema e a necessidade de ações coordenadas para coibir a prática.

Reação das casas de forró

As casas de forró citadas nas denúncias, como Remelexo, Canto da Ema, Baile dos Ratos, To The Sea e Giramundo, foram procuradas para esclarecimentos. Algumas, como o Canto da Ema, emitiram comunicados repudiando qualquer forma de desrespeito ou violência. A casa destacou seu compromisso com um ambiente seguro e prometeu impedir a entrada de pessoas envolvidas em atitudes comprovadamente ilícitas.

A Giramundo, em São Bernardo do Campo, reforçou que nunca registrou denúncias de assédio em seu espaço e se colocou à disposição para combater a misoginia. O Baile dos Ratos, projeto cultural em São Paulo, também condenou os abusos e afirmou estar comprometido com a segurança dos frequentadores. Outras casas, como Jai Club e Miliduki, não responderam aos contatos.

  • Posicionamento das casas:
    • Canto da Ema: Repúdio a ações discriminatórias e promessa de medidas legais.
    • Giramundo: Compromisso com ambiente de respeito e apoio às denúncias.
    • Baile dos Ratos: Reafirmação de um espaço seguro e acolhedor.
    • To The Sea: Nota nas redes sociais contra atitudes violentas.

Frente Fulô e conscientização

A Bancada Feminista criou a Frente Fulô, um movimento para combater a misoginia no forró. A iniciativa, batizada em referência a uma flor de crochê, distribui o símbolo em casas de shows e festivais para conscientizar sobre a violência contra mulheres. A campanha começou no Festival Nacional de Forró em Itaúnas, Espírito Santo, em julho de 2025, e busca encorajar vítimas a denunciarem abusos.

Debora Machado, assessora cultural da bancada, destacou que o objetivo não é criminalizar o forró, mas promover um ambiente seguro. A Frente Fulô incentiva a participação de homens na campanha, reforçando que a luta é pela igualdade e pelo respeito. As forrozeiras são orientadas a acessar a página da Frente na internet para relatar casos de assédio ou violência.

A advogada Gabriela Nery Rossi Leão, que colabora com a bancada, acredita que as denúncias revelam apenas a “ponta do iceberg” de uma rede que pode ser internacional. O movimento busca pressionar por investigações mais amplas e punições efetivas aos responsáveis.

  • Ações da Frente Fulô:
    • Distribuição de flores de crochê como símbolo de resistência.
    • Campanha de conscientização em festivais e casas de forró.
    • Incentivo a denúncias anônimas via plataformas digitais.
    • Parceria com o MPF para apuração dos casos.

Impacto nas vítimas

As mulheres afetadas relatam traumas profundos, como crises de ansiedade, medo de frequentar eventos de forró e até adoecimento físico. Uma vítima de São Paulo contou que abandonou a dança após descobrir que um ex-namorado divulgou suas fotos íntimas em redes sociais e no grupo “Cremosinhas da Putaria”. Outra, na Itália, descreveu o choque ao suspeitar que suas imagens circulavam em um grupo do Telegram, o que a levou a evitar confraternizações.

Os relatos apontam um padrão de violência que vai além do vazamento de imagens, incluindo perseguição, ameaças e agressões físicas. Algumas vítimas conseguiram medidas protetivas contra os agressores, mas o impacto psicológico persiste. A exposição em grupos como “Cremosinhas da Putaria” e “Vazadinhas Inéditas” agravou a sensação de vulnerabilidade, especialmente pelo caráter organizado dos abusos.

A SaferNet orienta que vítimas de crimes digitais coletem provas, como prints de conversas ou imagens, e denunciem anonimamente por meio de sua Central Nacional de Denúncias. A organização reforça que o anonimato é garantido, o que pode facilitar a formalização de queixas em casos sensíveis como esses.

  • Orientações para vítimas:
    • Coletar prints e evidências digitais.
    • Denunciar anonimamente via SaferNet ou autoridades.
    • Buscar apoio psicológico para lidar com o trauma.
    • Procurar coletivos feministas para suporte jurídico.

Medidas contra crimes digitais

A investigação da Polícia Federal enfrenta desafios devido à natureza sigilosa dos grupos no Telegram, que dificultam o rastreamento de participantes. No entanto, a colaboração com autoridades internacionais pode ser crucial, especialmente nos casos europeus. O relatório da SaferNet de 2024 destaca que o Telegram é uma plataforma amplamente usada para crimes digitais, o que exige maior fiscalização e cooperação entre países.

A Frente Fulô e a Bancada Feminista planejam expandir a campanha de conscientização, incluindo palestras e oficinas em casas de forró. O objetivo é educar frequentadores sobre o respeito e a importância de combater a misoginia. As vítimas, por sua vez, buscam justiça e a garantia de que os espaços de forró sejam seguros para todas.

A ausência de resposta do Telegram às denúncias levanta questões sobre a responsabilidade das plataformas digitais. Especialistas apontam que empresas de tecnologia precisam adotar medidas mais rigorosas para coibir o compartilhamento de conteúdo ilícito. Enquanto a investigação avança, as forrozeiras seguem lutando por respeito e segurança em um ambiente que deveria ser de celebração cultural.

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