Análises das amostras do asteroide Bennu, trazidas à Terra pela missão OSIRIS-REx da Nasa, confirmaram a presença de triptofano, um aminoácido essencial para a vida como a conhecemos. A descoberta, detalhada em publicações científicas recentes, representa a primeira vez que esta molécula orgânica complexa é identificada em material extraterrestre que não passou pela atmosfera terrestre.
O composto é um dos 20 aminoácidos que formam as proteínas em organismos vivos e é crucial para diversas funções biológicas. A detecção em uma rocha espacial de 4,5 bilhões de anos reforça a teoria de que os ingredientes fundamentais para a vida podem ter sido entregues ao nosso planeta por asteroides durante a formação do Sistema Solar.
A sonda OSIRIS-REx coletou 121,6 gramas de regolito, a camada de poeira e rochas soltas da superfície de Bennu, em 2020. O material foi retornado com segurança em uma cápsula selada em setembro de 2023, garantindo que as amostras permanecessem em seu estado original, livres de contaminação terrestre.
Análise inédita revela composto orgânico complexo
A identificação do triptofano foi realizada em uma porção de apenas 50 miligramas do material coletado. Cientistas do Goddard Space Flight Center da Nasa utilizaram técnicas de alta sensibilidade para isolar e confirmar a estrutura da molécula. Este aminoácido é notavelmente frágil e dificilmente sobreviveria à entrada incandescente na atmosfera da Terra, o que explica sua ausência em análises de meteoritos que caíram no planeta. A coleta direta no espaço foi, portanto, fundamental para a preservação e detecção do composto.
Diferente de outros aminoácidos já encontrados em corpos celestes, o triptofano possui uma das estruturas moleculares mais complexas entre aqueles que formam proteínas. Sua presença em Bennu sugere que processos químicos complexos, capazes de gerar moléculas orgânicas vitais, ocorreram no início do Sistema Solar. A descoberta eleva para 15 o número de aminoácidos formadores de proteínas identificados no asteroide, fornecendo um inventário cada vez mais completo dos blocos de construção da vida disponíveis no espaço.
A jornada da missão OSIRIS-REx até Bennu
Lançada em 2016, a espaçonave OSIRIS-REx viajou por mais de dois anos até alcançar a órbita do asteroide Bennu no final de 2018. A equipe da missão passou quase dois anos mapeando detalhadamente a superfície do asteroide para selecionar o local de coleta mais seguro e cientificamente interessante.
Em outubro de 2020, a sonda executou uma manobra precisa chamada Touch-And-Go (TAG), na qual seu braço robótico tocou a superfície por apenas alguns segundos. Durante esse breve contato, um pulso de gás nitrogênio foi disparado para levantar o regolito, que foi então capturado por um compartimento na extremidade do braço.
O retorno da cápsula com as amostras em setembro de 2023, no deserto de Utah, nos Estados Unidos, marcou o fim de uma jornada de sete anos e o início de uma nova fase de descobertas em laboratórios ao redor do mundo.
O significado do triptofano para a ciência
Para a biologia terrestre, o triptofano é classificado como um aminoácido essencial, o que significa que os seres humanos e muitos outros animais não conseguem produzi-lo e precisam obtê-lo através da alimentação. Ele desempenha um papel vital na síntese de proteínas e atua como precursor de compostos importantes, como o neurotransmissor serotonina, que regula o humor e o sono, e o hormônio melatonina. Encontrá-lo em um ambiente extraterrestre primitivo é um marco para a astrobiologia, pois demonstra que moléculas biologicamente relevantes e complexas não são exclusivas da Terra. A descoberta em Bennu, um corpo que praticamente não sofreu alterações desde a sua formação, indica que esses compostos estavam disponíveis nos primórdios do nosso sistema planetário, podendo ter sido semeados em planetas rochosos como a Terra e Marte. Isso fortalece a ideia de que a química prebiótica necessária para a origem da vida pode ser um fenômeno comum no universo, dependendo apenas das condições adequadas para se desenvolver.
Bennu como uma cápsula do tempo do sistema solar
O asteroide Bennu é um objeto de aproximadamente 500 metros de diâmetro, classificado como um asteroide do tipo B, rico em carbono. Sua composição é considerada uma das mais primitivas do Sistema Solar.
Os cientistas acreditam que Bennu se desprendeu de um corpo celeste muito maior há cerca de 700 milhões a 2 bilhões de anos. Sua composição química, no entanto, reflete as condições existentes há 4,5 bilhões de anos.
Isso o transforma em uma verdadeira “cápsula do tempo”, contendo minerais e moléculas orgânicas que existiam na nuvem de gás e poeira que deu origem ao Sol e aos planetas.
Estudar seu material permite aos pesquisadores entender melhor os processos de formação planetária e a distribuição de água e compostos orgânicos pelo Sistema Solar primitivo.
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Outros componentes biológicos encontrados na amostra
Além do triptofano, as análises iniciais das amostras de Bennu já haviam revelado a presença de outros compostos fundamentais para a vida. Entre eles estão minerais que contêm moléculas de água presas em sua estrutura cristalina, confirmando que asteroides como Bennu poderiam ter transportado água para a Terra primitiva.
Também foram detectados compostos de fosfato em alta concentração, um elemento crucial para a formação do DNA, RNA e para o metabolismo energético das células. A combinação de água, compostos orgânicos complexos e fosfatos em um único local fortalece a imagem de Bennu como um repositório de ingredientes prebióticos.
Próximas etapas para a pesquisa do material
A pesquisa sobre o material de Bennu está apenas no começo, com a maior parte das 121,6 gramas coletadas ainda preservada para estudos futuros. Amostras continuarão a ser distribuídas para laboratórios e instituições de pesquisa em todo o mundo, que aplicarão diferentes técnicas analíticas para desvendar mais segredos do asteroide.
Reforço à teoria da panspermia
A descoberta do triptofano e de outros compostos orgânicos em Bennu oferece um suporte significativo à hipótese da panspermia. Esta teoria sugere que a vida na Terra pode não ter se originado de forma completamente independente, mas sim a partir de “sementes” orgânicas trazidas do espaço por asteroides e cometas.
O bombardeio intenso de corpos celestes que a Terra sofreu em seus primeiros milhões de anos poderia ter depositado um vasto inventário de moléculas prebióticas. Esses compostos, ao encontrarem as condições favoráveis de um planeta jovem com água líquida, podem ter iniciado as reações químicas que, eventualmente, levaram ao surgimento dos primeiros organismos vivos.
