Diretora da Conmebol critica domínio de clubes brasileiros e alerta para avanço das SAFsPor Thiago Lemos
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A diretora jurídica e secretária-geral adjunta da Conmebol, Montserrat Jiménez, expressou preocupação com o atual cenário de hegemonia dos clubes brasileiros nas competições continentais. Durante sua participação no Football Law Annual Review (FLAR), evento organizado pela Fifa em Budapeste, na Hungria, a dirigente foi enfática ao abordar a disparidade financeira que isola o Brasil das demais nove federações da América do Sul. O debate central girou em torno das redes multiclubes e como a transformação das associações em Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) está acelerando esse processo de distanciamento técnico e econômico.
Jiménez afirmou abertamente que não vê com bons olhos a sequência de finais compostas exclusivamente por equipes do Brasil, fenômeno que se repetiu em cinco das últimas oito decisões da Copa Libertadores. Segundo a executiva, a tendência é que o descolamento financeiro aumente drasticamente nos próximos anos, dificultando a manutenção do equilíbrio competitivo no continente. A análise leva em conta que, com exceção de 2018, o domínio brasileiro tem sido absoluto, acumulando títulos consecutivos desde 2019 e igualando o número histórico de conquistas da Argentina na principal competição da região.
As projeções apresentadas no painel indicam uma mudança estrutural profunda no mercado nacional, com a estimativa de que quase a totalidade dos clubes da Série A se tornem empresas até o final da década. Essa transição coloca as instituições brasileiras em uma rota de investimentos globais em uma velocidade que a dirigente classificou como “500 km/h”. O movimento é visto como uma resposta necessária às exigências de uma indústria que demanda aportes superiores aos arrecadados apenas com direitos de transmissão e patrocínios tradicionais, consolidando um novo padrão de gestão esportiva.
- Hegemonia brasileira: 11 títulos nas últimas 15 edições da Copa Libertadores da América.
- Modelo de gestão: Adoção em massa das SAFs como motor de investimento e profissionalização.
- Impacto regional: Crescimento da distância econômica entre o Brasil e os vizinhos sul-americanos.
- Calendário: Sorteio das fases de grupos das competições continentais previsto para 19 de março.
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— CONMEBOL Recopa (@ConmebolRecopa) February 27, 2026
Desafios na fiscalização e os riscos do capital externo no futebol sul-americano
A implementação acelerada do modelo empresarial no futebol traz consigo complexidades jurídicas que desafiam os órgãos reguladores e as confederações esportivas. Montserrat Jiménez alertou para a dificuldade extrema em fiscalizar a origem dos recursos que alimentam as redes multiclubes, mencionando o risco de entrada de capitais ilícitos no ecossistema esportivo. A preocupação reside na transparência financeira, uma vez que o volume de dinheiro necessário para manter a competitividade atual ultrapassa as receitas operacionais históricas da maioria dos clubes do continente.
O debate em Budapeste também evidenciou a resistência de outros países em adotar o modelo de clube-empresa, como é o caso da Argentina. Representantes da Associação de Futebol da Argentina (AFA) defenderam a manutenção do modelo de associações civis sem fins lucrativos, sob o argumento de preservar a função social e a tradição cultural das agremiações locais. Essa divergência de visões acentua ainda mais o abismo que se forma entre o modelo de negócios praticado no território brasileiro e as práticas vigentes nos países vizinhos, que priorizam o impacto comunitário em detrimento do lucro.
A dirigente ressaltou que a necessidade de investimentos elevados é uma realidade da qual o futebol moderno não pode fugir, mas ponderou sobre os efeitos colaterais dessa transformação. Para a Conmebol, o desafio é encontrar um equilíbrio que permita o desenvolvimento econômico sem destruir a essência competitiva do torneio, evitando que a Libertadores se torne uma extensão do campeonato nacional brasileiro. A fiscalização rigorosa surge como a única ferramenta capaz de garantir que a integridade das competições seja preservada diante da avalanche de novos investidores internacionais.
Preocupação com a formação de novos talentos nas redes multiclubes
Um dos pontos mais sensíveis abordados pela secretária-geral adjunta refere-se ao futuro das categorias de base no contexto das redes multiclubes. Jiménez argumentou que o foco excessivo na rentabilidade imediata pode comprometer o investimento em formação, que é historicamente uma das funções primordiais dos clubes sul-americanos. Na visão da executiva, o processo de formar um jogador profissional envolve um custo elevado e um risco de retorno baixo, já que apenas uma pequena fração dos jovens atinge o nível de elite necessário para gerar lucro.
Essa mudança de paradigma preocupa a entidade máxima do futebol sul-americano devido ao papel social exercido pelo esporte na região, especialmente no resgate de jovens em situação de vulnerabilidade. Se a formação deixar de ser vista como um investimento estratégico para se tornar apenas um custo contábil dentro de uma estrutura corporativa, o impacto social pode ser devastador em longo prazo. A diretora enfatizou que o futebol cumpre uma missão que vai além das quatro linhas, e a mecanização da indústria através de holdings internacionais coloca essa missão em xeque.
A estrutura das MCOs (Multi-Club Ownership) tende a priorizar a movimentação de atletas entre clubes de uma mesma rede, muitas vezes visando o mercado europeu como destino final. Isso pode esvaziar a qualidade técnica das ligas locais e transformar os clubes sul-americanos em meros entrepostos de talentos, sem o compromisso de desenvolver o esporte nacional de forma sustentável. A manutenção do investimento em milhões de garotos para que poucos se profissionalizem é um modelo que pode não se encaixar na lógica de lucro rápido imposta por alguns conglomerados financeiros.
Calendário e preparativos para as finais continentais de 2026
Enquanto o debate sobre a economia do futebol avança nos bastidores jurídicos, o cronograma das competições para a temporada atual segue o planejamento estabelecido pela Conmebol. O sorteio que definirá os grupos da Libertadores e da Copa Sul-Americana está agendado para o dia 19 de março, em Assunção, no Paraguai. Este evento é o ponto de partida para as equipes brasileiras que buscam manter a hegemonia e para os rivais continentais que tentam quebrar a sequência de títulos do país, em um ano que promete ser decisivo para a consolidação das SAFs.
As sedes das grandes decisões já estão confirmadas, com a final da Libertadores retornando a Montevidéu, no Uruguai, palco de grandes momentos históricos do futebol mundial. Já a Copa Sul-Americana terá seu campeão decidido em Barranquilla, na Colômbia, reforçando a descentralização dos eventos finais proposta pela confederação. A escolha das sedes reflete a tentativa da entidade de manter a relevância regional de outros centros, mesmo diante do domínio técnico e financeiro que as equipes do Brasil demonstram dentro de campo atualmente.
A expectativa para este ano é observar se a superioridade orçamentária continuará se traduzindo em resultados práticos ou se haverá uma reação das federações vizinhas. O alerta feito por Jiménez em Budapeste serve como um chamado à reflexão para todos os atores envolvidos na gestão do futebol na América do Sul. A busca por um modelo que garanta a sustentabilidade financeira sem sacrificar a competitividade e a função social dos clubes permanece como o principal desafio jurídico e administrativo para a Conmebol nos próximos ciclos.
Panorama do futebol brasileiro frente aos vizinhos sul-americanos
A disparidade econômica citada pela diretora da Conmebol é sustentada por números que colocam as receitas das principais equipes brasileiras em um patamar comparável a clubes de ligas intermediárias da Europa. Enquanto os clubes do Brasil conseguem realizar contratações de peso e repatriar jogadores com carreiras consolidadas no exterior, os rivais de outros países enfrentam crises financeiras profundas e desvalorização de suas moedas locais. Esse cenário cria um ciclo onde o sucesso esportivo gera mais receita, que por sua vez permite novos investimentos, perpetuando o domínio observado nas últimas edições.
As redes multiclubes intensificam esse processo ao conectar clubes nacionais a grupos que gerenciam diversas equipes ao redor do mundo, compartilhando tecnologias de scout, métodos de treinamento e capacidade de crédito. O Brasil tornou-se o principal laboratório desse modelo na América do Sul devido ao tamanho de seu mercado consumidor e à qualidade técnica de seus atletas. A transformação jurídica permitiu que capitais que antes passavam longe do esporte agora fluam diretamente para as contas das novas empresas esportivas, alterando a dinâmica do mercado de transferências.
Para a Conmebol, a tarefa de equilibrar o campo de jogo passa pela criação de mecanismos de controle financeiro e regras de fair play que possam ser aplicadas de forma uniforme em todos os países membros. Entretanto, a aplicação dessas normas é complexa dada a diversidade de legislações nacionais em cada país sul-americano. O descolamento econômico, portanto, não é apenas um fenômeno esportivo, mas uma consequência de reformas estruturais que o Brasil implementou e que outros países ainda relutam ou encontram dificuldades políticas para seguir, mantendo a tensão sobre o futuro da Libertadores.
O papel da tecnologia e da inovação na gestão dos novos clubes-empresa brasileiros
A modernização das gestões através das SAFs trouxe para o futebol brasileiro ferramentas de análise de dados e inteligência artificial que antes eram exclusivas de grandes corporações ou clubes europeus de elite. O uso de métricas avançadas para a contratação de jogadores e a otimização de processos administrativos reduziu as margens de erro nas decisões estratégicas, contribuindo para a eficiência financeira que a Conmebol tanto destaca. Essa profissionalização atrai investidores que buscam segurança jurídica e previsibilidade, algo raro no antigo modelo de associações geridas por dirigentes amadores ou voluntários.
A inovação não se restringe apenas ao campo, mas atinge também a experiência do torcedor e a exploração de novas fontes de receita, como licenciamentos digitais e ativos tecnológicos. Ao tratar o clube como uma plataforma de entretenimento global, os proprietários das redes multiclubes conseguem extrair valor de mercados que antes eram ignorados. Esse faturamento extra é o que permite ao Brasil sustentar folhas salariais que hoje são proibitivas para gigantes tradicionais do continente, como os clubes uruguaios e paraguaios, que veem seus ídolos migrarem para o mercado brasileiro cada vez mais cedo.
Perspectivas para o sorteio e as próximas fases das competições continentais
Com o sorteio de março se aproximando, os clubes brasileiros entram na competição como francos favoritos, carregando a responsabilidade de defender uma invencibilidade histórica em finais. A preparação das equipes nacionais para a Libertadores deste ano reflete a solidez financeira mencionada por Montserrat Jiménez, com investimentos pesados em pré-temporadas e reforços internacionais. O objetivo das equipes é manter o troféu no país e ampliar ainda mais o recorde de títulos consecutivos, consolidando o Brasil como o epicentro do futebol sul-americano na era das sociedades anônimas.
O clima entre os dirigentes da Conmebol é de vigilância constante sobre como essa transformação impactará a marca “Libertadores” globalmente. Se por um lado o nível técnico aumenta com a presença de grandes estrelas no Brasil, por outro, a previsibilidade dos resultados pode afetar o interesse de audiências em outros países da região. O equilíbrio entre o crescimento industrial e a paixão competitiva que define o torneio será o grande tema de debate ao longo de toda a temporada de 2026, com os olhos do mundo voltados para o modelo de sucesso — e os riscos — do futebol brasileiro.







