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Renault Koleos chega ao Brasil com tecnologia híbrida, mas decepciona no consumo

Renault Koleos esprit Alpine full Hybrid E-Tech - Divulgação
Foto: Renault Koleos esprit Alpine full Hybrid E-Tech - Divulgação

A Renault finalmente cumpriu uma promessa de quase uma década. O Koleos, SUV que foi testado no Brasil em 2017 mas nunca lançado, chega às lojas a partir de R$ 289.990 como primeiro modelo híbrido pleno da marca no país. A versão escolhida é a Esprit Alpine, trazendo elementos da histórica divisão de esportivos franceses, com design elegante e requintado, mas o desempenho de combustão não acompanha as expectativas.

O SUV mediano chega com um conjunto mecânico totalmente importado da Geely Monjaro, de origem sul-coreana, resultado de parceria entre Renault e Geely. Motor 1.5 turbo a gasolina com 144 cavalos, dois motores elétricos e câmbio automático DHT de três marchas formam a propulsão. A potência combinada de 245 cavalos coloca o Koleos acima de rivais diretos como GAC GS4 e Omoda 5, mas bem abaixo da promessa de economia que modelos híbridos costumam fazer.

Promessa elétrica não se confirma na prática

Renault

A bateria de apenas 1,64 kWh limita significativamente o desempenho elétrico do Koleos. A Renault afirma que 75% dos trajetos urbanos podem ser feitos em modo só elétrico, mas os testes reais indicam resultado muito diferente. Mesmo com o modo Eco ativado, o motor 1.5 foi requisitado com frequência constante, reduzindo a eficiência do sistema híbrido. Uma bateria maior garantiria alcance elétrico mais longo e melhor aproveitamento da tecnologia.

Os cinco modos de condução disponíveis — Comfort, Sport, Neve, IA e o padrão — oferecem flexibilidade, mas nem todos compensam a fraca performance elétrica. O modo Sport aumenta a frequência de acionamento do motor a gasolina, enquanto o IA pretende usar inteligência artificial para ajustar parâmetros, sem explicações claras da marca sobre o funcionamento.

Consumo real fica distante das expectativas híbridas

Os números de consumo mensurável frustraram as expectativas. No teste de rua realizado com ar-condicionado constantemente ligado, o Koleos marcou 13,7 km/l na cidade e 14,4 km/l na estrada. Ao contrário de 99% dos híbridos, que economizam mais no ciclo urbano, o Renault consumiu menos gasolina em rodovia. Com tanque de 55 litros, a autonomia aproxima-se de 800 quilômetros, valor satisfatório apenas em comparação com SUVs tradicionais não híbridos.

A promessa de baixíssimo consumo, típica de publicidade de carros eletrificados, simplesmente não se materializou. O preço de quase R$ 100 mil acima do GWM Haval H6 HEV, que oferece apenas dois cavalos a menos, ressalta ainda mais essa limitação. Ainda que o Koleos custe mais, a economia que deveria compensar o investimento não existe.

Design francês e acabamento premium compensam parcialmente

O visual requintado acompanha a proposta de eletrificação. Grade frontal mesclando plástico preto brilhante e detalhes azuis em forma de diamantes remetem à divisão Alpine, assim como rodas esportivas de 20 polegadas e acabamentos internos no mesmo tom. Lanternas interligadas e faróis full-LED com projetores inteligentes reforçam a elegância geral. Os 4,78 metros de comprimento e design vincado compõem um conjunto visualmente acima da média para SUVs de seu porte.

O isolamento acústico representa ponto raro em veículos híbridos ou de marcas não premium. Manta espessa no capô e vidros dianteiros duplos reduzem significativamente o ruído do motor e pneus em velocidades de cruzeiro. Essa atenção ao conforto sonoro é incomum em carros da faixa de preço, mostrando capricho da engenharia francesa neste quesito específico.

Equipamentos e tecnologia em nível de marcas premium

A lista de recursos do Koleos impressiona pela extensão e qualidade. Três telas de 12,3 polegadas — instrumento, central multimídia e painel do passageiro — vêm diretamente do Monjaro, assim como o volante, que recebeu apenas a almofada central personalizada com o losango Renault. Sistema de som Bose com dez alto-falantes e cancelamento ativo de ruído, conectividade Android Auto e Apple CarPlay sem fio, ar-condicionado de três zonas e banco traseiro reclinável completam o pacote de conforto.

Os ajustes da suspensão permitem modificar independentemente acelerador, direção e entrega de potência e torque através da alavanca de câmbio. O resultado é um rodar agradável e previsível, com a suspensão cumprindo exatamente sua função de garantir conforto. A direção elétrica apresenta firmeza adequada ao dirigir em modo Sport.

Dois pontos chamam atenção na qualidade. Peças como alavancas atrás do volante vieram da Volvo, marca sueca também do grupo Geely, enquanto alguns botões trazem tipografia chinesa em vez da fonte elegante francesa do quadro. Apesar dessa mistura de identidades, os materiais são excelentes: Alcantara e superfícies emborrachadas em praticamente todos os pontos de toque. Costuras dos bancos trazem as cores da bandeira francesa e logotipo bordado na espuma.

Segurança e espaço interno com restrições

A Renault lista 29 recursos de segurança no Koleos. Controle de cruzeiro adaptativo, frenagem autônoma de emergência, assistente de permanência em faixa e alertas de ponto cego integram o pacote. Apesar da estrutura de SUV médio quase grande, com entre-eixos de 2,82 metros, o Koleos comporta apenas cinco ocupantes, sem terceira fileira de bancos. O porta-malas de 431 litros é insuficiente para o porte do veículo — volume próximo ao de um Hyundai Creta e quase 100 litros menor que o do Boreal, que em breve assumirá o posto de Renault mais sofisticada do Brasil.

Posicionamento estratégico, não liderança

O Koleos atinge 0 a 100 km/h em 8,3 segundos e velocidade máxima de 180 km/h, marcas respeitáveis para um carro híbrido de vocação familiar. Tração dianteira e suspensão adaptada ao asfalto eliminam qualquer pretensão off-road. O objetivo da Renault ao trazer o modelo é mostrar capacidade produtiva e consolidar plano para apagar imagem de marca de carros baratos.

Não compete como plug-in, diferente de alguns rivais. Tampouco possui tradição no segmento como Volkswagen Tiguan. Dificilmente liderará vendas de SUVs híbridos plenos no Brasil. Funciona primariamente como vitrine de tecnologia e qualidade, mostrando ao mercado que a marca consegue oferecer produtos sofisticados com acabamento premium, mesmo que o consumo real fique aquém das promessas típicas de veículos eletrificados.

  • Pontos positivos: nível de conforto superior, equipamentos de tecnologia e segurança extensos, isolamento acústico raro na faixa de preço
  • Pontos negativos: preço elevado comparado a outros híbridos plenos, consumo real decepciona em ciclo urbano, volume insuficiente de porta-malas
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