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O Sistema Único de Saúde (SUS) se prepara para integrar um tratamento inovador que une o saber popular à validação científica, marcando um avanço significativo na oferta de fitoterápicos. A iniciativa visa aprimorar o cuidado com distúrbios urinários, um problema de saúde pública com alta recorrência no cenário nacional.

A essência dessa novidade reside na quebra-pedra (Phyllanthus niruri), uma planta historicamente empregada na medicina tradicional brasileira. Reconhecida por suas propriedades no manejo de cálculos renais, ela será a base do primeiro medicamento fitoterápico industrializado por um laboratório público nacional, representando um salto para a saúde pública.

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Este projeto é um marco na bioeconomia e na autonomia farmacêutica do Brasil, fruto da colaboração estratégica entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A expectativa é que o produto chegue às unidades de saúde nos próximos dois anos, após rigorosas etapas de desenvolvimento e regulamentação.

O resgate da sabedoria ancestral e sua validação científica

O desenvolvimento deste medicamento é um testemunho da capacidade de transformar o conhecimento tradicional em soluções modernas e acessíveis para a população. Por gerações, o “remédio da vovó” foi transmitido oralmente, com o chá da quebra-pedra sendo um aliado em muitos lares para aliviar desconfortos relacionados ao sistema urinário. Agora, essa prática é elevada a um patamar de reconhecimento científico e validação.

A Fiocruz, por meio de seu Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), assumiu a liderança na pesquisa e desenvolvimento, aplicando rigor científico para isolar e padronizar os compostos ativos da planta. Este processo não apenas garante a segurança e eficácia do medicamento, mas também estabelece um precedente para a valorização de outras espécies da vasta biodiversidade brasileira com potencial terapêutico comprovado.

A eficácia da quebra-pedra para o trato urinário

A planta Phyllanthus niruri, popularmente conhecida como quebra-pedra, possui um histórico robusto de uso na medicina popular, mas sua atuação vai além do que o nome sugere. Embora não “quebre” as pedras já existentes, ela atua de forma preventiva e facilitadora.

Seu principal benefício reside na capacidade de inibir a formação e a agregação de cristais que dão origem aos cálculos renais, especialmente os de oxalato de cálcio, o tipo mais comum. Além disso, a planta contribui para:

* Ação diurética: Promove o aumento do fluxo urinário, auxiliando na eliminação de toxinas e na limpeza das vias urinárias.
* Efeito antiespasmódico: Ajuda a relaxar a musculatura do trato urinário, o que pode reduzir a dor associada à passagem de pequenas pedras e aliviar cólicas.
* Combate a infecções: Demonstra propriedades que auxiliam no controle de bactérias no ambiente urinário, contribuindo para a prevenção de infecções.

Estudos científicos têm corroborado esses efeitos, destacando a quebra-pedra como uma alternativa promissora para pacientes com histórico de litíase renal recorrente. A sua inclusão no SUS representa um passo importante na oferta de tratamentos baseados em evidências, mas com raízes na riqueza botânica do país.

Transformando a medicina popular em acesso padronizado no SUS

Até o momento, a utilização da quebra-pedra restringia-se principalmente ao preparo doméstico de chás e infusões, cujas dosagens e concentrações de princípios ativos variam significativamente. A industrialização do fitoterápico pela Fiocruz altera esse cenário de forma fundamental.

A produção em escala industrial garante a padronização do medicamento, assegurando que cada dose contenha a concentração exata e controlada dos compostos terapêuticos. Essa consistência é crucial para a eficácia e segurança do tratamento, eliminando as incertezas inerentes às preparações caseiras.

Outro pilar essencial dessa iniciativa é a segurança sanitária. O medicamento passará pelo crivo rigoroso da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que supervisiona todas as etapas desde a colheita da matéria-prima até a formulação final. Isso confere a ele o mesmo nível de confiança e qualidade de qualquer outro medicamento convencional disponível no SUS.

A disponibilidade gratuita do fitoterápico para pacientes que sofrem com cálculos renais recorrentes significa uma significativa melhoria no acesso a uma opção de tratamento preventivo de alta qualidade. Isso não só alivia o ônus financeiro para os indivíduos, mas também pode reduzir a demanda por procedimentos médicos mais invasivos e custosos a longo prazo.

Um avanço para a bioeconomia e a soberania farmacêutica brasileira

Este projeto é amplamente reconhecido como um marco estratégico para a bioeconomia nacional, evidenciando o potencial do Brasil em transformar seu vasto patrimônio genético em valor agregado e soluções para a saúde pública. Ao investir na pesquisa e desenvolvimento de medicamentos a partir de plantas nativas, o país fortalece sua capacidade de produzir insumos farmacêuticos localmente.

A Fiocruz, com seu papel central, ressalta a importância de consolidar a soberania nacional na produção de medicamentos, diminuindo a dependência de produtos importados. Essa autonomia não se limita apenas à esfera econômica, mas também à garantia da saúde da população, assegurando o acesso a tratamentos essenciais desenvolvidos com base em pesquisas adaptadas às realidades e necessidades brasileiras. O envolvimento do Ministério do Meio Ambiente e do PNUD reforça a visão de que a exploração sustentável da biodiversidade, aliada ao respeito pelo conhecimento tradicional, pode gerar benefícios múltiplos, tanto ambientais quanto sociais e econômicos.

Desafios e cronograma para a chegada do medicamento

O investimento inicial para o desenvolvimento do fitoterápico da quebra-pedra já alcançou R$ 2,4 milhões, um montante destinado a cobrir as complexas etapas de pesquisa, padronização e testes. Apesar dos avanços significativos, o caminho até a disponibilização plena do medicamento envolve fases rigorosas e essenciais.

A expectativa é que o medicamento comece a chegar às unidades de saúde do SUS dentro dos próximos dois anos. Este prazo é necessário para a conclusão dos lotes-piloto, que testam a produção em escala, e para a finalização das etapas regulatórias exigidas pela Anvisa, garantindo a qualidade e segurança do produto final antes de sua distribuição em massa.

A importância da orientação profissional no uso de fitoterápicos

Apesar da origem natural da quebra-pedra e de seu histórico de uso popular, é fundamental que a utilização do novo fitoterápico seja orientada e acompanhada por profissionais de saúde. A automedicação, mesmo com plantas medicinais, pode mascarar sintomas de problemas mais graves ou interagir com outros medicamentos. Com a chegada do fitoterápico ao SUS, médicos e outros profissionais das Unidades Básicas de Saúde (UBS) estarão capacitados para prescrever o tratamento de forma segura, monitorando seus efeitos e adequando-o às necessidades de cada paciente.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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