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Combustível adulterado com metanol ameaça motores e frentistas no Brasil

Methanol
Foto: Methanol - Foto: Natt Boonyatecha/ Istockphoto.com

Uma megaoperação deflagrada em 28 de agosto de 2025 revelou um esquema bilionário de adulteração de combustíveis em mais de 2.500 postos, principalmente em São Paulo, envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC). A fraude, que utiliza metanol em proporções de até 90%, coloca em risco a saúde de motoristas e frentistas e causa danos severos aos motores de veículos. A ação, chamada Operação Carbono Oculto, mobilizou Receita Federal, Ministério Público, Polícia Federal e Agência Nacional do Petróleo (ANP), expondo a importação irregular do solvente e sua distribuição clandestina. A prática, que visa lucros maiores devido ao baixo custo do metanol, compromete a segurança pública e o meio ambiente, além de corroer peças automotivas e elevar o consumo de combustível.

A investigação identificou que o metanol, um solvente industrial altamente tóxico, era desviado de importações legais destinadas à indústria química e farmacêutica. Postos de combustíveis, muitas vezes sem bandeira, misturavam o produto à gasolina e ao etanol, enganando consumidores que pagavam por combustível de qualidade inferior. O caso gerou alerta entre motoristas e autoridades, que agora buscam formas de intensificar a fiscalização e proteger a população.

  • Principais riscos do metanol adulterado
    • Danos ao motor: Corrosão de peças como bicos injetores e bombas de combustível.
    • Riscos à saúde: Exposição pode causar náuseas, cegueira e até morte.
    • Impacto ambiental: Vazamentos contaminam solo e água, afetando a biodiversidade.

Como o metanol chega aos postos

O metanol, importado principalmente dos Estados Unidos, entra no Brasil por portos como o de Paranaguá, no Paraná, com autorização da ANP para uso industrial, como na produção de biodiesel, resinas e desinfetantes. No entanto, parte desse volume é desviada para distribuidoras inescrupulosas, que o utilizam para aumentar o volume de gasolina e etanol vendidos. A prática é lucrativa porque o metanol custa cerca da metade do preço do etanol, conforme apontou Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal. Em 2023, a ANP apreendeu 863 mil litros de metanol em seis estados, indicando a escala do problema.

As investigações da Operação Carbono Oculto revelaram que o esquema envolve desde importadoras até postos de combustíveis, muitas vezes operados por laranjas. O transporte do metanol é feito sem as devidas condições de segurança, aumentando os riscos de acidentes. A ANP monitora o produto por meio do Painel Dinâmico de Monitoramento de Metanol, mas a fiscalização enfrenta desafios devido à falta de recursos, como cortes de verba relatados no final de 2024.

  • Etapas do esquema de adulteração
    • Importação irregular por empresas autorizadas.
    • Desvio para distribuidoras clandestinas.
    • Mistura com gasolina e etanol em proporções de até 90%.
    • Venda em postos, muitas vezes sem bandeira.

Danos aos veículos e sinais de alerta

O metanol é altamente corrosivo para motores de carros de passeio, que não são projetados para suportar suas propriedades químicas. Diferentemente do etanol, produzido a partir da cana-de-açúcar, o metanol ataca componentes como bicos injetores, bombas de alta pressão e válvulas, podendo causar falhas graves com apenas um tanque. Segundo o mecânico Bruno Bandeira, a substância forma uma goma que trava válvulas e danifica peças internas, muitas vezes impedindo o carro de ligar.

Motoristas podem perceber sinais de combustível adulterado, como aumento no consumo, perda de potência ou luz de injeção acesa no painel. Denis Marum, engenheiro mecânico, destaca que o pedal do acelerador pode ficar “borrachudo”, exigindo maior esforço para manter a velocidade. Carros modernos, com injeção eletrônica, tentam compensar a mistura inadequada, mas isso reduz a eficiência e eleva o consumo em até 30%.

  • Sinais de combustível adulterado
    • Consumo elevado: Tanque dura menos no mesmo trajeto.
    • Perda de potência: Dificuldade em acelerar.
    • Luz de injeção: Alerta no painel após abastecimento.
    • Ruídos anormais: Falhas no motor ou funcionamento irregular.

Riscos à saúde e segurança

Além dos danos mecânicos, o metanol representa um perigo significativo à saúde. Frentistas, expostos diariamente ao produto, enfrentam riscos de intoxicação por inalação ou contato com a pele, com sintomas como náuseas, tonturas e, em casos extremos, cegueira. O Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas formalizou denúncias ao Ministério Público, exigindo maior proteção aos trabalhadores.

Para consumidores, o risco é maior em casos de ingestão acidental, que pode levar a danos neurológicos, hepáticos e até à morte. A chama invisível do metanol, característica que o torna perigoso em incêndios, foi um dos motivos para sua proibição em competições automotivas, como a Fórmula Indy nos anos 1990. Acidentes com o produto podem passar despercebidos, dificultando o combate ao fogo.

  • Perigos à saúde e segurança
    • Intoxicação: Náuseas, tonturas e risco de cegueira.
    • Chama invisível: Incêndios difíceis de detectar e apagar.
    • Risco ambiental: Contaminação de solo e água por vazamentos.
Combustível, posto de gasolina
Combustível, posto de gasolina – Foto: Pollyana Ventura/ Istockphoto.com

Como se proteger da fraude

A ANP orienta consumidores a desconfiar de preços muito abaixo do mercado, um indício comum de combustíveis adulterados. José Luiz de Souza, especialista da agência, recomenda o teste de proveta, que mede a proporção de etanol na gasolina. O teste, obrigatório nos postos, mistura 50 ml de gasolina com água e sal, verificando se a separação ocorre na marca de 65 ml, indicando até 30% de etanol, conforme a legislação. No entanto, o metanol é mais difícil de detectar, exigindo reagentes químicos específicos.

Escolher postos registrados e exigir nota fiscal são medidas eficazes. A ANP disponibiliza em seu site uma lista de postos credenciados e incentiva denúncias de irregularidades. Outra dica é evitar promoções exageradas, como gasolina aditivada pelo preço da comum, que muitas vezes escondem fraudes.

  • Dicas para evitar combustíveis adulterados
    • Prefira postos com bandeira e registro na ANP.
    • Exija nota fiscal para rastrear o abastecimento.
    • Desconfie de preços muito baixos ou promoções.
    • Solicite o teste de proveta no posto.

Ação das autoridades e próximos passos

A Operação Carbono Oculto, que envolveu 1.400 agentes em oito estados, resultou no bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em bens, incluindo imóveis e carros de luxo. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional busca recuperar os R$ 7,6 bilhões sonegados em impostos. A ANP planeja intensificar a fiscalização, mas especialistas cobram maior integração entre órgãos e penas mais duras para os fraudadores, que muitas vezes reabrem negócios com laranjas.

A participação de organizações criminosas como o PCC no esquema eleva a gravidade do problema, que afeta não apenas os consumidores, mas também a economia e o meio ambiente. A expectativa é que a operação sirva como alerta para reforçar a regulação e o controle do mercado de combustíveis.

  • Medidas em andamento
    • Fiscalização reforçada em portos e distribuidoras.
    • Bloqueio de bens para recuperação de impostos sonegados.
    • Campanhas de conscientização para motoristas.
    • Atualização de ferramentas de monitoramento da ANP.