A estreia com a Steam Machine apresentou desafios inesperados, transformando a expectativa de uma experiência de console simples em longas horas dedicadas a solucionar questões típicas de um computador pessoal. Isso ressalta a natureza dual do dispositivo, que, apesar de ser um PC, possui distinções cruciais.
Desde o lançamento do Magnavox Odyssey em 1972, os videogames tradicionais mantêm uma finalidade fundamental: executar títulos exclusivos de forma descomplicada em televisores. Empresas como Nintendo, Sony e Microsoft têm comercializado produtos similares por várias décadas, onde a premissa principal é adquirir o aparelho, conectá-lo e começar a jogar.
Contudo, a Steam Machine aspira a uma proposta mais ambiciosa. Ela representa a ideia de uma plataforma com menor número de limitações e um acervo vasto de jogos, embora isso exija um investimento financeiro que se aproxima do dobro do valor de um PlayStation 5.
De fato, a Valve divulgou que o modelo inicial da Steam Machine custa 1.049 dólares sem controle, ou 1.128 dólares com o acessório, porém sem proporcionar um ganho notável de performance comparado ao PlayStation 5, que já tem cinco anos e meio de mercado. Mesmo com reajustes de preço, um PS5 padrão, avaliado em 650 dólares, ofereceu gráficos mais definidos em jogos como Cyberpunk 2077 e Horizon Zero Dawn Remastered durante os testes realizados. Surge então a questão: como a Valve justifica um preço superior a mil dólares?
A justificativa reside no conceito de “PC-plus” que a Steam Machine incorpora. Ela opera como um computador que simula a experiência de um console de forma mais eficaz do que qualquer outro dispositivo similar, posicionando-se como uma evolução da visão original da Valve de levar o poder do PC para a sala de estar, aprimorada após lições aprendidas com os Steam Machines da primeira geração e o sucesso do Steam Deck. O aparelho se destaca por ser extremamente eficiente em refrigeração e silencioso, significativamente menor que um PlayStation 5, além de apresentar uma fluidez impressionante e ser completamente operável com qualquer controle moderno, dispensando teclado, mouse ou até mesmo o Steam Controller da Valve para acessar e executar os jogos.
Este dispositivo representa a melhor concretização de um computador projetado para o ambiente doméstico, superando inclusive as montagens personalizadas. A Valve sustenta que é praticamente inviável replicar a Steam Machine por conta própria; mesmo com acesso aos projetos e expertise de engenharia, a empresa assegura que comercializa seus componentes pelo valor de custo, resultado de negociações com fornecedores em um cenário de escassez global de memória sem precedentes.
No entanto, permanece a questão sobre a adequação do produto pelo valor de 1.049 dólares. A resposta depende das expectativas individuais do usuário em relação às funcionalidades deste PC e da capacidade da Valve em solucionar as pendências operacionais antes da chegada do aparelho ao consumidor final.
Logo ao desembalar o aparelho, foi preciso reconectar o Steam Controller repetidamente para estabelecer o controle. A saída de áudio para o receiver Denon limitava-se a estéreo, forçando a conexão direta à TV Samsung OLED. A televisão, por sua vez, não identificou a Steam Machine automaticamente, requerendo a ativação manual do Modo Jogo para HDR e VRR. Além disso, a Valve não havia instalado previamente dependências cruciais como o Proton, essenciais para a execução de jogos Windows, que precisaram ser baixadas antes do início das partidas. Durante a espera, múltiplos downloads foram iniciados e, ao retornar, constatou-se que grande parte não havia sido concluída, resultando em 800 GB de instalações parciais em um disco completamente preenchido.
Há indicações de que essas questões serão resolvidas, e a Valve é reconhecida por sua capacidade de entregar o que promete. Ao constatar que a Steam Machine apresentava reinícios súbitos, travamentos e falhas gráficas ao se aproximar do limite de memória de vídeo, a empresa agiu rapidamente, corrigindo os problemas em menos de 24 horas. Experiências anteriores, como a revisão inicial do Steam Deck, tornaram-se desatualizadas devido à eficácia com que a Valve solucionou as dificuldades daquele dispositivo portátil.
Contudo, assim como ocorreu com o Steam Deck, a vivência inicial com o aparelho mostra-se ainda imatura e mais adequada para usuários com maior conhecimento técnico. Curiosamente, este texto está sendo redigido integralmente em uma Steam Machine neste momento, reafirmando sua natureza de computador pessoal.
Desafios iniciais e a promessa de melhorias da Valve
Ao conectar teclado, mouse, caixas de som, fone de ouvido, um hub USB e dois monitores à Steam Machine, todos os periféricos operaram perfeitamente. O sistema ofereceu um ambiente de desktop Linux quase tão eficiente quanto o que utilizo em meu computador pessoal com dual-boot, mas com a vantagem de ser consideravelmente mais silencioso. Foi possível até mesmo empregar um drive de Blu-ray externo, conectado à porta frontal. Para quem não possui um computador de mesa, essa funcionalidade extra pode atenuar a percepção do preço elevado.
Em sessões de jogo realizadas diretamente na mesa, próximo a um monitor, a diferença de potência gráfica em relação a computadores gamer de maior porte torna-se evidente. No entanto, quando posicionada sob a televisão, o desempenho em jogos demonstrou ser surpreendente. Embora não se trate de um PC gamer de alto desempenho, a maioria dos títulos testados manteve uma taxa de quadros fluida, semelhante à alcançada por outros consoles atuais: optando por resoluções mais baixas, como 1080p, e empregando a tecnologia FSR (FidelityFX Super Resolution) da AMD para upscaling para 4K na TV.
A capacidade do hardware permite executar títulos como Indiana Jones ou Returnal em 1440p com configurações médias, Forza Horizon 6 em 1440p com qualidade alta, Cyberpunk 2077 em 4K com upscaling e ajustes elevados, ou Shadow of the Tomb Raider em 4K nativo e médio. Nessas configurações, as taxas de quadros nunca ficaram abaixo de 40fps, um patamar que se alinha com a janela de operação do VRR (Variable Refresh Rate), garantindo uma sincronização perfeita com a tela.
A execução de Indiana Jones and the Great Circle, especificamente, superou as expectativas, considerando-o um dos jogos mais demandantes para PCs disponíveis. Atualmente, horas foram dedicadas à jogatina confortável no sofá, desfrutando plenamente da experiência.
Inclusive, o desafiador Alan Wake II, que exige muita memória RAM, foi baixado da Epic Games Store (com instalação via Heroic, acessível pelo aplicativo Discover no desktop Linux) e mostrou-se perfeitamente jogável na resolução base de 847p, similar ao que é visto no PlayStation 5 e Xbox Series X.
Melhorias necessárias para uma experiência de console completa
Uma das frustrações reside na necessidade de descobrir as configurações ideais por tentativa e erro. Ao contrário do PlayStation 5, a Steam Machine não conta com ajustes automáticos feitos por fabricantes ou desenvolvedores. Não existem predefinições específicas para os jogos AAA testados, nem uma opção global para FSR, nem tecnologias como checkerboard rendering ou PSSR, que são empregadas nos consoles da Sony para otimizar a imagem em TVs 4K. Por precaução, a Valve configurou o sistema para rodar em 1080p por padrão, impedindo a definição de resoluções 4K com upscaling sem uma intervenção manual prévia.
Ao avaliar o PlayStation 5 Pro, não foi possível justificar o investimento adicional para quem não se posiciona próximo à tela. A uma distância de cerca de 3,6 metros de uma televisão de 65 polegadas, mesmo com acuidade visual perfeita, a diferença gráfica de 200 dólares em relação ao PlayStation 5 padrão era imperceptível. A fluidez dos jogos era o fator primordial, e essa mesma sensação de satisfação ocorre com títulos bem ajustados na Steam Machine. Contudo, a uma distância de 3,6 metros, os jogos ficam visivelmente comprometidos devido ao limite padrão de 1080p imposto pela Valve. A expectativa é que os desenvolvedores criem rapidamente predefinições otimizadas para a Steam Machine.
Um dos pontos mais críticos é a incapacidade de confiar no modo de suspensão da Steam Machine para pausar jogos de forma consistente. Em três ocasiões, o jogo foi retomado exatamente de onde parou após 12 ou 14 horas. No entanto, em outras três situações, a sessão havia sido perdida, e em uma delas, a televisão permaneceu ligada durante a madrugada. A Valve já demonstrou capacidade de resolver essa questão no Steam Deck, o que gera esperança de que seja apenas uma questão de tempo para a Steam Machine.
Também se aguardam mais funcionalidades esperadas de um console, como:
- A conveniência de ligar o sistema com o Steam Controller ou um controle Bluetooth para ativar todo o sistema de entretenimento via HDMI-CEC e desligá-lo ao finalizar é excelente. Contudo, foi necessário procurar o controle da TV quando o Apple TV foi ligado acidentalmente, e não houve um botão Steam direto para retornar.
- É possível gerenciar a Steam Machine remotamente a partir de um Steam Deck ou outro PC com Steam, além de realizar streaming de jogos em ambas as direções. No entanto, diferentemente do PlayStation 5, o aparelho não pode ser ativado remotamente caso esteja em modo de suspensão.
- Apesar da atraente barra LED RGB configurável que exibe visualmente o progresso dos downloads, a Steam Machine não realiza baixagens automáticas quando desligada; é preciso iniciar o processo manualmente e então o sistema pode concluir enquanto suspenso.
- Embora a Valve destaque a antena interna específica para o Steam Controller, foram observadas diversas desconexões que não ocorrem em PlayStation 5 ou Xbox. A empresa garante que há correções em desenvolvimento para este problema.
Características e detalhes adicionais da plataforma Valve
Antes de encerrar, outros aspectos interessantes a serem considerados são:
- A Valve confirmou que a Steam Machine receberá o FSR 4 da AMD, uma tecnologia avançada de super resolução, similar à implementada no PlayStation.
- Ainda segundo a Valve, uma futura atualização de driver gráfico poderá elevar a performance de ray tracing em até 20% em certos títulos; anteriormente, esta funcionalidade era descartada devido à queda de quadros, mas o cenário pode mudar.
- É possível ajustar o volume da TV diretamente pelo gamepad, pressionando o botão de Acesso Rápido e movendo o analógico esquerdo para cima ou para baixo.
- Assim como no Steam Deck, uma vasta gama de informações sobre desempenho em tempo real, consumo de RAM e outros dados está disponível através do overlay integrado.
- A Steam Machine (e o sistema de entretenimento conectado via HDMI) pode ser ativada usando controles Bluetooth; testes foram realizados com um 8BitDo Pro 2.
- O sistema operacional SteamOS identificou automaticamente os dois canais de áudio do headset SteelSeries Arctis Pro Wireless, garantindo o funcionamento do chatmix para equilibrar o som do jogo e das conversas.
- A porta Ethernet oferece alta velocidade, alcançando downloads de quase 1Gbps dos servidores da Valve em uma conexão de fibra de 1Gbps.
- Apesar do excelente funcionamento do HDR, o conteúdo em SDR apresentava um aspecto excessivamente brilhante e desbotado por padrão.
As entradas USB frontais são mais rápidas e capazes de fornecer maior energia em comparação às traseiras; um drive óptico USB 2.0, por exemplo, apresentou falha de energia ao ser conectado na parte de trás. É notável que o controle da TV pode navegar pelos menus da Steam via comandos HDMI-CEC, embora não seja funcional em jogos 2D. Enquanto a Steam Machine permite múltiplos monitores no modo desktop, no modo de jogos, a compatibilidade se limita a uma única tela. Usuários com um cartão microSD do Steam Deck podem inseri-lo e jogar os títulos já instalados, desde que dependências como o Proton sejam instaladas primeiro. A barra LED de progresso exibe apenas o status do download ou instalação atual, não de todos os processos pendentes. Quando inativa, a barra LED RGB pode ser personalizada com efeitos como respiração, arco-íris, cor sólida ou um “olho patrulhando”, com ajustes de brilho, suavidade, velocidade e tom. As placas frontais são magnéticas e removíveis, e a Valve planeja disponibilizar os arquivos CAD para que os usuários possam criar e imprimir em 3D suas próprias personalizações. O modelo de 2TB também inclui opções de acabamento em vermelho aveludado e madeira de nogueira.

