Um aplicativo popular desenvolvido na Rússia, o Telega, que possibilitava aos usuários o acesso ao Telegram mesmo diante de bloqueios, comunicou que encerrará suas operações em 1º de julho de 2026. O anúncio foi feito pelos criadores em seu site oficial, que também prometeram reembolso para os assinantes ativos do Telega Plus.
Em comunicado, os desenvolvedores explicaram a decisão, afirmando: “Não conseguimos garantir a localização completa e a conformidade com todos os requisitos atuais no formato do cliente Telegram, inclusive devido a restrições externas de plataformas tecnológicas, incluindo sua remoção da App Store.” Eles indicaram que essas dificuldades foram cruciais para a desativação.
O Telega é um cliente não oficial do aplicativo de mensagens Telegram, criado na Rússia com o objetivo principal de contornar os bloqueios impostos à plataforma de comunicação sem a necessidade de uma Rede Privada Virtual (VPN).
A trajetória de ascensão e os desafios enfrentados pelo Telega
Existindo ao lado de outros clientes não oficiais como Vidogram, Nicegram e Swiftgram, o Telega conquistou grande visibilidade na Rússia. O programa foi desenvolvido com base em código aberto e funcionava ao se conectar diretamente aos servidores do Telegram original.
Sua relevância começou a crescer intensamente no contexto do bloqueio implementado pela Roskomnadzor, a agência reguladora russa, que impôs lentidão ao Telegram por sua recusa em aderir às leis locais. As limitações sobre as funcionalidades de chamadas do Telegram se intensificaram em 2025, em uma iniciativa de combate a fraudes, e o compartilhamento de fotos e vídeos também foi restringido em janeiro de 2026, solidificando a demanda por alternativas como o Telega.
A própria empresa divulgou que o aplicativo superou a marca de um milhão de downloads e alcançou o topo da loja de aplicativos russa RuStore. Além disso, especialistas destacaram como um feito notável o fato de o Telega ter atingido um milhão de instalações no Google Play em menos de um ano e ter ocupado temporariamente a posição de aplicativo mais baixado na App Store russa em fevereiro de 2026.
Entretanto, em abril de 2026, o aplicativo foi notado por ter desaparecido da App Store da Apple, conforme reportado pela CNews. No mesmo mês, o Telegram começou a emitir alertas para contas de usuários que se conectavam através de clientes não oficiais e servidores espelho, levando especialistas em segurança cibernética a aconselhar o uso exclusivo de aplicativos de mensagens oficiais.
Houve um período em que o Cloudflare Radar classificou os domínios do Telega como spyware, e a GlobalSign, uma autoridade de certificação internacional, revogou o certificado TLS do aplicativo, essencial para conexões HTTPS seguras. Contudo, poucos dias depois, o Cloudflare removeu a classificação de spyware após os desenvolvedores do Telega entrarem em contato e fornecerem as informações necessárias sobre suas operações.
Questões sobre as conexões financeiras e de origem do Telega
Os beneficiários finais da JSC Telega não foram tornados públicos, mas os empresários Fanis Sadykov e Alexander Smirnov, de Kazan, identificaram-se abertamente como os fundadores do projeto.
Um relatório financeiro da JSC Telega (anteriormente Dal JSC) revelou que a empresa obteve quase 200 milhões de rublos de seus fundadores em 2025. Ao final daquele ano, a startup registrou um prejuízo líquido de 91 milhões de rublos, resultado de vultosos investimentos em desenvolvimento de software e folha de pagamento, enquanto sua receita mal ultrapassou 100 mil rublos. A empresa detalhou que o investimento em desenvolvimento de software foi de 41 milhões de rublos e a aquisição de equipamentos de escritório de 2 milhões de rublos.
Discussões sobre a possível relação do aplicativo com o grupo VK
Em meados de 2025, surgiram debates públicos sobre a possibilidade de o Telega ser um novo projeto do VK, um dos maiores grupos de tecnologia da Rússia. Essa hipótese foi levantada pelo programador Dmitry Tarasenko, que se apresentou como ex-desenvolvedor do Telegram, ao analisar o código-fonte do Telega e encontrar referências diretas a recursos do VK. Ele chegou a apontar que a funcionalidade de chamadas de voz do Telega operava utilizando servidores da rede social Odnoklassniki, pertencente ao VK.
A CNews investigou e descobriu que, em março de 2025, foram realizadas alterações nos estatutos da Telega JSC. Essas modificações permitiam a criação de um conselho de administração, mas com limitações claras: o conselho só poderia aprovar transações acima de 2 milhões de rublos se não fossem realizadas com entidades jurídicas que fizessem parte da VK International Public Joint-Stock Company (IPJSC), conforme expresso no próprio documento.
Apesar das especulações e evidências encontradas, o VK negou publicamente qualquer envolvimento ou ligação com o Telega.
Em resposta a questionamentos da CNews sobre a conexão com o VK, a assessoria de imprensa do Telega declarou: “A Telega é um projeto independente desenvolvido por uma equipe de desenvolvedores de Kazan. Não somos um produto da VK nem de qualquer outra empresa. Ao mesmo tempo, como muitas empresas de TI, utilizamos soluções tecnológicas individuais de diversos fornecedores, incluindo a VK, sob termos comerciais padrão.” A cláusula estatutária mencionada foi explicada como “de natureza técnica e relacionada a procedimentos de aquisição.”

