Caso Benício choca Manaus: laringite tratada com adrenalina intravenosa leva criança à morte
Benício Xavier, de 6 anos, morreu no Hospital Santa Júlia, em Manaus, após receber adrenalina pura injetada diretamente na veia. O medicamento foi prescrito para tratar suspeita de laringite, quadro que normalmente utiliza a versão inalatória. A criança chegou ao hospital andando, com tosse seca e febre, no dia 22 de novembro de 2025.
A família permaneceu quase 14 horas na unidade. A prescrição médica indicava três doses que somavam 9 miligramas de adrenalina não diluída. Logo após a aplicação, o menino apresentou palidez, dor no peito e sofreu seis paradas cardíacas.
A Polícia Civil do Amazonas investiga o caso como homicídio. O delegado responsável aponta quebra de protocolos e ausência de dupla checagem por médicos, enfermeiros e farmacêuticos.
Prescrição indicou via intravenosa em caso leve
A médica Juliana Brasil Santos atendeu Benício na emergência. Ela prescreveu adrenalina pura por via endovenosa, procedimento reservado para situações graves como parada cardiorrespiratória.
Em casos de laringite moderada, o protocolo padrão prevê administração inalatória. Especialistas consultados confirmam que a via intravenosa exige diluição extrema e aplicação lenta, geralmente em UTI.
A mãe Joice Xavier de Carvalho relatou que, em atendimento anterior no mesmo hospital, o filho recebeu adrenalina apenas por inalação. Ela questionou a técnica de enfermagem ao ver o frasco para soro.
Aplicação ocorreu sem checagem adicional

A técnica de enfermagem Raíza Bentes administrou a medicação conforme a prescrição. Ela afirmou que trabalhava sozinha no momento e não realizou verificação independente.
Após a injeção, Benício ficou pálido e reclamou de dor no coração. A técnica comunicou a médica, que respondeu apenas “tá bom”, segundo depoimento.
A criança foi levada para a sala vermelha quatro horas depois. Em seguida, transferida para UTI, onde foi intubada e sofreu as paradas cardíacas.
Investigação aponta falhas em sequência
O delegado Marcelo Martins classificou o caso como homicídio decorrente de sucessão de erros. Ele destacou a ausência de dupla checagem em três etapas: prescrição, dispensação e administração.
O Conselho Regional de Farmácia do Amazonas informou que a presença de farmacêutico teria identificado a superdose. Não houve conferência do profissional na unidade no momento.
A médica admitiu em mensagens e relatório interno que errou na prescrição. Posteriormente, alegou possível falha no sistema eletrônico do hospital.
Sistema eletrônico não altera prescrição sozinho
O superintendente de TI do hospital, João Alexandre de Araújo, garantiu que o software não modifica vias de administração sem comando do médico. Testes internos não encontraram irregularidades no sistema.
Juliana Brasil Santos foi afastada das funções. Ela obteve habeas corpus preventivo e responde em liberdade.
Raíza Bentes está suspensa pelo Conselho Regional de Enfermagem. A defesa das duas profissionais aguarda conclusão do inquérito para manifestação completa.
Medidas adotadas pela unidade hospitalar
O diretor médico Guilherme Macedo informou que a gestão elabora planos de ação para evitar casos semelhantes. Entre as medidas estão reforço nos protocolos de checagem e treinamento de equipes.
A polícia continua ouvindo testemunhas e periciando documentos. O inquérito deve ser concluído nas próximas semanas.
- Prescrição indicou 9 mg de adrenalina pura IV
- Dose máxima recomendada para crianças é 0,01 mg/kg diluída
- Via intravenosa é contraindicada em laringite sem risco iminente
- Ausência de farmacêutico no plantão noturno
- Seis paradas cardíacas registradas na UTI
A família de Benício aguarda conclusão das investigações criminal e administrativa. O menino era filho único e completaria 7 anos no dia 25 de dezembro.

















