Análise de ‘Toy Story 5’ explora o impacto da tecnologia em crianças e os riscos das grandes empresas

Toy Story 5 - Divulgação
Foto: Toy Story 5 - Divulgação

O filme “Toy Story 5” está sob análise por sua abordagem à representação de tablets infantis, que, segundo críticos, minimiza tanto o potencial viciante das telas quanto os perigos mais amplos associados às gigantes da tecnologia. A crítica ressalta preocupações parentais persistentes, estudos ligando o uso excessivo a um desempenho cognitivo inferior e o licenciamento comercial, como o tablet Lilypad.

Embora a era dos brinquedos físicos possa parecer em declínio, a relevância da saga “Toy Story” permanece intacta. A produção cinematográfica, lançada recentemente, mergulha em uma temática complexa que pais em todo o mundo ainda buscam compreender.

A renomada franquia da Disney e Pixar, iniciada em 1995 com a história de um caubói de pano e seu rival astronauta, retorna às telonas este mês com “Toy Story 5”. Desta vez, os famosos brinquedos falantes enfrentam um adversário inesperado: um dispositivo eletrônico.

O longa-metragem evita mencionar explicitamente a marca Apple, mas a narrativa de “Toy Story” foca em Jessie (interpretada por Joan Cusack), o brinquedo preferido de Bonnie (Scarlett Spears), de 8 anos. Jessie fica perplexa quando a criança começa a dedicar todo o seu tempo a um tablet infantil chamado Lilypad (voz de Greta Lee).

Rapidamente, Jessie percebe, com o auxílio de seus antigos amigos Woody (Tom Hanks) e Buzz (Tim Allen), que crianças globalmente estão cativadas por “aparelhos” e “tecnologia”, abandonando as brincadeiras tradicionais com brinquedos. Essa descoberta desencadeia um conflito entre Jessie e Lily, enquanto a boneca tenta se livrar do tablet e auxiliar a introspectiva Bonnie a formar novas amizades.

Em 2026, era praticamente esperado que uma trama de “Toy Story” incluísse a crescente presença de dispositivos pessoais e o tempo de tela na vida das crianças. Como pai de uma criança de quatro anos, passo noites me questionando se estou permitindo tempo excessivo de televisão ou usando meu próprio celular por tempo demais na frente dela.

Essa preocupação não é isolada. Há décadas, pais debatem o uso adequado de telas para o público infantil, desde os efeitos da televisão nos anos 80 até a popularização dos videogames nos anos 90 e a ascensão dos tablets na última década e meia. A discussão se estende além do lar, com educadores, pediatras e legisladores manifestando apreensão sobre o uso de aparelhos individuais em ambientes escolares.

Dentro da narrativa do filme, a abordagem sobre telas e tecnologia é surpreendentemente sutil, talvez até complexa demais para o público mais jovem. Jessie, Woody e Buzz inicialmente demonstram resistência a Lily e dispositivos similares, defendendo a importância da brincadeira imaginativa com brinquedos convencionais. Contudo, ao visitar a casa de outra criança, Jessie conhece Smarty Pants (Conan O’Brien), um brinquedo/jogo educativo simples que atua como uma introdução ao universo digital.

Ao longo da trama, Lilypad também encontra redenção. Além de prender Bonnie em jogos eletrônicos, o dispositivo a auxilia a ingressar em grupos de bate-papo com outras crianças, permitindo que a menina, antes isolada, se integre ao círculo social dos colegas. Lily explica aos demais brinquedos que essa é a maneira como as crianças estabelecem laços atualmente.

A mera referência a “chats em grupo” provoca, sem dúvida, um receio específico em pais pelo mundo. Aqueles que postergam a entrega de eletrônicos aos filhos correm o risco de excluí-los dessas conversas cruciais, onde grande parte da interação social, especialmente para pré-adolescentes e adolescentes, ocorre. No entanto, esses grupos são também ambientes propícios para bullying e conteúdo inapropriado, sem supervisão ou regulamentação, gerando desafios significativos para famílias e escolas.

Os pais, em meio a uma das culturas e sociedades mais exigentes para a criação de filhos, esforçam-se ao máximo para fazer o que consideram certo. Gerações anteriores, como a dos Baby Boomers, não precisavam se preocupar com a exposição dos filhos à pornografia online, uso indevido de imagens para deepfakes ou extorsão sexual, nem com as complexas dinâmicas sociais em diversas plataformas digitais.

No universo de “Toy Story”, os pais de Bonnie acreditam estar a ajudando ao adquirir um tablet para ela. A criança enfrenta dificuldades de socialização e eles percebem que outras crianças interagem online. Quando Bonnie demonstra sinais de depressão devido ao que vivencia no tablet, os pais tentam limitar seu uso e oferecem apoio quando ela é vítima de bullying.

A empatia pela situação dos pais de Bonnie é grande, mesmo com sua pequena presença no filme. A autora da análise também busca fazer o melhor para seu filho, percebendo a ausência de um manual com as “respostas certas” para esses desafios contemporâneos.

Ao término da história, Lilypad se integra ao quarto de Bonnie como mais um brinquedo, utilizado para reproduzir música em brincadeiras de casamento ou para tirar selfies com a menina e sua nova melhor amiga, Blaze (Mykal-Michelle Harris). Em um momento crucial do filme, Lily inclusive toma a iniciativa de se afastar temporariamente de Bonnie, temendo ter agravado a situação da criança.

Do ponto de vista narrativo, essa trajetória faz sentido, com os antagonistas aprendendo e evoluindo. Contudo, a mensagem subjacente sugere, de forma sutil, que as grandes empresas de tecnologia estão alinhadas com o bem-estar da criança, e que um dispositivo é inerentemente neutro, tornando-se prejudicial apenas pelo uso inadequado de pais ou filhos.

A autora refuta a ideia de que qualquer tela possa ser vista como uma “amiga” para sua filha, discordando veementemente da afirmação de Woody de que Lily é “uma de nós”. Independentemente de quão responsável se pense que o uso de telas por crianças pequenas possa ser, a realidade é que esses dispositivos são *projetados como armadilhas viciantes*, conforme pesquisas comprovam, sendo prejudiciais ao desenvolvimento infantil. Um estudo de 2023 é categórico: “Dedicar tempo excessivo a telas e realizar multitarefas com outras mídias está associado a um desempenho acadêmico e de funções executivas inferiores.”

No entanto, a proposta de manter as crianças totalmente afastadas das telas não é o foco principal de “Toy Story 5”. Filmes infantis, embora possam veicular mensagens doces e lições de moral, são, em sua essência, produtos de consumo criados com o objetivo de gerar lucro, não apenas com a venda de ingressos, afinal, a Disney é uma corporação.

Como exemplo dessa dinâmica comercial, a LeapFrog Toys já lançou o Lilypad, um tablet oficialmente licenciado para crianças de 3 a 5 anos, comercializado por US$ 27,97 no Walmart. A descrição do produto promete que a criança em idade pré-escolar pode “manter-se conectada com Jessie, Buzz, Woody e o Trio Tecnológico enviando mensagens de texto com emojis e mensagens predefinidas”.

Em um cenário global cada vez mais dominado por grandes corporações de tecnologia que disputam a atenção das crianças, a sensação é que nem os tradicionais bonecos de caubói, nem os pais, possuem muitas chances de competir de igual para igual.

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