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Utqiagvik, no extremo norte do Alasca, viverá um fenômeno astronômico raro a partir deste domingo. O Sol não vai se pôr até 2 de agosto, permanecendo no céu durante 84 dias consecutivos. Quase 5 mil moradores da cidade terão de fechar completamente as cortinas se desejarem descansar no escuro, mesmo dormindo às 4 da manhã.

O ciclo de claridade constante, conhecido como “Sol da meia-noite”, resulta de dois fatores geofísicos principais: a inclinação de aproximadamente 23,5 graus do eixo de rotação terrestre e o formato esférico do planeta. Essas características criam períodos únicos nos polos durante o verão do Hemisfério Norte.

Inclinação do eixo explica períodos de claridade permanente

A Terra não gira verticalmente em relação ao Sol. Seu eixo de rotação inclina-se significativamente, funcionando como um palito de churrasco levemente “tombado” através do planeta. Durante o movimento de translação anual, essa inclinação posiciona o Hemisfério Norte de forma a receber luz solar direta por períodos estendidos.

Quando é verão no Hemisfério Norte, o Polo Norte fica voltado para o Sol. Enquanto a Terra realiza seu movimento de rotação diária, as áreas acima do Círculo Polar Ártico permanecem iluminadas continuamente. É como se o topo do planeta estivesse sempre “olhando” para o Sol, independentemente de quanto gire sobre si mesmo.

João Batista Garcia Canalle, astrônomo e coordenador da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, explica um cenário hipotético: sem essa inclinação, se o eixo fosse perpendicular ao plano orbital terrestre, não haveria estações do ano. O Sol permaneceria sempre no horizonte dos polos durante todo o ano.

Esse fenômeno não ocorre apenas em Utqiagvik. Outras regiões entre o Círculo Polar Ártico e o Polo Norte experimentam ciclos similares, embora com durações variáveis conforme a latitude específica. Quanto mais próximo do Polo Norte, mais longo o período de luz contínua.

Sol, verão, calor
Sol, verão, calor -Crazy Owl Productions/shutterstock.com

Formato esférico do planeta mantém luz no horizonte

A geometria esférica da Terra complementa a explicação para o Sol permanecer visível. No Alasca, o astro não segue o padrão de subir e descer, formando arcos no céu. Em vez disso, executa movimento circular e horizontal, como se andasse em volta da cidade ao longo do dia.

Se o planeta fosse plano, o Sol teria de desaparecer quando estivesse no outro lado do disco, criando períodos regulares de escuridão. Essa hipótese eliminaria também as estações do ano distintas em diferentes regiões. A curvatura terrestre, portanto, é fundamental para o fenômeno do Sol da meia-noite.

Cientistas usam esse evento natural para reforçar a comprovação prática de que a Terra é esférica. A observação direta do comportamento solar nos polos fornece evidência empírica da geometria planetária sem necessidade de fotografias de satélite ou modelos teóricos abstratos.

Por que ainda faz frio com o sol constante

Pode parecer contraditório que uma cidade com sol ininterrupto durante meses registre temperaturas raramente acima de 0°C. A explicação reside na obliquidade dos raios solares que atingem a superfície.

Nas regiões equatoriais, os raios solares incidem de forma direta e perpendicular, concentrando energia em área reduzida e gerando calor intenso. Nos polos, mesmo durante períodos de presença solar contínua, o Sol permanece baixo no horizonte. Isso significa que a luz atinge a superfície de forma inclinada, espalhando o calor de maneira muito difusa:

  • Nas zonas equatoriais: raios perpendiculares = energia concentrada = calor elevado
  • Nos polos: raios inclinados = energia dispersa = temperatura baixa
  • O fenômeno mantém -25°C a -30°C mesmo com iluminação solar permanente
  • A luz abundante não compensa a dispersão dos raios
  • Moradores continuam necessitando casacos durante o verão ártico

Uma analogia prática ilustra o conceito. Quando se aponta uma lanterna perpendicularmente a uma parede, o círculo de luz é pequeno, brilhante e quente. Inclinando-se a lanterna, a luz se espalha e fica significativamente mais fraca. No Alaska, o Sol está presente, mas seus raios chegam “deitados”, sem aquecer a superfície o suficiente para dispensar roupas pesadas.

Inverno ártico traz escuridão prolongada

O ciclo sazonal garantirá que os habitantes de Utqiagvik experimentem o fenômeno inverso em breve. Depois que o Hemisfério Norte se inclinar para longe do Sol, provavelmente ainda em 2026, a cidade viverá a noite polar.

A partir de novembro, cerca de 65 dias de escuridão total dominarão a região. Sem radiação solar para aquecer a superfície terrestre, as temperaturas despencarão drasticamente, alcançando patamares entre -25°C e -30°C. Esse ciclo complementar de iluminação e escuridão perpétua demonstra a força determinante da inclinação axial na distribuição de energia solar aos polos do planeta.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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