O Supremo Tribunal Federal (STF) deu início nesta terça-feira, 2 de setembro de 2025, ao julgamento que pode resultar na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e sete aliados, acusados de integrar uma trama golpista para reverter o resultado das eleições de 2022. A Primeira Turma, composta por cinco ministros, analisa denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR) que apontam a participação do grupo em crimes graves, como organização criminosa armada e tentativa de golpe de Estado. O processo, que ocorre em Brasília, terá oito sessões ao longo de setembro, com expectativa de decisões que podem impor penas superiores a 30 anos de prisão. A denúncia destaca o plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa ações violentas contra autoridades, além da elaboração de uma minuta para decretar estado de sítio. O julgamento, conduzido sob forte atenção pública, marca um momento crucial na investigação de atos que ameaçaram a democracia brasileira.
O caso ganhou destaque após investigações da Polícia Federal revelarem detalhes de uma suposta conspiração orquestrada por membros do alto escalão do governo Bolsonaro. A PGR acusa o grupo de planejar ações para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2022. Entre os réus estão figuras de peso, como o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira e o ex-comandante da Marinha Almir Garnier. A delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, foi peça-chave para embasar as acusações.
- Principais pontos da denúncia:
- Elaboração do plano “Punhal Verde e Amarelo” com intento de sequestro ou assassinato de autoridades.
- Produção da minuta do golpe para anular as eleições de 2022.
- Envolvimento nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
- Monitoramento de autoridades, como o ministro Alexandre de Moraes.
A sessão inicial foi marcada pela leitura do relatório do ministro Alexandre de Moraes, que detalhou as etapas do processo, desde as investigações até as alegações finais. O procurador-geral Paulo Gonet abriu a acusação, enquanto as defesas dos réus apresentaram suas sustentações orais, buscando desqualificar as provas ou pedir nulidades.
Detalhes do plano “Punhal Verde e Amarelo”
O plano “Punhal Verde e Amarelo” é um dos elementos centrais da denúncia da PGR. Elaborado em novembro de 2022, após a derrota de Bolsonaro nas eleições, o documento detalhava ações extremas, como o assassinato do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Segundo a Polícia Federal, o plano foi impresso no Palácio do Planalto pelo general Mario Fernandes, então secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência. Fernandes, em depoimento ao STF, admitiu a autoria do documento, mas alegou que se tratava apenas de um “pensamento digitalizado”, sem intenção de execução.
As investigações apontam que o plano previa o uso de armamentos letais, incluindo fuzis, pistolas e explosivos. O grupo, composto por militares das Forças Especiais, os chamados “kids pretos”, teria discutido a operação na casa do ex-ministro Walter Braga Netto. A PGR destaca que o plano foi abortado devido à falta de apoio de comandantes militares de alto escalão, como o general Freire Gomes, que se opôs à conspiração.
- Elementos do plano:
- Uso de químicos para causar colapso orgânico em Lula.
- Emprego de explosivos contra Moraes em eventos públicos.
- Monitoramento detalhado da rotina de autoridades-alvo.
- Planejamento para 15 de dezembro de 2022, adiado pela falta de suporte militar.
O depoimento de Mauro Cid revelou que Braga Netto teria repassado recursos para financiar a operação, entregues em uma sacola de vinho ao major Rafael de Oliveira. Apesar das negativas de alguns réus, como Augusto Heleno, que afirmou desconhecer o plano, as evidências coletadas reforçam a gravidade das acusações.
Envolvimento dos réus no núcleo crucial
O julgamento foca no chamado “núcleo crucial” da trama golpista, composto por Jair Bolsonaro e sete aliados próximos. Cada réu desempenhou papéis específicos, segundo a denúncia da PGR. Bolsonaro é apontado como o líder da conspiração, com conhecimento e participação ativa na elaboração da minuta do golpe. O documento, apresentado por Filipe Martins, ex-assessor presidencial, propunha medidas para anular as eleições e prender autoridades, incluindo Moraes e o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.
Outros réus, como Alexandre Ramagem, enfrentam acusações relacionadas ao uso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para monitorar adversários políticos. Ramagem, atualmente deputado federal, teve parte das acusações suspensas devido à imunidade parlamentar, mas ainda responde por crimes como organização criminosa. Almir Garnier e Paulo Sérgio Nogueira, ex-comandantes militares, são acusados de apoiar discussões sobre a ruptura institucional.
- Papéis dos principais réus:
- Jair Bolsonaro: Liderança e aprovação da minuta golpista.
- Mauro Cid: Delator, forneceu detalhes sobre o financiamento e monitoramento.
- Walter Braga Netto: Coordenou reuniões e repasse de recursos.
- Alexandre Ramagem: Uso da Abin para vigilância de autoridades.
As defesas dos réus têm argumentado que as provas, como a delação de Cid, são frágeis ou obtidas de forma irregular. Alguns advogados pedem a nulidade do processo, alegando cerceamento de defesa ou falta de competência do STF para julgar o caso.
Impacto dos atos de 8 de janeiro
Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, também estão no centro do julgamento. A PGR acusa o grupo de incentivar e coordenar ações que culminaram na invasão, vista como uma tentativa de desestabilizar o governo recém-empossado de Lula. A denúncia aponta que os réus insuflaram apoiadores por meio de narrativas de fraude eleitoral, amplificadas em acampamentos bolsonaristas.
A deterioração de patrimônio tombado, como os edifícios do STF e do Congresso, é um dos crimes imputados. As investigações indicam que a organização criminosa planejou usar a convulsão social gerada pelos atos para justificar uma intervenção militar. A ausência de apoio de setores das Forças Armadas, no entanto, frustrou a consumação do golpe.
- Danos causados em 8 de janeiro:
- Depredação de obras de arte e móveis históricos.
- Ataques a servidores públicos e forças de segurança.
- Tentativa de ocupação permanente das sedes do poder.
- Prejuízo estimado em milhões de reais ao patrimônio público.
A PGR sustenta que os réus agiram de forma coordenada, utilizando redes sociais e aplicativos como o Signal para organizar as ações. O grupo “Copa 2022”, criado no aplicativo, foi usado para monitorar autoridades e planejar o golpe.
Dinâmica do julgamento na Primeira Turma
A Primeira Turma do STF, composta por Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Luiz Fux, conduz o julgamento em um formato diferenciado. Desde a mudança regimental de 2023, ações penais como esta são julgadas pelas turmas, e não pelo plenário, para agilizar os processos. A sessão inicial foi marcada pela leitura do relatório de Moraes, que resumiu as investigações, incluindo a delação de Cid e as provas coletadas pela Polícia Federal.
O procurador-geral Paulo Gonet teve até duas horas para sustentar a acusação, detalhando os crimes imputados. As defesas, com uma hora cada, buscaram desqualificar as evidências, com destaque para a tentativa de anular a delação de Cid. A votação sobre o mérito, que definirá a condenação ou absolvição, deve ocorrer nas próximas sessões, com Moraes sendo o primeiro a votar.
- Estrutura do julgamento:
- Leitura do relatório por Alexandre de Moraes.
- Sustentações orais da PGR e das defesas.
- Análise de questões preliminares, como pedidos de nulidade.
- Votação sobre o mérito, com decisão por maioria.
A expectativa é que o julgamento se estenda até 12 de setembro, com sessões reservadas para garantir a análise detalhada do caso. A decisão da Primeira Turma pode marcar um precedente histórico na responsabilização de figuras públicas por atos contra a democracia.
Repercussão pública e política
O julgamento tem gerado intensa repercussão no cenário político brasileiro. Apoiadores de Bolsonaro têm usado redes sociais para questionar a legitimidade do processo, enquanto críticos do ex-presidente veem a ação como um passo essencial para fortalecer a democracia. A PGR destacou o risco de novos atos golpistas, o que levou à manutenção da prisão preventiva de alguns réus, como Walter Braga Netto.
Organizações civis e movimentos sociais acompanham o caso, exigindo transparência e rigor na aplicação da lei. A cobertura da imprensa, com mais de 500 jornalistas credenciados, reflete a relevância do julgamento para o país. A sociedade brasileira, ainda marcada pelos eventos de 8 de janeiro, aguarda o desfecho do processo como um marco na luta contra tentativas de subversão democrática.
- Reações ao julgamento:
- Apoiadores de Bolsonaro alegam perseguição política.
- Movimentos pró-democracia defendem punição rigorosa.
- Imprensa internacional destaca o caso como teste para o STF.
- Sociedade civil cobra celeridade e imparcialidade.
O desfecho do julgamento pode influenciar o cenário político às vésperas das eleições de 2026, com implicações para a polarização no país.

