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Vasco da Gama formalizou na sexta-feira, 19 de setembro de 2025, um pedido à 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro para contratar um empréstimo de até R$ 80 milhões na modalidade DIP, ou Debtor in Possession. Essa operação surge como medida urgente para cobrir despesas operacionais durante o processo de recuperação judicial iniciado em fevereiro deste ano. O clube, que acumula dívidas históricas acima de R$ 1,4 bilhão, busca manter a estabilidade financeira sem recorrer à venda de jogadores chave.

O financiamento, estruturado com consultores especializados, prevê recursos destinados exclusivamente a salários de atletas e funcionários, pagamentos a fornecedores essenciais e obrigações fiscais e trabalhistas. Diretores destacam que o plano já constava nos documentos submetidos à Justiça no início da recuperação, reforçando a transparência do processo.

  • Principais destinos do recurso: folha salarial mensal, que ultrapassa R$ 10 milhões; quitação de débitos com prestadores de serviços; regularização de impostos atrasados.
  • Duração prevista: carência de 12 meses, com pagamento em até três anos.
  • Taxas envolvidas: juros fixos de 7% ao ano, mais correção pelo CDI.

Autoridades judiciais, incluindo o administrador judicial, já reconheceram a essencialidade da medida, condicionando sua aprovação ao desfecho de recursos relacionados à ex-parceira 777 Partners. O Ministério Público, no entanto, manifestou ressalvas quanto aos termos contratuais ainda não finalizados.

Garantias oferecidas preservam receitas futuras

A escolha de 20 mil ações ordinárias de classe A, representando 20% do capital social da Vasco SAF detido pelo Clube de Regatas Vasco da Gama (CRVG), como garantia, reflete uma estratégia cautelosa da diretoria. Essas ações, parte do ativo não circulante, não serão alienadas imediatamente, mas servem como aval para o credor, sujeito a aprovação judicial. O vice-presidente jurídico, Felipe Carregal, enfatizou que essa opção evita comprometer fontes de renda como cotas de transmissão televisiva, que renderam R$ 150 milhões em 2024, ou parcerias comerciais em negociação.

Essa estrutura de garantia excede o valor do empréstimo, considerando juros e correções projetados, prática comum em recuperações judiciais para mitigar riscos. Historicamente, o Vasco utilizou imóveis como São Januário em operações semelhantes, mas a atual administração optou por ativos financeiros para não afetar a infraestrutura do clube. O valor das ações da SAF, avaliado em relatórios internos em torno de R$ 400 milhões no total, posiciona os 20% como colateral robusto.

Carregal acrescentou que o fluxo de caixa da SAF sofreu impactos severos devido a compromissos assumidos pela 777 Partners, com vencimentos imediatos que pressionaram o orçamento. Sem o aporte norte-americano, que representava 31% do capital, o clube precisou redesenhar suas finanças, priorizando a manutenção de talentos como o atacante Rayan, autor de gols decisivos na Série A deste ano.

O jovem de 18 anos, elogiado pelo técnico Fernando Diniz como “jogador raríssimo”, atrai sondagens de clubes europeus por valores acima de R$ 100 milhões, mas a diretoria resiste à venda imediata, vendo-o como ativo de longo prazo. Essa postura contrasta com práticas passadas, onde negociações de promessas ajudaram a tapar buracos orçamentários.

Disputas judiciais envolvem fatia da SAF

A composição acionária da Vasco SAF permanece sob tensão, com 30% pertencentes ao CRVG, 31% integralizados pela 777 Partners e 39% em arbitragem na Fundação Getulio Vargas. Dos 30% do clube associativo, 10% enfrentam penhora em ação movida pelo escritório Andrade Figueira Advogados, que cobra R$ 3,56 milhões em honorários por serviços prestados nas gestões de Jorge Salgado e da 777. A defesa vascaína contesta a validade do contrato, alegando ausência de assinaturas reconhecidas, e confia na proteção da Lei das SAFs para impedir leilões dessas ações.

Esses 10% foram bloqueados como medida cautelar em maio de 2024, logo após o afastamento da 777, mas o clube argumenta que a norma federal resguarda a parte associativa contra alienações. A decisão final deve integrar o escopo da recuperação judicial, onde o juiz analisará o plano de pagamento aos credores, previsto para aprovação no segundo semestre.

Os 20% restantes, agora propostos como garantia no DIP, haviam sido comprometidos em acordos anteriores para cobrir passivos ocultos estimados em R$ 200 milhões, omitidos no balanço pré-777. Com o rompimento contratual, esses papéis voltaram ao controle vascaíno, permitindo sua utilização estratégica. A arbitragem com a 777, suspensa temporariamente por liminar, envolve acusações de saques indevidos e empréstimos internos questionáveis, como um de R$ 25,8 milhões para empresa do grupo americano.

  • Elementos da arbitragem: análise de aportes não realizados, totalizando R$ 270 milhões previstos para 2024 e 2025; questionamento de decisões unilaterais da 777 em escalações e contratações; impacto na dívida total, que subiu R$ 400 milhões de 2022 a 2024.
  • Posição do Vasco: busca anulação de cláusulas que dariam 90% da SAF aos americanos em caso de inadimplência.
  • Cronologia recente: afastamento em maio de 2024; pedido de RJ em fevereiro de 2025; julgamento de recurso da 777 adiado para janeiro de 2026.

Essas disputas prolongam a incerteza, mas o clube avança em negociações com potenciais investidores, como o BTG Pactual, que sonda aquisição de 31% por US$ 30 milhões, metade do investido pela 777.

Estratégias para fluxo de caixa imediato

O pedido de DIP integra um pacote de medidas para injetar liquidez, incluindo o balanço de 2024, que registrou receitas recordes de R$ 474 milhões, impulsionadas por vendas como a de Gabriel Pec por US$ 10 milhões e Marlon Gomes por €12 milhões. Apesar do crescimento, os custos operacionais saltaram para R$ 435 milhões, refletindo contratações e inflação em logística. O relatório, auditado pela BDO, alerta para riscos de continuidade, mas destaca deságios potenciais de até 50% nas dívidas via RJ.

Administradores planejam aprovar o plano de recuperação no Conselho de Credores até outubro, com prazos de pagamento estendidos a 15 anos para débitos quirografários. Paralelamente, o clube explora revenda da SAF, contratando a G5 Partners para atrair sócios estratégicos, visando aporte inicial de R$ 100 milhões. Essa abordagem preserva o controle associativo enquanto atrai capital fresco.

Rayan, com 15 gols na temporada, simboliza o equilíbrio entre campo e finanças. Sua permanência evita desvalorização do elenco, avaliado em R$ 250 milhões pela Transfermarkt, e fortalece negociações por patrocínios, como o recente acordo com uma marca de bebidas energéticas por R$ 20 milhões anuais.

O técnico Diniz, em coletiva pós-jogo contra o Flamengo, reforçou o valor do atacante: “Ele representa o futuro que estamos construindo, além de resultados imediatos”. Essa visão alinha o departamento de futebol à reestruturação financeira, com foco em desenvolvimento de base que gerou R$ 50 milhões em transferências nos últimos dois anos.

Histórico de operações financeiras no clube

Desde a adoção da SAF em 2022, o Vasco transferiu ativos como direitos de transmissão e contratos de jogadores para a sociedade anônima, visando isolá-los de execuções judiciais. No entanto, a parceria com a 777, firmada para aportes de US$ 120 milhões em três anos, desandou com acusações de fraudes nos EUA, incluindo um empréstimo de US$ 350 milhões com garantias duvidosas. O rompimento custou ao clube R$ 70 milhões em aportes não honrados, elevando a dívida para R$ 1,4 bilhão em 2025.

Gestões anteriores, como a de Salgado, acumularam passivos ocultos, incluindo R$ 200 milhões em litígios trabalhistas. O atual mandato, sob Pedrinho, prioriza auditorias independentes, revelando irregularidades como saques pós-aporte pela 777. O DIP de R$ 80 milhões, com amortização antecipada ligada a receitas extras como premiações no Brasileirão, mitiga esses legados.

  • Vendas recentes de impacto: Pec para LA Galaxy, gerando R$ 55 milhões líquidos; Gomes para Shakhtar, R$ 66 milhões; total de transferências em 2024 superou R$ 174 milhões.
  • Dívidas por categoria: R$ 600 milhões trabalhistas; R$ 500 milhões fiscais; R$ 300 milhões com fornecedores.
  • Projeções para 2025: receitas de TV em R$ 160 milhões; patrocínios em alta de 20%.

O clube também negocia com o BTG um financiamento adicional de R$ 165 milhões, com garantias sobre 59% da SAF, incluindo mecanismos de aceleração se o time alcançar G-10 no campeonato. Essa camada de operações demonstra a complexidade da RJ, mas também a determinação em honrar compromissos sem dilapidar patrimônio.

Manutenção de talentos como prioridade

Preservar Rayan reflete uma mudança paradigmática na gestão vascaína, que historicamente recorreu a vendas emergenciais para saldar dívidas. O atacante, revelado nas categorias de base, contribuiu com 20 assistências em competições nacionais, elevando o valor de mercado do elenco em 30% este ano. Diretores veem nele não só um ativo esportivo, mas um vetor para atrair investimentos, com cláusulas de preferência em futuras negociações.

O departamento jurídico contesta penhoras como a dos 10% da SAF, invocando a Lei 14.193/2021, que veda execuções sobre ações associativas. Audiências marcadas para novembro devem esclarecer essa fatia, potencialmente revertendo o bloqueio e fortalecendo o balanço patrimonial.

Enquanto isso, o fluxo de caixa mensal, projetado em R$ 40 milhões para o segundo semestre, depende de vitórias em campo. O Vasco, 8º no Brasileirão com 35 pontos, mira vagas em torneios continentais, que adicionariam R$ 50 milhões em premiações. O empréstimo DIP, se aprovado, injetará R$ 20 milhões iniciais, cobrindo o déficit de agosto.

Carregal resumiu a filosofia: “Equilibramos contas sem sacrificar o que nos torna competitivos”. Essa equação sustenta o dia a dia em São Januário, onde 30 mil torcedores lotam as arquibancadas, gerando R$ 5 milhões em bilheteria trimestral.

O processo avança com audiências semanais na Vara Empresarial, onde credores como bancos e ex-funcionários debatem deságios. O plano prevê abatimento de 45% na dívida principal, estendendo pagamentos a 10 anos para quietos e 20 para quirografários. Essa reestruturação, se homologada, liberará R$ 100 milhões anuais para investimentos em infraestrutura, como reformas em CTs.

Thiago Lemos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2020: Formação: Administração.

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