Comunidades carentes do Rio de Janeiro superaram pontos turísticos tradicionais em número de visitantes internacionais. Dados oficiais de 2024 mostram que Vidigal e Rocinha receberam mais turistas estrangeiros que o Cristo Redentor e os Degraus de Selarón, marcos históricos consagrados há décadas. O fenômeno marca uma transformação radical na percepção de segurança e interesse cultural em regiões antes evitadas por visitantes.
A escalada de turismo em favelas começou após operações policiais de “pacificação” iniciadas antes da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Hoje, essas comunidades densamente povoadas funcionam como atração de experiências imersivas, com trilhas ao amanhecer, passeios por becos grafitados e aulas de capoeira. Celebridades globais como a cantora espanhola Rosália e o jogador inglês Jesse Lingard foram fotografados explorando essas regiões nos últimos meses.
Crescimento exponencial do fenômeno turístico
A madrugada de maio em Rio de Janeiro atrai centenas de visitantes para a trilha do Morro dos Dois Irmãos, localizado dentro de Vidigal. Turistas de Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha e Argentina acordam às 03h30 para ocupar motores de moto-táxi sem capacete em ruas onde as casas se empilham verticalmente. A experiência culmina no topo da montanha, onde assistem ao nascer do sol sobre o Oceano Atlântico.
As redes sociais amplificaram o apelo desses passeios. Tendências virais incluem sessões de fotos com drones capturando turistas em meio à topografia irregular das favelas. Filas de horas formam-se em telhados de Rocinha, a maior favela do país, para gravações aéreas que circulam instantaneamente em plataformas digitais. Visitantes pagam para acessar mirantes privativos e participam de eventos como “Rave in Rio”, festas eletrônicas organizadas dentro das comunidades.
Isabel Fernandes, visitante portuguesa que explorou Vidigal com a guia local Ana Lima, descreveu a motivação: não se trata de curiosidade turística superficial, mas de buscar realidades além da superfície. Ela visitou hortas comunitárias e programas sociais, contrastando com estigmas perpetuados sobre favelas. “Senti-me segura e bem-vinda”, afirmou.
Segurança: realidade complexa entre residentes e turistas
Um tiroteio em Vidigal em abril de 2024 interrompeu essa narrativa positiva. Cerca de 200 caminhantes foram retidos no topo da montanha durante confronto entre policiais e membros alegados do Comando Vermelho, cartel envolvido no tráfico de drogas. Angel Njoku, visitante canadense, viu sua semana de viagem planejada ser afetada quando amigos cancelaram a trilha por medo.
Daria Kurpiewska, turista polonesa que fez a trilha em março, descreveu o choque ao aprender sobre o incidente. “Poderia ter sido meu grupo de amigos”, disse. A experiência incluiu descida noturna pela montanha enquanto passava por um parque infantil com crianças brincando próximo a homens armados. “Foi um pouco perturbador”, relatou.
Mariana Cavalcanti, professora de estudos urbanos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, contextualiza a violência como realidade cotidiana para moradores de favelas há décadas. “Esses tiroteios ocorrem todos os dias há quase todo o tempo em que vivo”, afirmou. Porém, argumenta que a presença turística reduziu significativamente a violência nas favelas da Zona Sul, especialmente em Rocinha e Vidigal.
Paradoxalmente, Cavalcanti sugere que favelas possam ser mais seguras para turistas que pontos turísticos tradicionais como Copacabana. Cartéis, segundo ela, proíbem crimes contra estrangeiros para não afastar o fluxo de turismo e renda. “Você não será assaltado, não sofrerá agressão sexual e nada ruim assim acontecerá com você”, afirmou a pesquisadora.
Durante seu tour, Fernandes não enfrentou incidentes de segurança. A experiência incluiu café da manhã com pão e ovo (pão com ovo) nos becos de Vidigal e exploração de murais grafitados, oferecendo contraste com narrativas negativas amplamente divulgadas sobre as comunidades.
Questões éticas sobre exploração e gaze turístico
A expansão do turismo em favelas gerou debate sobre ética e exploração cultural. Angel Njoku expressou preocupação: “Ir às favelas para tirar fotos e observar as pessoas que vivem lá parece um pouco problemático”. Ela optou por pular o passeio a pé opcional oferecido como complemento à trilha do amanhecer.
Kurpiewska enfrentou dilema similar durante festa eletrônica em Vidigal. Questionava-se: “Há tantas pessoas vivendo aqui – é aceitável para elas que venhamos?” A ansiedade sobre incômodo aos moradores refletia preocupações mais amplas sobre “safari de pobreza”, termo usado para criticar tours em jipes 4×4 durante Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016.
Cavalcanti admitiu ter compartilhado essas preocupações inicialmente. Porém, fieldwork em Morro da Providência alterou sua perspectiva quando constatou que moradores não demonstravam incômodo com visitantes. Muitos, na verdade, dependem do turismo para renda: motoristas de moto-táxi, guias turísticos, vendedores de lembranças e proprietários de restaurantes como Bar do David prosperam com fluxo de estrangeiros.
“Realmente acredito que moradores de favelas são interlocutores capazes, sabem o que estão fazendo”, afirmou Cavalcanti. As opções modernas de visitação tours guiados a pé, experiências de drone, pontos de observação pagos, aulas de capoeira e eventos musicais – oferecem alternativas ao modelo antigo de observação passiva e desrespeitosa.
Significância cultural e raízes históricas
Hugo Oliveira, pesquisador, guia e diretor de centro educacional em Morro da Providência, argumenta que visitas a favelas são eticamente necessárias para compreender a história do Brasil e Rio. “Se você quer falar sobre Brasil sem conhecer a favela, não consegue”, afirmou.
Morro da Providência, localizado no bairro “Pequena África” do centro do Rio, foi estabelecido em 1888 como primeira favela brasileira. Originalmente, abrigava pessoas formerly escravizadas e impoverecidas que se assentavam sem propriedade de terras. Nas décadas seguintes, favelas enfrentaram ausência de serviços municipais como eletricidade e saneamento. Entre 1960 e 1970, dezenas de favelas foram demolidas e centenas de milhares de residentes foram deslocados forçadamente.
Oliveira defende que ascensão do turismo em favelas prova que essas comunidades possuem legítimo lugar na cidade como qualquer outro bairro. “Não promover atividade turística é reconhecer que não estamos conectados à cidade”, argumentou.
Favelas germinaram e incubaram formas culturais brasileiras globalmente reconhecidas. Samba, música baile funk e capoeira originaram-se nessas comunidades e moldaram identidade cultural do país. Visitantes que exploram origens dessas expressões artísticas compreendem-nas com profundidade maior. Rosália, durante visita a favela, recebeu improvisada aula de passinho, dança de rua nascida em comunidades cariocas.
“A vida nas favelas e periferias das cidades hoje molda códigos de estética, linguagem e moda”, explicou Oliveira. “Se você quer ser uma pessoa legal, do jeito que pessoas legais são no Brasil, deveria visitar uma favela”.
Orientações práticas para visitação responsável
Mariana Cavalcanti sintetiza a questão central: “A grande pergunta não é se alguém deve subir à favela, mas como se entra na favela”. Seu conselho inclui buscar guias ou associações comunitárias locais, tratando a favela como bairro próprio onde o visitante residiria.
A professora aconselha evitar fotografar fachadas de casas e residentes sem consentimento explícito. “Se pessoas estivessem tirando fotos fora de sua porta, você não gostaria, então por que faria isso?” O respeito à privacidade e dignidade dos moradores constitui fundamento ético da visitação.
Favelas que abertamente acolhem turismo incluem Vidigal, Rocinha, Morro da Providência e Chapéu Mangueira. Visitação não requer necessariamente tours históricos formalizados. Oliveira recomenda alternativas como teleférico gratuito em Morro da Providência, shows de pagode, blocos de Carnaval que atravessam as comunidades e eventos comunitários diversos.
- Plataforma recomendada: App “Na Favela” oferece tours com guias locais recém-lançado
- Eventos seguros: Shows de jazz em The Maze (Tavares Bastos), aulas de capoeira formalizadas
- Orientação fotográfica: Consultar guia local sobre segurança e consentimento antes de fotografar
- Transporte responsável: Tours a pé com residentes em lugar de jipes privativos
- Imersão autêntica: Participação em eventos comunitários reais em vez de passeios cênicos-apenas
Kurpiewska planeja retornar a Rio. Se revisitar favela, faria acompanhada por residente local. “Acho que é a melhor forma, porque não é performativa e é a experiência mais próxima do real que se consegue”, disse. Ela enfatiza que travel trata-se de sair e experienciar coisas genuinamente, contrário a permanecer em casa consumindo Rio através de telas digitais. Experiências reais, mesmo quando geram ansiedade, constituem essência autêntica do deslocamento e descoberta cultural.

