Fenômeno sísmico raro: Venezuela sofre com dois fortes terremotos em questão de segundos e registra milhares de mortes
Dois abalos sísmicos de alta intensidade atingiram a Venezuela no dia 24 de junho, uma quarta-feira, com um intervalo de menos de um minuto entre eles. Ambos os tremores superaram a magnitude 7, o que os classifica cientificamente como muito fortes e capazes de provocar grandes estragos.
O primeiro tremor alcançou 7,2 na escala de magnitude, seguido por um segundo evento de 7,5 ocorrido apenas 39 segundos depois, a poucos quilômetros de distância. Posteriormente, a região registrou dezenas de réplicas, tremores secundários que ainda podem persistir por dias ou semanas.
Os efeitos dos abalos foram sentidos em diversas áreas, incluindo o norte da Colômbia, partes do Brasil e ilhas caribenhas como Aruba e Curaçao. A intensidade foi suficiente para causar preocupação em um raio amplo.
Dois dias após os eventos iniciais, na sexta-feira, o país registrou mais um terremoto, desta vez com magnitude 4,9, considerado de menor intensidade. Os dados mais recentes indicam que os terremotos causaram a morte de mais de 1.700 pessoas e deixaram mais de 3.000 feridos. Além disso, milhares de cidadãos estão desabrigados e centenas de construções foram completamente destruídas.
Desde então, equipes humanitárias locais e internacionais, com apoio de países como Suíça, Colômbia, Chile, República Dominicana e Espanha, estão envolvidas em missões de resgate. Os esforços buscam encontrar sobreviventes sob os escombros e prestar acolhimento à população afetada, em um cenário agravado pela instabilidade política que o país enfrenta desde a prisão do presidente Nicolás Maduro em janeiro.
A Venezuela está localizada em uma área de intensa atividade sísmica, tornando os terremotos parte de sua história geológica. O país se encontra na convergência das placas tectônicas do Caribe e da América do Sul, onde a placa caribenha se desloca para leste a uma velocidade de cerca de 20 milímetros por ano.
Essa movimentação, embora pareça pequena, é suficiente para acumular uma tensão colossal nas camadas rochosas. A Venezuela já registrou cinco terremotos com magnitude superior a 7 desde o ano de 1900, demonstrando a recorrência de eventos sísmicos severos.
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Fenômenos de abalos duplos, no entanto, são considerados raros. Para compreender sua ocorrência, é essencial primeiro revisitar o conceito de um terremoto comum, que se manifesta quando a energia acumulada se libera.
Os sismos estão diretamente ligados ao movimento das placas tectônicas, vastos blocos rochosos que formam a superfície da Terra e se deslocam lentamente sobre o manto terrestre, que é mais quente e parcialmente líquido.

Em certos pontos, essas placas podem colidir, raspar lateralmente, afastar-se ou uma deslizar sob a outra. Essa constante interação gera um acúmulo gradual de tensão, que, por sua vez, pode dar origem a falhas geológicas visíveis na superfície. A Venezuela possui um grande número dessas falhas, como as de Boconó, San Sebastián e El Pilar.
Essas falhas podem permanecer estáveis por longos períodos, mas a pressão interna nas rochas tem um limite de resistência. Quando esse limite é superado, as rochas se rompem e liberam energia na forma de ondas sísmicas, causando o tremor do solo e, assim, o terremoto.
O ponto exato no interior da Terra onde a ruptura acontece é conhecido como hipocentro, ou foco sísmico. Já o epicentro é o local na superfície terrestre situado diretamente acima do hipocentro.
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Normalmente, os terremotos resultam do rompimento de uma única falha, gerando um abalo principal seguido por várias réplicas de menor magnitude na mesma área de ruptura.
Os terremotos duplos, também chamados de “sismos gêmeos” ou “doublets”, diferem nesse aspecto. Nesses casos, há dois tremores principais, cada um originado em uma falha distinta, ou seja, dois rompimentos e dois epicentros separados. Para serem classificados como duplos, os eventos devem ter magnitudes semelhantes, ocorrer em um curto intervalo de tempo e em locais próximos.
A liberação de mais energia em um curto período aumenta significativamente o potencial destrutivo desses eventos. Apesar das magnitudes aparentemente próximas, o segundo terremoto na Venezuela, de 7,5, liberou aproximadamente três vezes mais energia do que o primeiro, de 7,2, devido à natureza logarítmica da escala de magnitude.
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Entendendo os terremotos duplos na Venezuela
As investigações sobre os terremotos na Venezuela ainda estão em andamento. As análises preliminares do USGS, o Serviço Geológico dos Estados Unidos, indicam que o primeiro abalo foi resultado de um movimento horizontal entre as placas tectônicas do Caribe, que se move para leste, e da América do Sul, que segue na direção oposta.
O primeiro epicentro foi registrado nas proximidades da cidade de San Felipe, na falha de Morón. Já o segundo ocorreu perto de Yumare, na falha de El Guayabo.
O USGS sugere que o segundo terremoto está intrinsecamente ligado a um processo de interação entre as rupturas, embora o mecanismo exato ainda não tenha sido completamente determinado. O segundo tremor se iniciou antes mesmo que o primeiro tivesse chegado ao fim.
A ocorrência de terremotos duplos pode ser explicada por diferentes fatores. Uma das teorias é que o primeiro terremoto causa um deslocamento das rochas e altera a distribuição de tensões na região. Isso pode ser suficiente para provocar o rompimento de uma falha vizinha que já se encontrava sob forte pressão, um mecanismo conhecido como Coulomb stress transfer, apontado como uma das principais explicações por especialistas.
Outra hipótese é que as ondas sísmicas geradas pelo primeiro abalo se propaguem pelo subsolo, induzindo a vibração das rochas e desencadeando a ruptura de uma falha próxima.
Um fator crucial que contribuiu para a severidade dos tremores foi a profundidade relativamente rasa de ambos. O primeiro ocorreu a 21,9 quilômetros de profundidade e o segundo a aproximadamente 10 quilômetros. Terremotos mais próximos da superfície perdem menos energia durante a propagação das ondas sísmicas, amplificando seu poder destrutivo.
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Além disso, a grande devastação observada nos terremotos de 2026 na Venezuela também se deve à vulnerabilidade de muitas edificações, que foram construídas sem o reforço estrutural adequado ou com materiais frágeis, como tijolos e blocos de adobe. Muitas construções que suportaram o impacto inicial cederam completamente ao segundo terremoto.
A composição geológica do solo em algumas das cidades atingidas, como Caracas, é predominantemente sedimentar. Essa característica natural do terreno é um ponto importante, pois solos sedimentares tendem a amplificar as ondas sísmicas, aumentando ainda mais o impacto dos tremores.

















