O goleiro Vozinha, destaque da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo, emocionou-se ao final da partida histórica contra a Espanha, que terminou em um surpreendente empate sem gols. A performance que parou o ataque espanhol e colocou o país africano no mapa do futebol mundial, contudo, foi acompanhada à distância por sua mãe, Ana Cândida Évora, que não conseguiu viajar para os Estados Unidos devido a obstáculos financeiros e relacionados ao visto. Sua ausência ressalta a complexidade de viajar para eventos globais a partir de nações com economias mais frágeis.
A Grande Atuação e a Emoção Incontida do Goleiro
Aos 40 anos, Josimar Dias, conhecido mundialmente como Vozinha, foi o grande nome da estreia de Cabo Verde no torneio. Sua atuação excepcional contra a Espanha, que dominou a posse de bola e finalizou intensamente, foi crucial para garantir o empate. Após o apito final em Atlanta, o goleiro desabou em lágrimas, revelando aos jornalistas que parte de sua profunda emoção vinha da impossibilidade de sua mãe testemunhar aquele momento único nas arquibancadas.
Os Obstáculos Vencidos pela Fé, mas Não pela Burocracia
Em Praia, Cabo Verde, Ana Cândida Évora, empregada doméstica de 59 anos, assistia à partida com orgulho e uma certeza maternal. Um dia antes, ela já havia previsto em rede nacional que “nenhuma bola entraria no gol dele”, uma afirmação que fez questão de reiterar à Reuters após a partida. A fé na capacidade do filho era inabalável, mas a burocracia e os custos se mostraram barreiras intransponíveis. Ela expressou profundo orgulho pelo filho, mas a tristeza por não estar presente era evidente.
As Exigências de Visto dos EUA e a Realidade dos Custos
A dificuldade de Ana Cândida em obter o visto para os Estados Unidos está diretamente ligada a uma política implementada em janeiro pelo governo do presidente Donald Trump. Essa regulamentação exigia de cidadãos de dezenas de países, incluindo Cabo Verde, a apresentação de cauções de até US$ 15 mil para ingressar em território americano, visando coibir permanências irregulares.
Apesar de Washington ter anunciado no mês anterior a eliminação dessa exigência específica para portadores de ingressos da Copa do Mundo, buscando “facilitar viagens legítimas” para o evento, a medida chegou tarde demais para a mãe de Vozinha. Os altos custos envolvidos, somados à caução inicial, já a haviam forçado a desistir da viagem de aproximadamente 6.400 quilômetros até Atlanta. Esta situação evidencia como as mudanças políticas, embora bem-vindas, podem não ser suficientes para reverter desafios logísticos e financeiros já consolidados.
Dificuldades Financeiras e o Apelo da Federação
A barreira para a viagem não se restringia apenas à caução. Mário Semedo, presidente da Federação Cabo-Verdiana de Futebol, enfatizou que os altos custos são um problema crônico para os residentes do arquipélago, independentemente da exigência de caução.
- Passagens Aéreas: O preço das passagens de Cabo Verde para os EUA é considerável.
- Hospedagem: Os custos de acomodação durante o período da Copa do Mundo são elevados.
- Ingressos: Mesmo com uma possível isenção da caução para portadores de ingressos, o valor dos bilhetes ainda é um impeditivo.
Semedo defendeu que, embora as preocupações com imigração sejam legítimas, deveriam existir mecanismos para facilitar a presença de torcedores, especialmente de familiares de jogadores, em eventos de tamanha importância global.
Solidariedade Política e a Celebração Nacional
A história de Ana Cândida repercutiu e gerou solidariedade. Hakeem Jeffries, líder democrata da Câmara dos Representantes dos EUA, fez um apelo público ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo intervenção para garantir que ela pudesse assistir às próximas partidas. “Nenhuma mãe deveria perder a oportunidade de ver seu filho fazer história”, declarou Jeffries em suas redes sociais.
Enquanto a família acompanhava o jogo em casa, a alegria de Davidson Évora, irmão do goleiro, era palpável. Ele descreveu a atuação de Vozinha como “maravilhosa, espetacular” e capaz de “fazer uma nação inteira feliz”. Na ilha de São Vicente, as ruas foram tomadas por multidões que celebraram o empate até altas horas da madrugada, dançando e agitando bandeiras. A esperança de que Ana Cândida ainda possa ver o filho jogar ao vivo contra o Uruguai, em Miami, permanece, embora a família não tenha planos concretos ou apoio formal da federação para um visto de última hora. “Seria algo maravilhoso”, afirmou Davidson, ressaltando o momento histórico e sem precedentes que o futebol de Cabo Verde vive.
