Registros inéditos do cometa 3I/ATLAS são feitos pela sonda Tianwen-1 próximo ao planeta MartePor Luís Henrique Costa
6 min de leitura
![]() |
A sonda chinesa Tianwen-1, operando na órbita de Marte, alcançou um marco significativo para a astronomia ao registrar imagens detalhadas do cometa interestelar 3I/ATLAS. A captação ocorreu durante a passagem do objeto próximo ao Planeta Vermelho em outubro de 2025, a uma distância de aproximadamente 30 milhões de quilômetros. Este evento representa a primeira vez que um corpo celeste vindo de fora do nosso Sistema Solar é observado por um equipamento em órbita marciana, fornecendo dados valiosos para a comunidade científica global.
A conquista reforça a capacidade da China em missões de espaço profundo e adiciona uma nova camada de informações ao estudo de cometas interestelares, que são extremamente raros. O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto do tipo a ser confirmado, seguindo as detecções de Oumuamua em 2017 e 2I/Borisov em 2019. Sua órbita hiperbólica, confirmada após a descoberta em julho de 2025 pelo telescópio ATLAS no Chile, não deixa dúvidas sobre sua origem extrassolar, despertando grande interesse sobre sua composição e trajetória.
Detalhes da manobra de captação
A operação para fotografar o cometa 3I/ATLAS foi um desafio técnico complexo, superado com sucesso pela equipe da missão Tianwen-1. A câmera de alta resolução HiRIC, originalmente projetada para mapear a superfície de Marte, foi reprogramada para rastrear um alvo pequeno, com brilho fraco e em alta velocidade no espaço profundo. Engenheiros da Administração Espacial Nacional da China (CNSA) realizaram extensas simulações para calcular o tempo de exposição ideal, que precisava ser extremamente curto para evitar que as imagens ficassem borradas devido ao movimento relativo entre a sonda e o cometa. A uma distância de quase 30 milhões de quilômetros, qualquer mínimo erro de cálculo ou instabilidade da sonda poderia comprometer toda a observação. Foi necessário realizar ajustes precisos na orientação da Tianwen-1 e garantir a estabilidade térmica de seus instrumentos para obter a nitidez necessária. Os dados brutos foram transmitidos para o centro de controle em Pequim, onde passaram por um processamento especializado para montar as sequências de imagens, que revelam o movimento do cometa contra o fundo de estrelas distantes.
A natureza do visitante interestelar
As imagens e dados coletados pela Tianwen-1, juntamente com observações de outras agências, permitiram traçar um perfil detalhado do cometa 3I/ATLAS. O objeto possui um núcleo rochoso com cerca de 5,6 quilômetros de diâmetro e viaja pelo espaço a uma velocidade impressionante de 58 quilômetros por segundo. As fotografias mostram claramente o núcleo envolto por uma coma, uma nuvem de gás e poeira que se expandiu por milhares de quilômetros devido à sublimação de gelos pela aproximação do Sol. Essa intensa atividade cometária é um dos principais focos de estudo dos cientistas.
A cauda do cometa, que nas primeiras observações era tênue, já se estendia por mais de 56 mil quilômetros em agosto de 2025, sempre na direção oposta ao Sol. Análises espectrais preliminares indicam que a composição do 3I/ATLAS inclui gelo de água e dióxido de carbono, com traços de monóxido de carbono. Essa composição química sugere que o cometa se formou em um disco protoplanetário muito frio, possivelmente em uma região distante de seu sistema estelar de origem, fornecendo uma amostra rara das condições de formação de planetas em outras partes da galáxia. O brilho avermelhado observado é atribuído à presença de poeira orgânica em sua superfície.
O esforço colaborativo internacional
A observação do 3I/ATLAS não foi um esforço isolado da China. A passagem do cometa por Marte mobilizou uma campanha de observação global, com várias agências espaciais apontando seus instrumentos para o mesmo alvo.
A Agência Espacial Europeia (ESA) utilizou suas sondas Mars Express e ExoMars Trace Gas Orbiter para coletar dados complementares, oferecendo diferentes ângulos e perspectivas geométricas que ajudam a construir um modelo tridimensional do objeto e de sua atividade.
A NASA também desempenhou um papel crucial, com o Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) capturando imagens de altíssima resolução com sua câmera HiRISE. Na superfície, rovers como o Perseverance tentaram, em 4 de outubro, detectar o cometa a partir do solo marciano, um feito tecnicamente desafiador.
Preparativos para um registro histórico
O planejamento para esta observação começou em setembro de 2025, logo após a confirmação da trajetória do cometa. A equipe da Tianwen-1 baseou seus cálculos em previsões orbitais de alta precisão para determinar as janelas de oportunidade ideais.
A baixa luminosidade do 3I/ATLAS e sua alta velocidade foram os principais fatores considerados na elaboração da estratégia de captação, que exigiu o máximo da capacidade dos sensores da sonda.
Testes rigorosos de telemetria foram conduzidos para garantir que a grande quantidade de dados gerados pelas imagens pudesse ser transmitida de forma segura e íntegra para a Terra.
Esta missão secundária testou os limites das capacidades de rastreamento da Tianwen-1, confirmando a eficácia dos protocolos que poderão ser aplicados em futuras missões de detecção de asteroides ou outros corpos celestes.
Legado da missão Tianwen-1
Lançada em julho de 2020, a Tianwen-1 se estabeleceu como uma das missões mais ambiciosas da história da exploração espacial chinesa. Ela entrou na órbita de Marte em fevereiro de 2021, um feito que incluiu um orbitador, um módulo de pouso e um rover.
O rover Zhurong pousou com sucesso na planície Utopia Planitia em maio de 2021 e operou por quase um ano terrestre, superando as expectativas e coletando dados valiosos sobre a geologia e a atmosfera marciana antes de entrar em hibernação.
Implicações para futuras explorações
O sucesso na observação do cometa 3I/ATLAS serve como uma validação importante das tecnologias e métodos que serão utilizados na missão Tianwen-2. Lançada em maio de 2025, esta nova sonda tem como objetivo principal coletar amostras de um asteroide próximo à Terra.
Posteriormente, a Tianwen-2 seguirá para estudar um cometa do cinturão principal, aprofundando a capacidade da China no estudo de corpos menores do Sistema Solar e na execução de manobras espaciais complexas.
Um marco na astronomia planetária
A captação de um visitante interestelar a partir da órbita de outro planeta é um feito notável que abre novas fronteiras para a ciência. As informações obtidas sobre o 3I/ATLAS ajudarão a desvendar os mistérios sobre a formação de sistemas planetários além do nosso, consolidando a exploração de Marte como uma plataforma estratégica para a observação do universo profundo.








