Liderança chinesa em energia renovável se amplia com recorde de instalações solares e eólicasPor Carolina Costa
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A China reafirmou sua posição dominante no setor de energia renovável global ao registrar um volume de instalações sem precedentes ao longo do ano passado. O país foi responsável por mais da metade de toda a nova capacidade de geração eólica e solar adicionada mundialmente, um feito que acelera significativamente sua agenda de descarbonização e transforma o panorama energético internacional.
Os investimentos massivos e as políticas governamentais direcionadas foram os principais motores dessa expansão. Regiões antes consideradas improdutivas, como desertos e áreas costeiras, foram convertidas em vastos centros de produção de energia limpa, demonstrando a escala e a velocidade da transição energética chinesa. Esse ritmo é fundamental para o cumprimento da meta de atingir a neutralidade de carbono até 2060.
Apesar do crescimento exponencial, o setor enfrentou obstáculos significativos, principalmente relacionados à integração dessa nova capacidade na rede elétrica nacional. Contudo, o desenvolvimento de inovações tecnológicas e a modernização da infraestrutura de transmissão têm sido cruciais para superar gradualmente esses desafios e garantir o aproveitamento eficiente da energia gerada.
Expansão recorde na capacidade instalada
Os números alcançados pela China em 2025 estabeleceram novos marcos históricos para o setor de energias renováveis. Apenas nos primeiros onze meses do ano, o país adicionou aproximadamente 275 gigawatts (GW) em capacidade solar, um volume que eleva o total acumulado a patamares nunca antes vistos. Essa expansão foi concentrada em províncias como Qinghai e Mongólia Interior, onde gigantescos parques fotovoltaicos foram implantados em áreas desérticas, otimizando o uso do solo e a irradiação solar.
Esses projetos de grande escala incorporaram tecnologias de ponta para maximizar a eficiência, como o uso de painéis solares bifaciais, que captam a luz solar em ambos os lados e aumentam a geração de energia em condições climáticas adversas. O resultado foi um ponto de inflexão estrutural no sistema energético do país: pela primeira vez, a capacidade total de fontes renováveis superou a das fontes térmicas, como o carvão. No segmento eólico, as adições também foram expressivas, somando mais de 50 GW no primeiro semestre, impulsionadas tanto por instalações em terra (onshore) em planaltos elevados quanto por parques em alto-mar (offshore) na costa leste.
Avanços tecnológicos em turbinas offshore
Um marco técnico significativo foi alcançado no início de 2026 com a instalação da primeira turbina eólica offshore de 20 megawatts (MW) do mundo, localizada na província de Fujian. Desenvolvida por um consórcio de empresas líderes, incluindo a Goldwind e a China Three Gorges, esta única unidade tem capacidade para gerar 80 milhões de quilowatts-hora (kWh) por ano, o suficiente para abastecer cerca de 44 mil residências e evitar a emissão de milhares de toneladas de dióxido de carbono.
Essa conquista tecnológica posiciona a China na vanguarda global em termos de potência unitária de turbinas, superando competidores internacionais. A instalação em águas profundas e a validação do seu desempenho em condições reais, como os ventos fortes característicos da região costeira, demonstram o domínio chinês em engenharia marítima e na fabricação de equipamentos de grande porte.
Outras inovações importantes incluem o desenvolvimento de sistemas híbridos que combinam a geração eólica com o armazenamento de energia em baterias. Um exemplo notável é o complexo de 6 GW em construção na província de Shanxi, que utiliza antigas minas de carvão desativadas para a sua implantação, unindo a transição energética à requalificação de áreas industriais degradadas.
Desafios na integração à rede elétrica
O crescimento acelerado na geração de energia renovável trouxe consigo um aumento no índice de “curtailment”, termo técnico para o desperdício de energia que ocorre quando a produção excede a capacidade de transmissão ou a demanda da rede. Durante o primeiro semestre de 2025, algumas províncias registraram taxas de desperdício de energia solar que chegaram a 6,6%, um reflexo direto das limitações na infraestrutura de escoamento. Regiões do noroeste, grandes produtoras de energia limpa, enfrentaram as maiores dificuldades para transportar a eletricidade gerada para os grandes centros consumidores no leste do país.
Em resposta, os investimentos na modernização da rede elétrica cresceram 22% no mesmo período. O foco principal foi a construção de novas linhas de transmissão de ultra-alta tensão e a implementação de tecnologias de rede inteligente (smart grids). Essas medidas são projetadas para reduzir as perdas técnicas, melhorar a flexibilidade do sistema e aumentar a capacidade de absorção de fontes de energia intermitentes como a solar e a eólica.
Especialistas do setor apontam que alcançar um equilíbrio sustentável entre oferta e demanda exigirá ajustes contínuos nas políticas de despacho de energia. Reformas recentes já estão sendo implementadas para incentivar o consumo local de energia renovável em grandes polos industriais, criando um mercado mais dinâmico e descentralizado.
Essa abordagem visa não apenas otimizar o uso da capacidade instalada, mas também fortalecer a resiliência do sistema elétrico nacional. A coordenação entre a expansão da geração e o fortalecimento da rede é vista como a chave para sustentar o ritmo de crescimento das renováveis sem comprometer a estabilidade do fornecimento de energia para a segunda maior economia do mundo. A integração de sistemas de previsão meteorológica mais precisos também desempenha um papel fundamental nesse processo.
Projetos híbridos em regiões desertas
A transformação de vastas áreas desérticas em centros produtivos de eletricidade ganhou escala sob a orientação do 14º Plano Quinquenal da China. Complexos energéticos que integram geração eólica e solar estão sendo desenvolvidos em larga escala, com bases que, somadas, se aproximam de 100 GW de capacidade. Esses empreendimentos gigantescos são estrategicamente projetados para incluir sistemas de armazenamento de energia, que ajudam a estabilizar a produção intermitente e garantir um fornecimento mais constante à rede.
A abordagem híbrida permite uma operação mais contínua, aproveitando a complementaridade entre as fontes: a energia solar é gerada durante o dia e a eólica, muitas vezes, tem picos durante a noite. Isso reduz a dependência de usinas de combustíveis fósseis para atuar como backup. Os projetos atualmente em construção preveem uma geração de eletricidade equivalente ao consumo de países europeus de médio porte, destacando a ambição e a escala da iniciativa.
- Painéis solares equipados com sistemas de rastreamento automático (trackers) aumentam o rendimento em até 20% ao seguir a posição do sol ao longo do dia.
- Turbinas eólicas especialmente adaptadas para operar em condições de ventos variáveis otimizam a produção em regiões de planalto e deserto.
- Sistemas de baterias em escala de gigawatt-hora são integrados para garantir o suprimento de energia durante os picos de demanda noturnos ou em dias sem sol e vento.
Investimentos em armazenamento de energia
O desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia em grande escala tornou-se uma prioridade estratégica para sustentar o crescimento exponencial das fontes renováveis. Apenas em 2025, a capacidade de armazenamento em baterias instalada em complexos específicos ultrapassou 3,4 gigawatts-hora. Essa infraestrutura é essencial para mitigar a variabilidade da geração eólica e solar, armazenando o excesso de energia produzido em momentos de baixa demanda para liberá-lo quando o consumo aumenta.
As estratégias chinesas são inspiradas em modelos internacionais bem-sucedidos, como o implementado na Califórnia, mas adaptadas à escala e às necessidades do seu próprio mercado. A expansão contínua da capacidade de armazenamento está gradualmente reduzindo a necessidade de manter usinas termelétricas operando como reserva estratégica, o que contribui diretamente para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Os investimentos em novas tecnologias de baterias, como as de estado sólido e de fluxo, também cresceram significativamente, com empresas locais dominando a cadeia global de suprimentos para esses componentes essenciais.
Implicações internacionais e comércio
A dominância chinesa na produção de equipamentos para energias renováveis, como painéis solares e turbinas eólicas, gerou tensões comerciais ao longo de 2025, com o país detendo mais de 80% da capacidade mundial de fabricação de componentes-chave. Medidas protecionistas, como a imposição de barreiras tarifárias por parte de blocos econômicos como a União Europeia, foram implementadas em resposta ao grande volume de exportações chinesas, que eram vistas como uma ameaça à indústria local.
Internamente, o governo chinês ajustou políticas de subsídios para equilibrar o mercado doméstico e evitar a superprodução. Apesar das fricções comerciais, os investimentos de empresas chinesas em projetos de energia renovável no exterior continuaram a crescer, ampliando a capacidade instalada global. Parcerias estabelecidas em países em desenvolvimento, especialmente na Ásia, África e América Latina, têm acelerado a transição energética nessas regiões, fortalecendo a influência da China na diplomacia climática e na cadeia de suprimentos internacional.
Progresso rumo à neutralidade de carbono
Os avanços registrados em 2025 aproximaram a China de forma decisiva do cumprimento de suas metas climáticas, estabelecidas para atingir o pico de emissões antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2060. Em determinados períodos do ano, a capacidade instalada combinada de energia eólica e solar ultrapassou a marca de 1,6 terawatts (TW). As fontes renováveis responderam por mais de 90% de todas as novas adições de potência ao sistema elétrico do país, um indicador claro da direção da sua matriz energética.
A geração de energia limpa registrou um crescimento de 25% em meses específicos quando comparada ao ano anterior, um resultado que reflete a maturação de grandes projetos iniciados nos anos anteriores. As políticas de longo prazo do governo continuam a priorizar a descarbonização gradual da economia, com efeitos positivos se estendendo a setores industriais de alta intensidade energética, que estão sendo incentivados a adotar fontes de energia mais limpas. A expansão renovável chinesa, pela sua escala, influencia diretamente o cenário global de emissões, tornando o país um ator indispensável para o sucesso dos acordos climáticos internacionais.








