Desvendando as raízes da Festa Junina: da fertilidade pagã à tradição religiosa e caipira brasileira

Junho, Festa Junina
Foto: Junho, Festa Junina - Foto: Saulo Angelo/ Shutterstock.com

Entender a influência das estações do ano no imaginário e na organização social pode ser um desafio para o povo brasileiro. Em uma nação com clima tropical, a mudança sazonal nem sempre é tão perceptível quanto em outras partes do mundo.

No entanto, em países de clima temperado ou frio, onde a primavera, o verão, o outono e o inverno são mais marcados, a chegada do verão é celebrada com uma alegria contagiante. Após meses de dias curtos, temperaturas negativas e poucas oportunidades de interação social, o auge do sol representa um renascimento.

Por essa razão, desde os tempos mais remotos, as civilizações pioneiras da Europa já promoviam festas específicas para saudar tanto o florescimento da primavera quanto o solstício de verão, que simbolizava o dia mais longo e o ápice solar do ano.

Pesquisadores apontam que esses dois tipos de celebração, posteriormente absorvidos pelo catolicismo, são a chave para compreender a origem das festas juninas. No Brasil, essas celebrações foram reinventadas e ganharam uma identidade cultural singular.

As festividades têm suas raízes nas antigas celebrações pagãs, conforme contextualiza Alberto Tsuyoshi Ikeda, pesquisador de culturas populares e professor da Universidade de São Paulo (USP), além de consultor da cátedra Kaapora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Elas estavam intrinsecamente ligadas aos ciclos da natureza e às estações, com sociedades antigas realizando grandes festas, que podiam durar até um mês, especialmente durante os períodos de plantio e colheita.

A primavera, em particular, era amplamente festejada, marcando o retorno de uma vida mais ativa e o rebrotar da natureza e das atividades, após um inverno caracterizado por dificuldades, lutas pela sobrevivência e reclusão.

Nesse período, a exuberância da natureza era refletida na vida social. Grupos humanos organizavam grandes celebrações em homenagem à natureza, muitas vezes prestando tributo a deuses antigos associados à flora e fauna. Essas eram festas comunitárias repletas de alegria, comida e grandes reuniões de pessoas, dando origem às festas juninas que hoje conhecemos no Brasil e em outras partes do mundo.

Lucia Helena Vitalli Rangel, socióloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e autora do livro “Festas Juninas: Origens, Tradições e História”, detalha que a essência das festas juninas reside nos “rituais de fertilidade agrícola” praticados por diversas culturas na Europa, Oriente Médio e norte da África.

Ela explica que casais mitológicos associados à fertilidade, como Afrodite e Adonis, Tamuz e Izta, e Isis e Osíris, eram reverenciados nesses rituais. Essas divindades representavam a capacidade de reprodução humana em um período de evocação e agradecimento pela colheita.

Os rituais visavam garantir uma colheita abundante e abençoar o próximo ciclo agrícola. Era um tempo de confraternização, de partilha e de fortalecimento de laços entre as comunidades, marcado por fartura e abundância em todos os aspectos, desde a alimentação até as relações familiares, incluindo casamentos, batizados e compadrio.

A socióloga ainda acrescenta que, no hemisfério norte, o solstício de verão representava o ponto culminante do período ritualístico e do trabalho agrícola, que culminava com a colheita.

É fundamental observar que, no hemisfério norte, onde essas celebrações se originaram, as estações do ano se invertem em relação ao hemisfério sul, onde o Brasil está localizado. Essa particularidade é crucial para entender a adaptação das festividades.

Como as tradições pagãs se entrelaçaram com o cristianismo

Mas como os santos entraram nessa narrativa? As figuras mais populares do catolicismo estão presentes nas festas juninas contemporâneas, e essa religiosidade se mesclou de tal forma ao folclore e às tradições populares que transcendeu os ritos formais da Igreja Católica.

O primeiro dos santos celebrados em junho é Santo Antônio (falecido em 1231), um frade franciscano português que se destacou por sua atuação na Itália no início do século 13. Reconhecido como milagreiro, ele foi canonizado pela Igreja apenas onze meses após sua morte, um recorde nunca superado na história do catolicismo.

No imaginário popular, Santo Antônio tornou-se o benevolente protetor das coisas perdidas, principalmente em países europeus, e o santo casamenteiro, sobretudo em Portugal e no Brasil. Sua devoção é marcada por simpatias, promessas e orações específicas, e sua presença nos festejos juninos está frequentemente ligada a essas tradições. A Igreja fixou o dia 13 de junho, data de seu falecimento, como o dia consagrado ao santo.

Em 24 de junho, a fé católica celebra o nascimento de São João Batista (2 a.C. – 28 d.C.). Ele é o santo de maior destaque nas comemorações juninas; algumas versões sugerem que as festividades eram originalmente “joaninas”. Especialmente no Nordeste brasileiro, a Festa de São João alcança proporções impressionantes.

Considerado uma figura de historicidade contestada, São João Batista é apontado como primo de Jesus Cristo e aquele que o batizou.

Em sua obra “O Ramo de Ouro”, o antropólogo escocês James Frazer (1854-1941) descreve um processo histórico de “acomodação”. Nele, a comemoração do solstício de verão foi transferida para a figura de São João Batista.

Por fim, o mês de junho também marca a data do martírio de São Pedro (falecido em 67 d.C.) e São Paulo (5 d.C. – 67 d.C.), dois dos precursores do cristianismo. Pedro foi um dos doze apóstolos de Jesus e, mais tarde, reconhecido como o primeiro papa do catolicismo.

Paulo de Tarso, por sua vez, é considerado um dos teólogos mais influentes da história. Uma parte considerável dos textos que compõem o Novo Testamento da Bíblia é atribuída a ele. Dessa forma, ele é responsável por uma parcela significativa da ressignificação de Jesus Cristo após sua crucificação, podendo-se afirmar que Paulo contribuiu para a transformação de Jesus em um mito.

É importante ressaltar que, embora a Igreja celebre a memória do martírio de Pedro e Paulo em conjunto, tradicionalmente, este último nem sempre é associado aos festejos juninos.

À medida que o catolicismo se consolidava como religião do status quo, especialmente após a cristianização do Império Romano em 380 d.C., muitos rituais considerados pagãos foram incorporados pela Igreja. A Igreja Católica não conseguiu desmantelar essas práticas, conforme reconhece a socióloga Rangel. A resiliência desses rituais se explica por sua profunda conexão com elementos fundamentais da existência humana, como fertilidade, colheita e a união comunitária, que a instituição religiosa não pôde simplesmente erradicar, optando por adaptá-los.

Com os rituais de primavera e verão, a situação não foi diferente. Alberto Ikeda, da USP, conclui que “várias dessas festividades foram adaptadas” e, gradualmente, passaram a ser vistas como celebrações em honra aos santos juninos.

Contudo, Ikeda salienta que, mesmo dentro do ciclo cristão, esses santos estão tematicamente conectados às mesmas ideias e princípios das festividades de antigas civilizações praticadas nesta época do ano. Essa conexão intrínseca aos elementos essenciais da vida humana permitiu que as celebrações pagãs fossem absorvidas e persistissem, mesmo sob um novo manto religioso.

Festa Junina, São João
Festa Junina, São João – Foto: Cacio Murilo/ Shutterstock.com

Santo Antônio, por exemplo, é o santo casamenteiro. Em uma interpretação mais ampla, ele pode ser visto como o santo da família, da unidade familiar e da reprodução humana. São João também está ligado, principalmente no interior do Brasil, a questões de relacionamentos afetivos. Tradicionalmente, muitos casamentos são realizados no Dia de São João, segundo Ikeda.

Ele também incorpora a ideia de fartura, que remete aos períodos de plantio e colheita, em contraste com os invernos rigorosos, com a presença de alimentos e bebidas. Isso se enquadra no que a antropologia denomina “repasto ritual” ou “repasto cerimonial”, conforme o pesquisador.

Em sua análise, Ikeda sugere que, de maneira geral, todos os santos juninos estão ligados aos ciclos da natureza — fogo, água, fertilidade e abundância. São Pedro, por exemplo, é associado à crença de que controla o tempo. O pesquisador observa uma relação contínua entre esses santos e os antigos rituais: “embora a gente não perceba mais, eles têm essa ligação com os elementos fundamentais da existência humana”.

Nas festas populares, essas forças da natureza são representadas de diversas formas, indo além da simples mesa farta. Os mastros juninos erguidos simbolizam a força dos troncos e das árvores que resistem ao inverno rigoroso. A fogueira, por sua vez, representa a luz, o calor, a proteção contra animais selvagens e o preparo dos alimentos.

Na releitura contemporânea, as festas juninas, portanto, “guardam as reminiscências das ancestrais aglomerações festivas”, como enfatiza Ikeda.

O cenário brasileiro e a formação de uma identidade própria

Paçoca, pamonha, pipoca, bolo de fubá, canjica, curau, pé de moleque e maçã do amor. Vinho quente e quentão. Brincadeiras como pular fogueira e dançar a quadrilha. Chapéu de palha, camisa xadrez e calça remendada. Bombinhas, rojões e fogos de artifício. Bandeirinhas coloridas penduradas em barbantes.

No Brasil, as festas juninas foram recriadas, transformando-se em uma exaltação das raízes caipiras. Para além da religiosidade, a celebração se tornou uma manifestação de tradição e folclore. É como se um ciclo se fechasse: o que começou como um ritual social e gregário, depois apropriado por uma religião dominante, foi devolvido ao seu sentido original na cultura popular — a festa pela pura alegria de celebrar.

Não por acaso, a folclorista Laura Della Mônica registra em seu livro “Os Três Santos do Mês de Junho” que “respeitar as festas e orações dedicadas a cada um dos três santos do mês de junho, segundo a tradição, é obrigação e dever de todos nós, pelo menos culturalmente”. O “todos nós” refere-se ao povo brasileiro. Isso porque, mesmo tendo nascido no Velho Mundo, as festas juninas adquiriram uma identidade genuína em território nacional.

A socióloga Rangel destaca que a colonização da América trouxe novamente a questão da apropriação cultural para os jesuítas e para todos os religiosos que se estabeleceram no continente sul-americano.

No contexto brasileiro, houve uma coincidência de calendário. No período de inverno seco, o solstício de inverno marca o momento dos trabalhos agrícolas mais significativos. Assim como para os povos do hemisfério norte era um período de rituais de fertilidade, a festa aqui também se manifesta com características semelhantes, reunindo famílias na evocação da abundância.

As tradições regionais mantêm suas particularidades, o que é esperado em um país de dimensões continentais. Rangel enfatiza que essas celebrações “sempre foram festas e rituais populares”.

No Brasil, ela aponta expressões regionais muito fortes, como o São João nordestino, o Boi Bumbá da região norte, o Boi de Mamão no sul, as Cavalhadas no centro-oeste e as festas do Divino Espírito Santo em diversas regiões, especialmente no estado de São Paulo.

A pesquisadora comenta que, “conforme os padres vão chegando nas paróquias, começam a interferir nas comemorações”, gerando o sincretismo. Nesse processo, a festa popular também se torna uma celebração católica, e a quermesse organizada pela igreja incorpora rituais populares.

Alberto Ikeda observa que, “até hoje, as paróquias, as igrejas, realizam festas juninas. Mesmo que as maiores festas estejam predominantemente tendo somente o caráter festivo, mais comercial, de exploração pelo ganho financeiro, as igrejas continuam fazendo comemorações aos santos juninos”.

Ele ressalta que, “embora muitas pessoas não católicas também participem das festas, embora predomine uma visão genérica que as festas juninas não guardam mais relação com a religiosidade, há ainda um relacionamento das igrejas com esses santos juninos”.

Para ele, a evolução da festividade está na capacidade de “toda aglomeração possibilitar o incentivo ao comércio”. O pesquisador afirma que “a alimentação está neste centro, na busca mesmo do repasto cerimonial e festividades, danças e músicas que sempre estiveram ligados aos antigos rituais”.

Ikeda relembra a importância antropológica das festas populares, que são “práticas gregárias que ciclicamente comemoram a própria constituição, a própria existência das comunidades enquanto coletividade, a reunião de grupos humanos que preservam uma história comum”.

Na festa junina, em particular, o ato de “vestir-se de caipira, simbolicamente, é um instrumento de importância até emocional e psicológico para as pessoas se sentirem com a identidade ligada ao passado, aos pais e avós que praticavam aquilo, comemorando de forma parecida”, analisa o pesquisador.

Assim, a prática dessas tradições permite que uma rica continuidade cultural seja preservada ao longo do tempo.

A interrupção das celebrações em tempos de pandemia

É crucial reforçar: com a pandemia de covid-19 ainda descontrolada, seria imprudente realizar qualquer tipo de celebração neste período. Caso queira comemorar, é recomendável fazê-lo em casa, apenas com o seu núcleo familiar mais próximo.

Assim, 2021 marcou o segundo ano consecutivo em que o Brasil não teve, ao menos de forma ostensiva, as tradicionais festividades com bandeirinhas coloridas. A historiadora Christiane Maria Cruz de Souza, doutora em História das Ciências da Saúde e autora do livro “A Gripe Espanhola na Bahia”, afirma que esse cancelamento não ocorreu nem mesmo durante a epidemia de cem anos atrás. A gripe espanhola, que chegou ao Brasil após os festejos de 1918, permitiu que as celebrações daquele ano ocorressem. Em 1919, a epidemia já estava controlada, sem grandes surtos, diferentemente da imediata e generalizada interrupção imposta pela covid-19.

É razoável supor, inclusive, que as celebrações de 1919 tenham sido ainda mais vibrantes. Souza afirma que, “passada a epidemia de gripe espanhola, tudo o que as pessoas queriam eram esquecê-la”, buscando nas festas uma forma de alívio e superação.

Em 20 de junho de 1919, no entanto, surgiram os primeiros indícios de uma epidemia de varíola na capital baiana.

A pesquisadora observa que, embora casos tenham começado a aparecer, ainda não havia força suficiente para interditar os festejos de São João poucos dias depois.

Ela expõe que as autoridades sanitárias levaram um tempo considerável para reconhecer a existência de uma terrível epidemia de varíola. As autoridades públicas, geralmente, só oficializam uma epidemia quando ela se torna inegável devido ao acúmulo de adoecimentos e mortes, excedendo a normalidade esperada para os casos da doença. Esse processo, segundo Souza, é demorado.

Rangel destaca, ainda, que até a primeira metade do século 20, as festas juninas eram bem mais modestas, restritas a familiares e pequenos grupos comunitários. Elas eram muito menores do que os grandes eventos de hoje em dia. “Eram festas de arraial, de quintais, de quermesses”, explica.

Ela conclui que “elas só se transformaram em grandes espetáculos na segunda metade do século 20, na esteira da espetacularização do carnaval”, indicando uma mudança de escala e formato.

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