Expansão de energia renovável na China supera 500 GW e redefine o cenário energético mundialPor Carolina Costa
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A China reafirmou sua posição como potência indiscutível na transição energética global ao adicionar uma capacidade recorde de energia eólica e solar ao longo de 2025. O volume de novas instalações superou o de todos os outros países combinados, impulsionado por uma política industrial agressiva e investimentos maciços que visam atingir a neutralidade de carbono nas próximas décadas.
Esse avanço monumental alterou fundamentalmente a matriz energética do país, com a capacidade de geração de fontes renováveis ultrapassando pela primeira vez a de fontes térmicas, como o carvão. A escala dos projetos, que transformam vastas áreas desérticas e costeiras em centros de produção de energia limpa, estabelece um novo paradigma para o desenvolvimento sustentável em escala global.
Embora o ritmo acelerado de crescimento tenha gerado desafios significativos para a infraestrutura de transmissão de energia, o governo chinês e as empresas estatais têm respondido com inovações tecnológicas e modernização da rede. Esse esforço coordenado garante que a produção massiva de eletricidade limpa seja efetivamente integrada ao sistema e chegue aos centros de consumo.
Capacidade instalada atinge patamares sem precedentes
Ao longo de 2025, a China alcançou números históricos que solidificaram sua liderança. Nos primeiros onze meses do ano, o país adicionou aproximadamente 275 gigawatts (GW) apenas em capacidade solar, um volume que eleva o total acumulado para níveis nunca antes registrados globalmente. A maior parte dessa expansão concentrou-se em províncias como Qinghai e Mongólia Interior, onde gigantescos parques fotovoltaicos ocupam agora regiões áridas que antes eram improdutivas. No setor eólico, as adições também foram expressivas, somando mais de 50 GW no primeiro semestre. A combinação de projetos onshore, instalados em planaltos com ventos constantes, e parques offshore, que aproveitam o potencial das zonas costeiras, contribuiu para esse crescimento robusto. O resultado consolidado marcou um ponto de virada: a capacidade total de geração de energia de fontes renováveis superou oficialmente a das usinas térmicas, sinalizando uma mudança estrutural e permanente no sistema elétrico chinês e um passo decisivo em direção às suas metas climáticas.
Inovação tecnológica impulsiona o setor eólico offshore
No início de 2026, a indústria de energia renovável da China demonstrou seu avanço tecnológico com a instalação da primeira turbina eólica offshore de 20 megawatts (MW) do mundo. O feito ocorreu na província de Fujian, uma região costeira conhecida por seus ventos fortes e condições marítimas desafiadoras.
Desenvolvida por um consórcio de empresas líderes, incluindo a Goldwind e a China Three Gorges, esta turbina gigante é capaz de gerar aproximadamente 80 milhões de quilowatts-hora (kWh) de eletricidade por ano. Essa produção é suficiente para abastecer cerca de 44 mil residências, evitando a emissão de milhares de toneladas de dióxido de carbono.
A instalação bem-sucedida desta unidade não apenas representa um marco na engenharia, mas também posiciona a China à frente de seus concorrentes internacionais em termos de potência unitária de turbinas. O sucesso da operação valida a capacidade do país de desenvolver e implementar tecnologias de ponta em ambientes operacionais complexos.
Os obstáculos da integração na rede elétrica nacional
O crescimento exponencial da geração de energia renovável trouxe consigo um desafio técnico significativo: o “curtailment”, ou desperdício de energia. Durante 2025, algumas províncias registraram um aumento nesta taxa, que ocorre quando a rede elétrica não consegue absorver toda a eletricidade gerada. No primeiro semestre, o índice de desperdício de energia solar atingiu 6,6% em certas regiões, especialmente no noroeste, onde a produção excedia a capacidade de transmissão local e a demanda.
Para enfrentar essa limitação, o governo chinês intensificou os investimentos na modernização da rede. Houve um aumento de 22% nos aportes para a infraestrutura de transmissão, com foco na construção de linhas de ultra-alta tensão (UHV) que podem transportar grandes volumes de eletricidade por longas distâncias, das regiões produtoras no oeste para os centros industriais no leste. Além disso, a implementação de tecnologias de rede inteligente e a promoção de reformas no mercado de energia visam otimizar o despacho e incentivar o consumo local de energia limpa, reduzindo perdas e melhorando a eficiência geral do sistema.
Projetos híbridos transformam regiões desérticas
Seguindo as diretrizes do 14º Plano Quinquenal, a China tem investido na construção de megaprojetos de energia renovável em suas vastas regiões desérticas, como o Gobi. Esses empreendimentos combinam geração solar e eólica em larga escala, criando bases energéticas com capacidade que se aproxima de 100 GW.
A abordagem híbrida é fundamental para a viabilidade desses complexos, pois a combinação das duas fontes, que possuem picos de geração em momentos diferentes, ajuda a estabilizar o fornecimento de energia à rede. A maioria desses projetos já inclui sistemas de armazenamento de energia em baterias.
Essa infraestrutura de armazenamento é crucial para mitigar a intermitência natural do sol e do vento, garantindo um fluxo de eletricidade mais constante e confiável. Com isso, a dependência de usinas de combustíveis fósseis para backup é significativamente reduzida.
Tecnologias avançadas são amplamente utilizadas nesses locais, como painéis solares bifaciais e sistemas de rastreamento automático que aumentam a eficiência da captação de luz, além de turbinas eólicas especialmente adaptadas para as condições de ventos variáveis dos planaltos, otimizando a produção energética.
Armazenamento de energia como pilar estratégico
O desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia em grande escala tornou-se uma prioridade estratégica para sustentar a expansão das fontes renováveis. Em 2025, a capacidade instalada de armazenamento em baterias em projetos específicos ultrapassou 3,4 gigawatts-hora, um indicativo claro do compromisso do país com essa tecnologia.
Essa infraestrutura é essencial para equilibrar a oferta e a demanda na rede elétrica, absorvendo o excesso de energia durante os picos de geração solar e eólica e injetando-a de volta no sistema quando a produção diminui. Essa capacidade de gerenciamento reduz a instabilidade e aumenta a confiabilidade das fontes intermitentes.
A liderança chinesa e as tensões no comércio global
A dominância da China na cadeia de suprimentos de energia renovável, onde controla mais de 80% da produção mundial de componentes-chave como painéis solares, gerou atritos comerciais em 2025. Países da Europa e os Estados Unidos adotaram medidas, como a imposição de barreiras tarifárias, em resposta ao volume crescente de exportações chinesas, alegando concorrência desleal. Apesar dessas tensões, a escala da produção chinesa tem sido um fator crucial para a redução dos custos de tecnologias limpas em todo o mundo, acelerando a transição energética em muitas nações em desenvolvimento através de investimentos e parcerias estratégicas.
Progresso rumo à neutralidade de carbono
Os avanços registrados em 2025 colocaram a China em uma trajetória sólida para alcançar suas metas climáticas, que preveem o pico de emissões antes de 2030 e a neutralidade de carbono até 2060. Com a capacidade combinada de eólica e solar ultrapassando 1,6 terawatts, as fontes renováveis responderam por mais de 90% de toda a nova capacidade de geração de energia adicionada ao sistema elétrico do país. A geração de eletricidade limpa cresceu 25% em comparação com o ano anterior, refletindo não apenas novas instalações, mas também a maturação de projetos iniciados anteriormente. Essa expansão massiva não apenas transforma o perfil energético doméstico, mas também exerce uma influência decisiva no cenário global de emissões, contribuindo de forma significativa para o cumprimento dos acordos climáticos internacionais.








