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Mix Vale

Em meio às ruas ainda marcadas pelas marcas da devastação, uma organização criminosa internacional transformou o desespero de famílias do Jardim Pantanal, na zona leste de São Paulo, em uma engrenagem de um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro que movimentou centenas de milhões de reais. O que aconteceu envolveu a coleta ilegal de dados pessoais de mais de três mil vítimas em todo o país, iniciada logo após as enchentes de fevereiro de 2022, que deixaram o bairro submerso por dias e expuseram a fragilidade de uma população já empobrecida. Criminosos, compostos por brasileiros e chineses, se aproximaram das casas alagadas oferecendo auxílios falsos, como cestas básicas e valores em dinheiro, em troca de documentos como RG e CPF, que foram usados para abrir contas em fintechs ligadas ao grupo.

Quando ocorreu, a operação policial desmantelou parte da rede em setembro de 2025, com prisões em São Paulo e buscas em outros estados, revelando transferências para empresas de fachada que processavam os fundos ilícitos. Onde se desenrolou o golpe principal foi no coração vulnerável do Jardim Pantanal, um bairro de várzea com histórico de inundações, mas os tentáculos se estenderam para cidades como Rosana, no interior paulista, e além-fronteiras, com sites hospedados na Turquia. Como os fraudadores operavam, empregavam robôs automatizados para escalar as fraudes, prometendo investimentos rápidos em plataformas digitais, enquanto o dinheiro sujo circulava por instituições de pagamento digitais sem fiscalização rigorosa. Por que isso prosperou reflete a confluência de desastres naturais com brechas no sistema financeiro brasileiro, onde o crescimento acelerado de fintechs, que processaram bilhões em transações em 2025, facilitou a ocultação de recursos de origem criminosa, afetando não só os moradores locais, mas uma rede nacional de prejudicados que agora enfrentam débitos indevidos e restrições creditícias. Essa rede de exploração, desmascarada por uma denúncia inicial de um investidor lesado em Rosana, expôs como a vulnerabilidade pós-desastre se torna moeda para crimes financeiros globais, com impactos que persistem em bloqueios de contas e processos judiciais para as vítimas inocentes.

Dias após as águas recuarem no Jardim Pantanal, grupos organizados bateram às portas das famílias desabrigadas, prometendo suporte imediato em um momento de absoluta necessidade. Moradores como Santielle de Souza, que viu sua casa ser destruída pelas cheias, aceitaram o que parecia uma ajuda genuína, entregando documentos pessoais por uma quantia simbólica de R$ 100 e a expectativa de itens essenciais. No entanto, o que se seguiu foram notificações inesperadas de débitos, desde multas de trânsito acumuladas até saldos negativos em contas correntes que elas nem sabiam possuir. Essa tática inicial de coleta de dados pavimentou o caminho para uma operação mais ampla, onde os CPFs roubados serviam como base para criar perfis falsos em plataformas financeiras digitais.

A extensão do golpe ganhou contornos nacionais quando investigações cruzaram relatos de fraudes em investimentos online, ligando o bairro paulista a vítimas em pelo menos dez estados. Um caso em Rosana, a mais de 700 quilômetros de distância, serviu como gatilho: um residente local aplicou R$ 33 mil em um site que prometia retornos rápidos por tarefas virtuais, apenas para ver o valor evaporar. Essa denúncia desvendou o uso de servidores estrangeiros para hospedar as plataformas, tornando o rastreamento inicial um desafio para as autoridades.

  • Os fraudadores priorizavam bairros afetados por desastres, como enchentes e deslizamentos, para recrutar involuntariamente participantes.
  • Documentos coletados incluíam não só RG e CPF, mas também comprovantes de residência, facilitando a abertura de contas em nome de terceiros.
  • As vítimas recebiam um pagamento inicial pequeno para ganhar confiança, mas o custo real surgia meses depois em forma de penalidades financeiras.
  • Plataformas falsas usavam inteligência artificial para simular interações humanas, convencendo mais de três mil pessoas a investir somas variadas.
  • O fluxo de recursos começava em depósitos locais e terminava em transferências internacionais, disfarçadas como transações comerciais legítimas.

Estratégias de coleta de dados em comunidades vulneráveis

A abordagem dos criminosos no Jardim Pantanal exemplifica uma tática recorrente em fraudes pós-desastre, onde a urgência por auxílio humanitário mascara intenções ilícitas. Equipes disfarçadas de voluntários circulavam pelas ruas lamacentas, registrando endereços e perfis de famílias que haviam perdido tudo nas inundações de 2022, evento que deixou mais de mil residências submersas e demandou resgates em massa pela Defesa Civil. Esses registros não paravam em cadastros simples; eles alimentavam uma base de dados que era vendida ou repassada para redes maiores, permitindo a criação de identidades digitais falsas em fintechs emergentes.

Uma vez obtidos, os dados pessoais eram processados em etapas meticulosas, começando pela validação em sistemas públicos acessíveis ilegalmente. Isso permitia a abertura de contas em instituições de pagamento que, por sua natureza ágil, exigiam menos verificações iniciais do que bancos tradicionais. No caso do Jardim Pantanal, dezenas de moradores relataram receber correspondências de bancos desconhecidos, com saldos positivos iniciais que logo se transformavam em armadilhas para depósitos fraudulentos. A sofisticação crescia com o emprego de algoritmos que simulavam atividades comerciais normais, como compras em e-commerces ou transferências salariais, para evitar alertas automáticos de suspeita.

Investigadores mapearam como esses perfis falsos recebiam injeções de capital de fontes obscuras, frequentemente ligadas a golpes de investimento em criptoativos ou pirâmides financeiras. Em um fluxo típico, uma conta no nome de uma vítima recebia R$ 5 mil de uma transação supostamente legítima, que era então dividida em parcelas menores e enviada para múltiplas fintechs parceiras. Essa pulverização dificultava o rastreio, com valores chegando a ultrapassar R$ 100 mil por perfil em poucos meses. Moradores do bairro, ao tentarem regularizar suas situações, deparavam-se com restrições que impediam acesso a créditos ou até benefícios sociais, ampliando o ciclo de pobreza iniciado pelas enchentes.

O impacto se estendia além do financeiro, gerando denúncias cruzadas onde vítimas eram inicialmente tratadas como culpadas. Promotores em São Paulo analisaram casos específicos, como o de uma idosa que enfrentou processo por “fraude bancária” baseada em transações que ela nunca autorizou. Após perícias, esses processos foram arquivados, reconhecendo o caráter victimário, mas o estigma permanecia, com famílias evitando bancos por medo de novas complicações. Essa camada psicológica do golpe reforça a exploração sistemática de comunidades periféricas, onde a desconfiança em instituições públicas já é alta devido a respostas lentas a desastres como as cheias recorrentes no Tietê.

Papel das fintechs no fluxo de recursos ilícitos

Instituições financeiras digitais emergiram como o elo central dessa rede criminosa, aproveitando o boom do setor que viu um aumento de 40% em transações no primeiro semestre de 2025, segundo relatórios do Banco Central. A 2GO Instituição de Pagamentos, controlada pelo policial civil Cyllas Salerno Elias, processou parcelas significativas dos fundos, com transferências que somavam milhões em contas ligadas a empresas de fachada. Elias, preso pela terceira vez em operações relacionadas, administrava uma estrutura que facilitava envios rápidos para o exterior, disfarçados como remessas comerciais para importadores chineses.

Outra entidade chave, a RMD Administração Empresarial, registrou movimentações de R$ 480 milhões em oito meses, conforme cruzamentos bancários revelados na investigação. Esses valores entravam via depósitos em espécie de “investidores” fictícios e saíam em lotes fragmentados para gateways de pagamento, que conectavam sites fraudulentos a contas internacionais. A ausência de segregação rigorosa entre fundos de clientes nessas plataformas criava “contas-bolsão”, onde recursos ilícitos se misturavam a transações legítimas, complicando auditorias.

  • A 2GO operava com licenças de instituição de pagamento, permitindo transferências instantâneas sem as barreiras de compliance de bancos convencionais.
  • Recursos eram divididos em valores abaixo de R$ 10 mil para evitar relatórios obrigatórios ao Coaf, que em 2025 recebeu mais de 85 mil alertas sobre fintechs suspeitas.
  • Parcerias com gateways internacionais, hospedados em Istambul, aceleravam envios para Hong Kong e China, destinos comuns para lavagem de capitais asiáticos.
  • Algumas fintechs ofereciam anonimato via carteiras digitais, ideais para reinvestir lucros em criptomoedas ou imóveis no exterior.
  • O volume total estimado no esquema ultrapassou R$ 500 milhões, com 60% circulando por apps de pagamento populares entre usuários periféricos.

Autoridades destacam que o modelo se baseava em brechas regulatórias, como a demora na implementação de normas mais rígidas para e-Financeira, revogadas temporariamente em 2025 após debates públicos. Isso permitiu que quadrilhas escalassem operações, usando as mesmas ferramentas que beneficiam milhões de brasileiros honestos em transferências cotidianas. No Jardim Pantanal, vítimas como Souza viram suas contas serem usadas para receber “salários” falsos de empresas fantasmas, que depois eram esvaziadas por saques automatizados.

Perfis dos investigados e rede sino-brasileira

O núcleo da organização mesclava expertise local com conexões asiáticas, formando uma aliança que explorava tanto o conhecimento do sistema financeiro brasileiro quanto rotas consolidadas para lavagem no exterior. Ricardo Daffre, empresário paulista apontado como coordenador logístico, supervisionava a distribuição de dados coletados, colaborando com nomes como Carlos Donizete de Souza, que gerenciava contatos em comunidades vulneráveis. Do lado chinês, Lin Chen e Yao Ji, ainda foragidos, forneciam a infraestrutura tecnológica, incluindo bots para fraudes em massa.

Jie Zhang, Jie Wang e Xiangguo Li, detidos em São Paulo, lidavam com as transferências financeiras, utilizando passaportes diplomáticos falsos para viagens frequentes à Turquia. Li, em particular, mantinha laços com redes de criptoativos em Hong Kong, onde parte dos fundos era convertida em stablecoins para ocultação. As prisões ocorreram em endereços de luxo na capital, contrastando com o perfil das vítimas no Pantanal, e incluíram apreensões de servidores e documentos que mapeavam mais de 500 contas ativas.

Defesas dos envolvidos questionam a solidez das provas, alegando cooperação com autoridades e ausência de evidências diretas de participação. No entanto, perícias forenses em dispositivos confiscados revelaram comunicações criptografadas que coordenavam as coletas pós-enchente, com instruções explícitas para priorizar bairros como o Jardim Pantanal devido à baixa taxa de denúncias imediatas.

A composição multicultural da quadrilha reflete tendências globais de crimes financeiros, onde grupos transnacionais dividem tarefas para maximizar eficiência. Brasileiros forneciam acesso a dados locais, enquanto chineses gerenciavam o escoamento internacional, totalizando um esquema que operava há pelo menos dois anos antes da desarticulação parcial.

  • Daffre atuava como elo entre coletores de dados e processadores, com histórico em empresas de telemarketing duvidosas.
  • Chen e Ji, foragidos, são suspeitos de desenvolver o software de automação usado em 80% das fraudes virtuais.
  • Zhang e Wang coordenavam envios para a Ásia, com viagens mensais registradas em aeroportos paulistas.
  • Li mantinha wallets de cripto com saldos em dólares, convertidos de reais lavados via RMD.
  • Souza, o único com residência fixa no Brasil, recrutava em desastres, explorando redes comunitárias.

Descoberta acidental e expansão da investigação

Tudo começou com uma queixa isolada em Rosana, onde um morador comum buscou justiça após perder economias em uma plataforma que prometia ganhos fáceis. A denúncia levou a uma análise inicial que conectou o site turco a transferências para São Paulo, revelando o uso de dados de enchentes como semente para o golpe maior. Dali, equipes de inteligência expandiram o escopo, cruzando registros do Coaf com relatos de bloqueios de CPF em periferias nacionais.

A operação ganhou impulso com a colaboração entre polícias civis de São Paulo e federal, resultando em mandados que atingiram sedes de fintechs e residências de suspeitos. Em fevereiro de 2025, a Operação Hydra já havia mirado estruturas semelhantes ligadas a facções, apreendendo R$ 27 milhões em bloqueios judiciais. Essa prévia facilitou a atual fase, que identificou padrões repetidos em desastres como as cheias no Rio Grande do Sul em 2024.

Vítimas adicionais emergiram em depoimentos, descrevendo abordagens semelhantes em outros alagamentos, como no litoral baiano. Isso ampliou o mapeamento para além do Jardim Pantanal, com estimativas de prejuízos totais superando R$ 600 milhões quando somados os casos periféricos.

A rede se ramificava para serviços de lavagem terceirizados, atendendo não só golpes próprios, mas também facções maiores que pagavam comissões por processamento de fundos. Essa diversificação explicava o volume astronômico, com fluxos mensais equivalentes a orçamentos municipais inteiros.

Medidas de proteção para vítimas identificadas

Após a exposição do esquema, autoridades implementaram protocolos para mitigar danos, começando pela notificação em massa de afetados via Serasa e Receita Federal. Moradores do Jardim Pantanal receberam suporte jurídico gratuito para contestar débitos, com audiências agendadas em varas especializadas de São Paulo. Isso incluiu a suspensão temporária de negativações, permitindo que famílias acessassem auxílios emergenciais atrasados pelas enchentes.

Programas de educação financeira foram intensificados em comunidades de risco, com palestras sobre verificação de cadastros em desastres. O Ministério Público criou uma força-tarefa dedicada a reembolsos, priorizando casos de idosos e mães solo, grupos mais explorados no Pantanal. Até o momento, cerca de 1.200 vítimas tiveram contas regularizadas, com devoluções parciais de valores retidos indevidamente.

  • Verifique sempre a origem de cadastros para auxílios, exigindo identificação oficial de entidades como Defesa Civil.
  • Monitore extratos bancários mensalmente, reportando transações desconhecidas ao Banco Central via app.
  • Use ferramentas como o Registrato da Receita para rastrear CPFs em tempo real e bloquear acessos não autorizados.
  • Em desastres, priorize canais governamentais para doações, evitando intermediários não verificados.
  • Denuncie suspeitas ao Disque 100 ou delegacias especializadas, fornecendo detalhes para agilizar investigações.

Essas ações visam romper o ciclo de revitimização, especialmente em áreas como o Jardim Pantanal, onde a recuperação das cheias de 2022 ainda é lenta, com famílias lidando com aluguéis improvisados e empregos precários. A integração de bancos de dados públicos com alertas em tempo real representa um avanço, mas desafios persistem em fiscalizar o ecossistema de fintechs que cresce 25% ao ano.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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