Tradições do equinócio da primavera no Japão: compreenda as nuances de botamochi e ohagiPor Bruna
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O Japão se prepara para o período Higan da primavera, um evento cultural e espiritual de sete dias que se inicia em 17 de março, uma terça-feira, e culmina com o feriado nacional do Equinócio da Primavera, celebrado em 20 de março, uma sexta-feira, no ano de 2026. Essa época é tradicionalmente dedicada à reverência aos ancestrais, marcando um momento de reflexão e homenagem aos falecidos, quando muitas famílias visitam os túmulos de seus entes queridos. Durante este período significativo, é costumeiro consumir e oferecer doces específicos, conhecidos como botamochi e ohagi, que, embora aparentemente idênticos, carregam distinções sutis e ricas em história.
A observância do Higan se estende por três dias antes e três dias depois do Equinócio, sendo o primeiro dia nomeado “Higaniri” (início do Higan) e o último, 23 de março, uma segunda-feira, denominado “Higanake” (fim do Higan). Esta tradição milenar se manifesta na culinária, onde o botamochi é consumido na primavera e o ohagi no outono, servindo tanto como oferendas em altares budistas quanto como lanches para serem compartilhados em família.
Apesar da semelhança visual, a diferença entre o botamochi e o ohagi vai além da estação do ano em que são preparados, mergulhando em detalhes de nomenclatura, origem e simbolismo, que revelam a profundidade da cultura alimentar japonesa. A compreensão dessas nuances enriquece a experiência de participar e valorizar essa herança cultural.
O significado cultural do período Higan
O período Higan é uma celebração que transcende a simples mudança de estação, representando uma oportunidade para os japoneses se conectarem com sua ancestralidade. É um dos dois períodos do ano, junto com o equinócio de outono, em que se acredita que o mundo dos vivos e o mundo dos espíritos estão mais próximos, facilitando as orações e as memórias dedicadas aos que já partiram. A visita aos túmulos e a limpeza das lápides são atos comuns que reforçam a importância da família e da continuidade das gerações.
Além das visitas aos cemitérios, as casas também são preparadas para o Higan, com a montagem de pequenos altares e a realização de oferendas que visam honrar os antepassados. Este ritual fortalece os laços comunitários e familiares, transmitindo valores de respeito e gratidão entre as gerarações. O período é de introspecção e também de renovação, simbolizando o ciclo da vida e da natureza.
Distinções entre botamochi e ohagi na tradição japonesa
À primeira vista, botamochi e ohagi podem parecer o mesmo tipo de doce, ambos feitos de arroz levemente amassado e cobertos com pasta de feijão doce (anko). Contudo, a especialista Tomoko Kitano, representante do Instituto de Eventos Sazonais e Cultura Alimentar, elucida que suas distinções remontam a séculos de tradição e observação da natureza. Conforme o “Honcho Shokkan” de 1695, um importante livro sobre culinária japonesa, os doces eram originalmente considerados a mesma iguaria, com o botamochi sendo também referido como “Hagi no Hana”.
A razão para a diferença nos nomes está diretamente ligada às estações do ano e às flores que as representam. Durante o equinócio da primavera, o doce recebe o nome de botamochi, em alusão à flor de peônia (botan), que floresce vigorosamente nesta estação, e cuja forma e cor são lembradas no doce. Já no equinócio de outono, o doce é chamado de ohagi, inspirado na flor de trevo-arbustivo (hagi), que desabrocha no outono, evocando a delicadeza e a beleza da flor.
Essas descrições são detalhadas em documentos históricos como o “Wakan Sansai Zue” de 1712, que afirma a nomenclatura dos doces derivar de suas formas e cores. No final do período Edo, em “Seji Hyakudan” (1844), o botamochi é descrito como bolinhos de arroz que, dispostos em uma bandeja, assemelham-se a uma peônia. O ohagi, por sua vez, é explicado como um doce que lembra uma flor de trevo-arbustivo, frequentemente recebendo o prefixo honorífico “O” na linguagem feminina de Kyoto, tornando-se “Ohagi”, um fenômeno linguístico similar ao “Manju” virar “Oman”.
Origens históricas dos doces kaimochi
A história do botamochi e do ohagi é bastante antiga, com registros que sugerem a existência de doces semelhantes desde o período Kamakura, por volta de 1210 a 1331. Naquela época, a iguaria era conhecida como “kaimochi” e era servida em banquetes e ocasiões especiais. Há uma teoria de que “kaimochi” seria uma variação fonética de “kakimochii”, que por sua vez seria uma corruptela de “kakinerimochi” ou “kayumochi”.
O termo “kaimochi” pode ser encontrado em textos clássicos da literatura japonesa, como o “Uji Shūi Monogatari”, escrito entre 1210 e 1221, e o “Tsurezuregusa”, datado de 1330 a 1331. Embora não haja uma data precisa para a transição do nome “kaimochi” para “botamochi”, fica claro que a base para esses doces já estava estabelecida durante o período Kamakura, demonstrando uma longa trajetória na culinária e cultura japonesa.
A evolução dos nomes e a popularização desses doces ao longo dos séculos refletem não apenas as mudanças linguísticas, mas também a crescente importância da sazonalidade e do simbolismo na alimentação japonesa. A adaptabilidade da receita, que permaneceu em essência a mesma, mas ganhou diferentes identidades, é um testemunho da riqueza cultural do país.
Variações regionais e apelidos inusitados
Mesmo que “ohagi” seja atualmente o nome mais comum em todo o Japão para se referir a esses doces, a história revela uma rica tapeçaria de variações regionais. No passado, existia uma teoria de que “ohagi” era mais difundido em Tóquio, enquanto “botamochi” era predominante em Osaka, evidenciando uma diversidade cultural mesmo dentro do mesmo país. Documentos como o “Butsurui Shōgo”, um dicionário de nomes de comidas, listam uma série de termos distintos para a iguaria em diferentes províncias.
Esses nomes incluem “kaimochi” nas regiões de Kansai e no sul de Ishikawa, “nabeshirimochi” na província de Akita, “mochi no meshi” em Tochigi, leste de Fukui e Niigata, e “gōhan” no norte de Chiba. Essa variedade não apenas mostra a adaptabilidade da receita, mas também a criatividade popular em nomear os alimentos. Alguns apelidos são particularmente curiosos e carregam um toque de humor ou jogo de palavras.
Por exemplo, como o arroz para mochi é apenas parcialmente socado, o termo “tsukishirazu” (que significa “não saber quando está sendo socado”) evoluiu para “tsukishirazu” (que significa “não saber quando chega”), e doces são ocasionalmente chamados de “yobune” (barco noturno), uma metáfora para algo cuja chegada é incerta. Outros nomes incluem “tonarishirazu” (não conhecer o vizinho), “kitamado” (janela norte) de “tsukiirirazu” (não se pôr na lua), e “hogacho” (um livro de doações) devido à natureza “meio socada” do arroz. Um apelido notável é “hankoroshi” (meio morto), que se refere jocosamente ao fato de o arroz não ser completamente pulverizado.
O simbolismo das oferendas anko
O costume de oferecer botamochi durante o equinócio de primavera e ohagi no equinócio de outono é uma prática enraizada desde o período Edo. Durante esses períodos, era comum não apenas oferecer o doce diante de Buda e nos altares ancestrais, mas também trocar botamochi com vizinhos e parentes, fortalecendo os laços sociais e comunitários. Acredita-se que a razão para a escolha desses doces específicos para as oferendas resida em uma antiga crença popular japonesa: a de que o feijão vermelho (ingrediente principal da pasta anko) possui propriedades capazes de afastar maus espíritos e prevenir doenças. Essa crença se entrelaçou com a veneração dos ancestrais, tornando o botamochi e o ohagi oferendas perfeitas para a ocasião, simbolizando proteção e respeito. Historicamente, além dos equinócios, o botamochi também era preparado e oferecido no 49º dia após um falecimento e no dia do javali, que ocorria no décimo mês do calendário lunar, indicando a importância multifacetada desses doces em rituais e celebrações ao longo do ano.
Preservando antigas tradições culinárias
O botamochi, que floresce na primavera como a peônia, e o ohagi, que evoca a flor do trevo-arbustivo do outono, são mais do que simples doces; são portadores de uma rica herança cultural. Seus nomes podem variar, mas o significado de honrar os ancestrais e celebrar a passagem das estações permanece. À medida que o período do equinócio se aproxima, apreciá-los é uma forma de manter viva uma tradição ancestral.







