Pesquisa genética redefine quem foram os vikings à medida que Noruega celebra herança em campo na Copa do Mundo FIFA

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Jogadores da Noruega caracterizados como vikings

Jogadores da Noruega caracterizados como vikings - Reprodução / NFF

A seleção norueguesa de futebol trouxe à tona uma antiga e fascinante herança cultural ao comemorar uma vitória recente na Copa do Mundo de 2026. Após o triunfo por 3 a 2 sobre Senegal, os jogadores se uniram em campo para simular a famosa “remada viking”, um gesto que rapidamente se tornou um símbolo de identificação com o passado nórdico do país. O meio-campista Martin Ødegaard liderava o ritmo com um tambor, enquanto os demais atletas replicavam os movimentos sincronizados.

A celebração repercutiu entre os torcedores e reacendeu o interesse sobre a verdadeira história dos vikings, um povo que, para além dos mitos populares, teve um impacto profundo na Europa e além. A “remada viking” nos gramados não é apenas uma coreografia festiva, mas uma ponte para entender as tradições marítimas e a complexa identidade desses exploradores e comerciantes.

A celebração da “remada viking” nos gramados

O gesto de simular a remada virou uma marca registrada da torcida norueguesa durante a Copa do Mundo de 2026. Em diversos confrontos, os fãs da seleção adotaram a coreografia que mimetiza o movimento de remar, evocando as profundas tradições marítimas e a rica herança cultural deixada pelos vikings. Essa manifestação festiva reforça a conexão do povo norueguês com seus antepassados históricos.

Martin Ødegaard, peça-chave da equipe, não apenas coordenava o tambor e as baquetas, mas também personificava a liderança inspirada nos antigos nórdicos. A sincronia dos jogadores ao executar a “remada” no gramado destacou a força do espírito coletivo e a identidade cultural que permeia a equipe e seus apoiadores. A imagem se tornou viral, conectando a modernidade do esporte com a antiguidade de um povo lendário.

Quem eram realmente os povos nórdicos

Os vikings eram povos originários da Escandinávia, região que hoje compreende Dinamarca, Suécia e Noruega. Sua atividade principal se dividia entre a agricultura, praticada durante a primavera, e as incursões comerciais e de saque, realizadas principalmente no verão. A Era Viking, período de maior atividade exploratória e militar desses povos, estendeu-se aproximadamente do século 8 ao século 11 d.C.

Apesar da imagem popular de guerreiros incessantes, muitos vikings eram agricultores habilidosos, cultivando cereais como cevada, além de vegetais como repolho e nabo, nas regiões onde o clima permitia. A arte e a joalheria também desempenhavam um papel central em sua identidade, com muitas pessoas usando o martelo de Thor, deus do trovão na mitologia nórdica, como um símbolo de proteção e afiliação religiosa.

A vasta expansão e a tecnologia naval que moldaram a era viking

Com o tempo, o comércio viking se diversificou, impulsionando sua expansão pela Europa através de uma combinação de conflitos e trocas. Um exemplo notável dessa expansão é o rio Volga, na atual Rússia, onde os vikings, conhecidos como “rus”, estabeleceram-se e deram origem ao nome do país. Essa rota fluvial foi crucial, abrindo o norte da Europa para o comércio com o mundo árabe e o Império Bizantino.

Os itens obtidos em suas viagens, como sal, corantes e especiarias, eram trocados por mel, peles e até pessoas escravizadas. Os vikings avançaram ainda mais, chegando à América do Norte no final do século 10, onde mantiveram relações complexas com os povos nativos da região e da Groenlândia, referindo-se a eles como “Skræling”. A engenharia naval viking era revolucionária e os colocou na vanguarda da navegação da época.

    Seus navios eram projetados para:
  • Velocidade: Estrutura aerodinâmica que permitia deslocamento rápido.
  • Capacidade: Habilidade de transportar um grande número de homens e carga.
  • Versatilidade fluvial: Design que possibilitava a navegação em rios profundos.
  • Inovação técnica: O formato do barco criava bolhas de ar na borda das tábuas, fazendo-os deslizar sobre um “colchão de ar” com menor resistência na água.

Para a navegação, eles empregavam uma “bússola solar”, um círculo simples com um pino central utilizado para determinar a posição do sol e a hora do dia. Além disso, utilizavam cristais especiais que mudavam de tonalidade conforme a direção da luz, permitindo identificar a posição do sol mesmo em condições de neblina e, assim, manter o rumo.

Desvendando a verdadeira identidade dos vikings através da ciência

A cultura popular frequentemente retrata os vikings como guerreiros loiros e de olhos azuis, implacáveis em suas incursões marítimas. Contudo, pesquisas científicas recentes desafiaram essa imagem. Um estudo internacional liderado pelo geneticista evolutivo dinamarquês Eske Willerslev, da Universidade de Cambridge e da Universidade de Copenhague, revelou uma diversidade étnica surpreendente entre esses povos nórdicos.

Ao longo de seis anos, a equipe analisou restos humanos de mais de 80 sítios arqueológicos, incluindo 442 genomas de homens, mulheres, crianças e bebês da Era Viking. O material genético, extraído principalmente de dentes e do osso temporal (petroso) — que se mostra mais preservado —, foi comparado com o DNA de mais de mil indivíduos da Antiguidade e cerca de quatro mil humanos modernos. Esta análise, a maior já realizada, trouxe revelações cruciais sobre sua origem:

  • Diversidade étnica: Genes de vikings apresentaram origens que se estendiam até o sul da Europa e a Ásia, desmistificando a ideia de uma população geneticamente homogênea.
  • Menor incidência de loiros: Ser loiro era significativamente menos comum na Escandinávia durante a Era Viking do que é atualmente.
  • “Viking” como estilo de vida: A pesquisa indica que a identidade viking não estava intrinsecamente ligada à ascendência genética ou étnica, mas sim a um estilo de vida e a uma identidade social. Foram encontrados indivíduos que, embora se identificassem como vikings, não possuíam genes escandinavos.
  • Rotas migratórias específicas: O estudo detalhou que diferentes grupos vikings tendiam a viajar para regiões distintas; os dinamarqueses predominantemente para a Inglaterra, os noruegueses para a Irlanda, Islândia e Groenlândia, e os suecos para o Mar Báltico.

Essas descobertas modificam a compreensão histórica sobre os vikings, revelando uma sociedade muito mais miscigenada e complexa do que se imaginava. A diversidade genética, resultado de extensas rotas comerciais e de exploração que alcançavam do Canadá ao Afeganistão, gerou uma vasta gama de aparências físicas. Conforme destacou Willerslev, o debate atual sobre a identidade dos vikings é um debate político embasado em ciência real.

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