Motor superaquecido do Boeing 777-300 da Latam força interrupção de decolagem em Guarulhos, mostra documento do CenipaPor Luís Henrique Costa
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A decolagem de um Boeing 777-300 da Latam, com capacidade para cerca de 400 passageiros e destinado a Lisboa, Portugal, foi subitamente interrompida no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. A decisão foi tomada após a aeronave registrar uma indicação de temperatura acima do limite no motor número 2, conforme detalhado em um histórico de ocorrência registrado no Painel SIPAER do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira responsável pela segurança de voo no país.
O incidente ocorreu em um domingo, no dia 15 de fevereiro, e gerou momentos de apreensão e pânico entre os passageiros a bordo. Apesar do susto, os procedimentos de emergência foram executados de maneira eficaz, garantindo que ninguém ficasse ferido durante o evento, que já iniciava a subida quando foi abortado pelo comando da tripulação.
De acordo com o registro oficial, todos os protocolos previstos foram prontamente acionados e a decolagem foi paralisada com segurança. A aeronave conseguiu liberar a pista por meios próprios, sendo posteriormente encaminhada à equipe de manutenção para as devidas verificações e reparos necessários.
Classificação e acompanhamento da ocorrência
O Cenipa, por meio do Painel SIPAER, uma plataforma de consulta pública que compila registros e informações técnicas sobre incidentes aeronáuticos, classificou o evento como um incidente aeronáutico. Essa classificação indica que a ocorrência afetou, ou poderia afetar, a segurança do voo, mas sem resultar em um acidente com feridos ou danos graves à aeronave.
O órgão informou que o caso foi tratado em conformidade com o Anexo 19 da Convenção sobre Aviação Civil Internacional, que estabelece os protocolos globais de gestão da segurança operacional. Na prática, isso significa que o incidente foi integrado aos sistemas de monitoramento de segurança da aviação, permitindo que a operadora da aeronave o analise dentro de seus próprios procedimentos internos, visando à prevenção de futuras ocorrências.
O registro no Painel SIPAER foi documentado em um Reporte Final, que consolida todas as informações disponíveis sobre o caso. Este tipo de documento é informativo e preventivo, sem a emissão de um relatório final de investigação detalhada, uma vez que a natureza do evento não configurou um acidente grave.
Pânico entre passageiros e procedimentos de segurança
O momento da interrupção da decolagem causou grande apreensão. Vídeos amadores feitos por passageiros e registros do canal Aviação Guarulhos no YouTube capturaram a sequência do evento, que mostrou o avião freando bruscamente após já ter ganhado considerável velocidade na pista. Relatos de um casal de passageiros a bordo descreveram cenas de pânico, com pessoas chorando e em desespero dentro da cabine.
Bruna Pedrazzi, analista de planejamento financeiro e passageira do voo, descreveu a sensação: “A gente sentiu o avião subir. Sabe quando o trem de pouso sobe e a gente sente aquela pressão? Nesse instante em que subiu, na hora, deu uma descida, caiu. Pra gente que estava ali dentro, era como se tivesse despencado um prédio inteiro de altura, mas, quando a gente vê os vídeos, não foi tanto.” Após a rejeição da decolagem, os freios do avião aqueceram, exigindo a intervenção dos bombeiros para resfriamento.
O que significa abortar uma decolagem na aviação
Interromper uma decolagem, embora assustador para os passageiros, é um procedimento normal e seguro na aviação. Especialistas no setor explicam que essa decisão não é tomada de forma improvisada, mas sim baseada em cálculos técnicos precisos e protocolos de segurança rigorosos, estabelecidos muito antes de a aeronave entrar na pista. Limites específicos são definidos previamente, variando conforme as condições reais da aeronave e do aeroporto em questão.
Pelo Regulamento Brasileiro da Aviação Civil, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), cada decolagem é planejada a partir de uma velocidade crucial, conhecida como velocidade de decisão (V1). Este parâmetro é fundamental, pois delimita até que ponto é seguro abortar a decolagem e, inversamente, a partir de qual ponto a aeronave deve necessariamente prosseguir com o procedimento, mesmo que uma falha ocorra.
Importância da velocidade de decisão (V1)
A interrupção de uma decolagem pode ocorrer a qualquer momento a partir do início da corrida na pista. Os motivos para tal variação são diversos, englobando desde erros humanos e falhas técnicas ou de cálculo até problemas meteorológicos imprevistos ou mau funcionamento de componentes da aeronave, como o superaquecimento de um motor.
No caso específico do voo da Latam, embora a companhia não tenha divulgado o motivo exato, os passageiros foram informados pelo piloto sobre o superaquecimento de um dos motores. O avião já estava em alta velocidade e havia iniciado a fase de elevação quando freou bruscamente, requerendo a ação dos bombeiros para resfriar os pneus.
Segundo o comandante Décio Correa, presidente do Fórum Brasileiro para o Desenvolvimento da Aviação Civil, em situações como a do Boeing da Latam, onde há uma indicação de superaquecimento, o risco não pode ser assumido. “No caso do Boeing 777-300, como é um avião bimotor, de maneira nenhuma pode-se arriscar uma decolagem se você tem, por exemplo, alguma indicação de temperatura alta que possa comprometer. Com isso, razão total para que aborte a decolagem se há condições de abortar”, explicou.
Correa ressalta que abortar é um procedimento normal e esperado de qualquer aviador em face de um indicativo de problema, garantindo a segurança de todos a bordo. Ele detalha que a decisão do piloto depende de uma análise minuciosa de fatores como comprimento da pista, temperatura ambiente e peso da aeronave, que juntos determinam a V1.
Fatores que influenciam o cálculo da V1
A velocidade V1 não é um número fixo. De acordo com Geraldo Portela, especialista em gerenciamento de risco, essa velocidade é dinamicamente calculada pelo computador de bordo da aeronave para cada voo. Vários critérios são ponderados para essa definição:
- Peso da aeronave: Aeronaves mais pesadas exigem maior velocidade para atingir a sustentação necessária para a decolagem, elevando a V1.
- Condições da pista: O comprimento da pista, sua inclinação e as condições de superfície (seca, molhada, contaminada) influenciam diretamente.
- Altitude e condições atmosféricas do aeroporto: Em altitudes elevadas ou com ar menos denso, são necessárias velocidades maiores para gerar sustentação.
- Configuração de flaps: A posição dos flaps nas asas afeta a sustentação e o arrasto durante a corrida de decolagem.
Portela enfatiza que o computador de bordo busca um equilíbrio matemático entre todas essas variáveis, definindo a V1 ideal para aquela condição específica. Ele conclui que, “a aeronave é ajustada para a sua condição real naquele aeroporto, com aquela carga, naquele dia específico”, desmistificando a ideia de uma velocidade padrão.
Regulamentação da Anac para falhas de motor
O Regulamento Brasileiro da Aviação Civil estabelece diretrizes claras para situações de falha de motor durante a decolagem. Se a falha ocorrer antes de a aeronave atingir a velocidade de decisão (V1), o protocolo exige que a decolagem seja abortada. Nesta condição, a aeronave ainda possui capacidade para parar de forma segura dentro da distância disponível na pista, uma vez que a velocidade é menor e a interrupção pode ser gerenciada eficazmente com ação imediata.
Por outro lado, se a falha do motor acontecer após a velocidade de decisão ter sido atingida, o regulamento determina que a aeronave já dispõe de velocidade e potência suficientes para completar a decolagem com segurança, utilizando a distância restante na pista. Tentar parar a aeronave neste estágio seria inadequado e perigoso, pois a alta velocidade tornaria inviável uma frenagem segura dentro do espaço disponível.
Posicionamento das companhias e aeroporto
A Latam Airlines Brasil emitiu um comunicado esclarecendo que a interrupção da decolagem do voo LA8146 (Guarulhos-Lisboa) foi um “procedimento efetuado em total segurança e é o protocolo previsto para esse tipo de situação”. A companhia aérea assegurou ter prestado toda a assistência aos clientes, que foram desembarcados e reacomodados em hotéis e outros voos, reforçando que a segurança é um valor inegociável e uma prioridade em todas as suas operações, seguindo os mais elevados padrões técnicos e regulatórios.
A GRU Airport, concessionária responsável pela administração do Aeroporto de Guarulhos, também se manifestou, confirmando que a decolagem do voo 8146 foi abortada em um “procedimento padrão de segurança”. A concessionária informou que a equipe de combate a incêndio foi acionada conforme o protocolo, e a aeronave se deslocou por meios próprios para uma área segura. A GRU Airport finalizou a nota afirmando que não houve feridos e que a operação do aeroporto seguiu sem interrupções significativas.







