Hegemonia de times do Brasil e avanço das SAFs preocupam direção da Conmebol em evento na EuropaPor Jeronimo Santos
8 min de leitura
![]() |
A disparidade técnica e financeira entre o futebol brasileiro e as demais federações da América do Sul tornou-se o centro de um debate acalorado durante o Football Law Annual Review (FLAR), evento realizado pela Fifa em Budapeste, na Hungria. Montserrat Jiménez, diretora jurídica e secretária-geral adjunta da Conmebol, utilizou o palco europeu para expressar uma preocupação crescente da entidade com o isolamento econômico do Brasil no continente. A dirigente destacou que a transformação maciça das associações em Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) criou um abismo competitivo que ameaça a integridade esportiva dos torneios regionais.
O cenário descrito pela executiva aponta para uma aceleração sem precedentes nos investimentos dentro do mercado brasileiro, impulsionada pela entrada de capital estrangeiro e pela profissionalização da gestão esportiva. Enquanto os clubes do Brasil operam em uma velocidade comparada por Jiménez a “500 km/h”, as outras nove federações sul-americanas lutam para manter suas operações básicas, enfrentando desvalorização cambial e fuga de talentos. Essa assimetria resultou em um domínio quase absoluto nas competições da Conmebol, com brasileiros vencendo cinco das últimas oito edições da Copa Libertadores.
🔝🏆 ¡Bienvenido, @clublanus! Hay un nuevo campeón de la CONMEBOL #Recopa pic.twitter.com/2FGnpULXJZ
— CONMEBOL Recopa (@ConmebolRecopa) February 27, 2026
Para a entidade máxima do futebol sul-americano, a repetição de finais compostas exclusivamente por times de um único país não é vista como um sinal de saúde do torneio, mas como um sintoma de desequilíbrio estrutural. A previsão é que, até o final da década, praticamente todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tenham migrado para o modelo empresarial, consolidando ainda mais essa hegemonia. O temor é que a Libertadores perca seu caráter continental e se transforme, na prática, em uma extensão das competições nacionais do Brasil, reduzindo o interesse de torcedores e patrocinadores de outras nações.
Impactos das redes multiclubes e desafios de fiscalização
A ascensão das redes multiclubes, onde um mesmo grupo econômico detém o controle de diversas agremiações em diferentes países, traz desafios jurídicos complexos para a regulação do esporte. Jiménez alertou para a dificuldade extrema em rastrear a origem dos recursos financeiros que sustentam essas operações globais. A falta de transparência em alguns desses movimentos gera o risco de que o futebol seja utilizado para a entrada de capitais ilícitos, uma vez que o volume de dinheiro circulando no ecossistema das SAFs ultrapassa largamente as receitas tradicionais de bilheteria e direitos de transmissão.
A fiscalização desse novo modelo de negócios exige uma atualização constante das ferramentas de controle da Conmebol e das federações nacionais. O sistema tradicional de fair play financeiro, desenhado para associações civis sem fins lucrativos, muitas vezes se mostra insuficiente para lidar com a engenharia financeira de grandes conglomerados internacionais. A diretora enfatizou que a integridade das competições depende da capacidade dos reguladores de garantir que todos os participantes sigam as mesmas regras, algo que se torna cada vez mais difícil diante da disparidade legislativa entre os países do bloco.
Além das questões de conformidade, existe o receio de que as decisões estratégicas dos clubes passem a ser tomadas em escritórios distantes da realidade sul-americana, priorizando o lucro em detrimento da paixão e da história local. A transformação dos clubes em ativos financeiros globais altera a dinâmica de poder e pode enfraquecer a soberania das instituições esportivas regionais. A Conmebol busca mecanismos para assegurar que o investimento externo seja um motor de desenvolvimento sustentável, e não apenas uma ferramenta de exploração comercial de curto prazo.
Resistência cultural e o contraponto argentino
Enquanto o Brasil avança rapidamente na adoção do modelo empresarial, outros mercados tradicionais do continente, como a Argentina, mantêm uma postura de resistência. Durante o painel na Hungria, representantes da Associação de Futebol da Argentina (AFA) reiteraram a defesa do modelo de associações civis sem fins lucrativos. O argumento central dos vizinhos é a preservação da função social dos clubes, que historicamente atuam como centros comunitários e de formação cidadã, papéis que poderiam ser negligenciados em uma gestão puramente corporativa.
Essa divergência filosófica e estrutural aprofunda o fosso econômico entre os dois gigantes do futebol sul-americano. Enquanto os brasileiros conseguem captar recursos no mercado financeiro e atrair investidores de peso, os clubes argentinos dependem de receitas orgânicas e vendas de jogadores para fechar as contas. O resultado prático é a incapacidade dos times da Argentina e de outros países em competir pelos principais talentos, vendo seus elencos serem desmantelados cada vez mais cedo, muitas vezes para reforçar os próprios rivais brasileiros.
A Conmebol se vê diante do desafio de harmonizar essas duas realidades distintas dentro de um mesmo ecossistema competitivo. A entidade reconhece a necessidade de modernização e injeção de capital, mas também valida a importância cultural do modelo associativo. O equilíbrio buscado envolve criar condições para que os clubes que optarem por não virar empresas ainda possam ser competitivos, evitando que o torneio continental se torne um monólogo financeiro ditado apenas por quem aderiu às SAFs.
Riscos para a formação de atletas e função social
Um ponto sensível levantado por Montserrat Jiménez diz respeito ao futuro das categorias de base sob a gestão de grandes holdings. A formação de jogadores na América do Sul sempre cumpriu um papel social vital, oferecendo oportunidades de ascensão para jovens em situação de vulnerabilidade. No entanto, o processo de revelar talentos é custoso e de alto risco, características que muitas vezes conflitam com a lógica de maximização de lucros imediatos imposta por empresas focadas em resultados trimestrais.
Existe o temor de que as redes multiclubes transformem as equipes sul-americanas em meros entrepostos de talentos, focando apenas na captação de atletas que possam ser revendidos para a Europa com alta margem de lucro. Isso poderia levar a um desinvestimento na formação ampla e social, concentrando recursos apenas em uma elite restrita de promessas com valor de mercado claro. Se a base deixar de ser vista como um pilar institucional para se tornar apenas uma linha de custo, o impacto na qualidade técnica e no tecido social do futebol regional pode ser devastador a longo prazo.
A mecanização da indústria também ameaça a identidade dos clubes formadores, que correm o risco de perder a conexão com suas comunidades locais. A diretora da Conmebol ressaltou que o futebol vai além das quatro linhas e que a preservação dessa essência é fundamental. A entidade estuda formas de incentivar que os investimentos das SAFs contemplem obrigatoriamente o desenvolvimento das categorias de base e a manutenção de programas sociais, garantindo que o fluxo de dinheiro deixe um legado positivo para a sociedade.
Calendário definido e expectativas para a temporada
Em meio aos debates sobre o futuro econômico do esporte, a Conmebol segue com o cronograma das competições continentais de 2026. O sorteio das fases de grupos da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana está confirmado para o dia 19 de março, em evento a ser realizado na sede da entidade, em Luque, no Paraguai. Este momento marcará o início oficial da disputa, onde a teoria sobre a hegemonia brasileira será novamente testada na prática dos gramados.
As sedes das finais únicas já foram estabelecidas, reforçando a estratégia de descentralização e valorização de diferentes praças esportivas. A decisão da Libertadores retornará ao histórico Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai, palco que evoca a tradição do futebol mundial. Já a final da Copa Sul-Americana será disputada em Barranquilla, na Colômbia, levando o clímax do torneio para o norte do continente. Essas escolhas buscam manter a chama do futebol acesa em toda a região, independentemente da nacionalidade dos finalistas.
A expectativa para a temporada é de que a superioridade orçamentária dos brasileiros continue sendo um fator determinante, mas a Conmebol espera que as medidas de gestão e as estratégias esportivas dos demais países possam oferecer alguma resistência. O ano de 2026 promete ser um divisor de águas, onde o modelo de SAFs será colocado à prova não apenas como solução financeira, mas como modelo de governança capaz de conviver — ou não — com a tradição do futebol sul-americano.







