Sem ilusões: Dia dos Namorados nasceu para encher os cofres do comércio

Homem abraçando namorada, caixa de presente, conceito de Dia dos Namorados

Homem abraçando namorada, caixa de presente, conceito de Dia dos Namorados - My Ocean Production/shutterstock.com

Celebrado em 12 de junho no Brasil, o Dia dos Namorados é amplamente percebido como uma data romântica para casais. Contudo, a verdadeira gênese desta comemoração no país reside em uma astuta manobra de marketing, criada com o objetivo primordial de revitalizar as vendas do comércio em um mês tradicionalmente desafiador. A iniciativa transformou-se em um dos picos mais significativos para o setor varejista.

Essa concepção surgiu em meados da década de 1940, na cidade de São Paulo, por meio de uma ação da Agência Standard. A empresa havia sido contratada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) justamente para impulsionar a movimentação do mercado. O resultado foi um êxito quase imediato, e a data rapidamente se estabeleceu na cultura brasileira, consolidando-se como uma ocasião para o intercâmbio de presentes entre apaixonados.

A intenção por trás da criação comercial do Dia dos Namorados no Brasil

O publicitário João Dória, pai do ex-governador de São Paulo João Doria Jr., é amplamente reconhecido como o cérebro por trás da campanha que instituiu o Dia dos Namorados no Brasil. Sua genialidade consistiu em adaptar uma tradição já existente em outros países ao cenário econômico nacional, concebendo uma festividade que mesclasse o afeto romântico com o incentivo ao consumo.

A estratégia desenvolvida por Dória transcendeu a mera sugestão de compra de presentes. Ela buscou vincular a celebração a valores intrínsecos como o amor e a união, encorajando os parceiros a fortalecerem seus laços. A escolha específica de 12 de junho, véspera do Dia de Santo Antônio tradicionalmente conhecido como o “santo casamenteiro”, também foi um fator crucial para a rápida aceitação e popularização da data, integrando o apelo comercial a aspectos culturais e religiosos.

Em 1948, a Agência Standard lançou um slogan impactante: “Não é só com beijos que se prova o amor!”. Essa frase funcionou como um chamado direto para que os consumidores adquirissem presentes. A Confederação Nacional do Comércio endossou a empreitada, que se revelou extraordinariamente eficiente em reverter a lentidão do comércio em junho, um mês que historicamente registrava poucas datas comemorativas.

Inicialmente, a campanha concentrou-se na capital paulista, mas o impacto positivo foi tão expressivo que rapidamente se alastrou por todo o território nacional. O sucesso dessa estratégia comercial foi amplamente estudado e serviu de modelo, transformando o Dia dos Namorados em um notório caso de marketing que ilustrou o poder da publicidade na criação e solidificação de novas tradições de consumo.

Dia de São Valentim, Dia dos Namorados – fast-stock/ Shutterstock.com

Diferenças entre a celebração brasileira e o Valentine’s Day global

Em âmbito internacional, a data dedicada aos amantes é o Valentine’s Day, comemorado em 14 de fevereiro, e suas raízes históricas estão ligadas a lendas cristãs e romanas em torno de São Valentim. A distinção mais marcante reside não apenas na data, mas no contexto de sua origem: enquanto a versão brasileira foi impulsionada por uma necessidade comercial de aquecer as vendas de junho, o Valentine’s Day evoluiu de tradições milenares, frequentemente associadas ao amor romântico e à fertilidade, sem um ponto de partida publicitário explícito.

O Dia de São Valentim, por exemplo, é atribuído a um sacerdote que teria desafiado as ordens do imperador Cláudio II, que havia proibido casamentos para otimizar o recrutamento militar. São Valentim, segundo a lenda, realizava uniões secretamente, tornando-se um mártir do amor. Essa narrativa histórica contrasta drasticamente com a criação intencionalmente comercial da celebração brasileira, que estrategicamente evitou o congestionamento comercial de maio (Mês das Mães) e garantiu um impulso de vendas para junho.

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