Observatório orbital chinês Tianwen-1 fotografa cometa 3I/ATLAS em passagem por Marte em 2025
A sonda Tianwen-1, da China, capturou imagens inéditas da cometa interestelar 3I/ATLAS em outubro de 2025, enquanto o corpo celeste passava próximo a Marte. Esta é a primeira vez que um objeto de fora do Sistema Solar é monitorado a partir da órbita do planeta vermelho, a uma distância de aproximadamente 29 milhões de quilômetros da superfície marciana.
A façanha, anunciada pelo Escritório Nacional de Ciência Espacial da China, representa um avanço significativo na astronomia e contribui para um esforço internacional de análise da composição e trajetória desse visitante cósmico incomum. Os dados coletados são cruciais para entender melhor a origem e as características de cometas interestelares.

Descoberta em 1º de julho de 2025 pelo telescópio ATLAS no Chile, a cometa 3I/ATLAS foi confirmada como o terceiro objeto de origem externa ao Sistema Solar, destacando-se por sua trajetória hiperbólica e velocidade de 58 quilômetros por segundo.
Tecnologia por trás da rara observação marciana
A câmera HiRIC da Tianwen-1, originalmente projetada para mapear superfícies planetárias com alta resolução, foi adaptada para o rastreamento de alvos fracos e velozes. Essa flexibilidade tecnológica permitiu que a sonda ajustasse seus sistemas para focar em um objeto em movimento rápido no espaço profundo.
Para evitar o borramento das imagens causado pela alta velocidade orbital da sonda e do próprio cometa, foram utilizadas exposições curtas. As sequências de 30 segundos foram então processadas em Pequim, resultando em fotos que revelam detalhes cruciais do núcleo e da coma da cometa 3I/ATLAS.
Desafios e ajustes da câmera HiRIC
A captação das imagens de um objeto tão distante e rápido exigiu uma série de ajustes técnicos complexos. As equipes de engenharia precisaram recalibrar a orientação e a estabilidade térmica da Tianwen-1 para garantir que as transmissões de dados fossem seguras e eficientes.
O núcleo rochoso da cometa, com um diâmetro estimado em 5,6 quilômetros, aparece envolto por uma coma gasosa que se estende por milhares de quilômetros. Esses detalhes fornecem subsídios importantes para estudos sobre as acelerações não gravitacionais que afetam a trajetória do corpo celeste.
O que as imagens revelam sobre a 3I/ATLAS
As fotografias obtidas pela Tianwen-1 mostram o núcleo central da cometa com uma tonalidade avermelhada, indicando a presença de poeira orgânica em sua superfície. Este detalhe é fundamental para compreender a composição primitiva de objetos interestelares.
A coma, a nuvem difusa de gás e poeira que envolve o núcleo, exibe sinais de evaporação de gelo sob a intensa radiação solar. Essa atividade é um indicador de que a cometa está liberando material à medida que se aproxima do Sol, criando uma atmosfera temporária ao seu redor.
Um rastro alongado, estendendo-se por cerca de 56 mil quilômetros, é visível nas imagens, impulsionado pela pressão da radiação solar. Análises espectrais iniciais detectaram a presença de gelo de água, dióxido de carbono e traços de monóxido de carbono, fornecendo um perfil químico detalhado da 3I/ATLAS.
A complexa preparação para o rastreamento
O planejamento para a observação da cometa 3I/ATLAS começou em setembro de 2025, envolvendo simulações de órbita e análises da baixa luminosidade do objeto para otimizar a captura de imagens. Testes rigorosos de telemetria foram conduzidos para garantir a transmissão segura e íntegra das imagens e dados coletados pela sonda. O foco em exposições breves foi crucial para maximizar o sinal do objeto, que se encontrava a uma distância de 29 milhões de quilômetros de Marte. Essa extensão da missão original da Tianwen-1 não apenas valida os protocolos para o rastreamento de alvos interestelares, mas também demonstra a capacidade da sonda de realizar operações de astronomia além de suas funções primárias de exploração marciana. A integração de diversos subsistemas permitiu o processamento de dados quase em tempo real durante o voo, assegurando que as informações fossem capturadas e enviadas de forma eficiente.
Colaboração internacional no estudo da cometa
A observação da cometa 3I/ATLAS gerou uma oportunidade para a colaboração entre diversas agências espaciais globais. A Agência Espacial Europeia, por exemplo, utilizou suas missões Mars Express e ExoMars para registrar emissões gasosas na coma da cometa.
Esses dados europeus complementam os ângulos variados fornecidos pelas fotografias chinesas, criando uma visão mais abrangente do comportamento da cometa. A sinergia de diferentes instrumentos e perspectivas é vital para uma análise completa.
O Mars Reconnaissance Orbiter da Nasa também contribuiu, obtendo imagens de resolução superior do núcleo da cometa, o que permitiu uma análise mais detalhada de sua estrutura. Em 4 de outubro, o rover Perseverance tentou, sem sucesso, uma detecção visual da superfície marciana, devido à distância.
A sonda Hope dos Emirados Árabes Unidos monitorou possíveis impactos atmosféricos da passagem da cometa, adicionando outra camada de dados à pesquisa. O conjunto dessas observações refina as estimativas de orientação axial e as forças não gravitacionais que atuam sobre a 3I/ATLAS.
Análise da composição e trajetória
A coleta de dados visuais e espectrais da cometa 3I/ATLAS permite aos cientistas aprimorar os modelos de sua trajetória e estrutura. A velocidade de 58 quilômetros por segundo e a trajetória hiperbólica confirmam sua origem externa ao nosso sistema estelar.
A análise conjunta das informações obtidas por diferentes missões espaciais contribui para um entendimento mais profundo sobre as acelerações anômalas que podem desviar a cometa de sua rota esperada. Essa capacidade de rastreamento e estudo é fundamental para a defesa planetária.
O legado da missão Tianwen-1 e futuras explorações
O lançamento da Tianwen-1 ocorreu em julho de 2020, com sua inserção orbital em fevereiro de 2021, demonstrando a capacidade chinesa de exploração interplanetária. Seu rover, Zhurong, pousou em maio na planície Utopia, coletando amostras e dados por um ano terrestre, expandindo o conhecimento sobre a geologia marciana.
A plataforma orbital da Tianwen-1 continua a mapear calotas polares e a distribuição de poeira na atmosfera marciana com a câmera HiRIC. Essa versatilidade agora se estende à astronomia interestelar, ampliando significativamente o escopo científico da missão para além dos objetivos iniciais de Marte.
Entendendo a origem de cometas interestelares
A cometa 3I/ATLAS oferece insights valiosos sobre discos protoplanetários frios, sugerindo que pode ter se formado em regiões distantes, possivelmente perto do centro da Via Láctea. Sua idade, que excede a do Sol, revela processos de formação planetária antiga e a diversidade de ambientes cósmicos.