Por que terremotos gigantes atingem países vizinhos, mas raramente o Brasil?

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Foto: terremoto - menur/Shutterstock.com

Um forte abalo sísmico de magnitude 7,2 atingiu a Venezuela, um país vizinho, causando mais de 180 mortes e se tornando um dos eventos mais intensos já registrados no continente. Apesar da violência do tremor ao norte, o Brasil sentiu apenas reflexos leves, com a população de cidades como Manaus e Belém percebendo abalos mínimos.

Essa disparidade levanta a questão da aparente imunidade do Brasil a grandes desastres sísmicos, uma percepção comum entre a população. No entanto, a ciência demonstra que a realidade por trás dessa “calma” é mais complexa do que se imagina.

A principal razão para o Brasil ser poupado de abalos intensos está em sua localização geográfica. O país se encontra no centro de uma placa tectônica, distante das fronteiras onde essas massas rochosas colidem e causam os maiores tremores.

Tecnicamente, o território brasileiro repousa sobre a porção central da placa Sul-Americana, longe das áreas de maior instabilidade geológica.

A posição singular do Brasil na placa tectônica sul-americana

Enquanto o Brasil desfruta dessa relativa estabilidade, seus vizinhos, especialmente aqueles próximos à Cordilheira dos Andes, situam-se em regiões de contato entre duas placas tectônicas. É justamente nesses encontros que se originam os terremotos com potenciais consequências devastadoras.

Para compreender a diferença, é fundamental entender a dinâmica de formação dos terremotos. Estes fenômenos estão diretamente ligados à constituição da crosta terrestre, a camada mais externa do nosso planeta, formada por gigantescas placas rochosas em constante movimento, as chamadas placas tectônicas.

A dinâmica incessante e as pressões das placas terrestres

A superfície da Terra pode ser comparada a um mosaico, como um “casco de tartaruga” composto por múltiplas peças que se encaixam e interagem, conforme explica o geógrafo e historiador Sergio Ribeiro Santos, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Essas formações rochosas se deslocam a velocidades que podem alcançar até 10 centímetros anualmente, um movimento contínuo, embora imperceptível em escala humana.

A placa Sul-Americana, por exemplo, atinge espessuras de até 200 quilômetros em certas partes. Há placas que sustentam continentes, outras que estão sob oceanos, e algumas que combinam ambas as superfícies. O geógrafo Sergio de Moraes Paulo, mestre pela USP, compara a crosta terrestre a uma “casca de ovo toda fragmentada” em grandes placas litosféricas.

O movimento dessas placas é impulsionado pelo manto terrestre, a camada abaixo da crosta, que também está em constante agitação, fazendo com que as placas se movam em conjunto, segundo Paulo.

O professor destaca que essa movimentação é mais evidente nas “áreas de contato”, que são os limites entre uma placa e outra.

O geógrafo Santos acrescenta que a causa dessa movimentação está nas altas temperaturas presentes no interior do planeta.

Esse constante deslocamento leva as placas a um atrito incessante, empurrando-se, raspando-se e chocando-se em busca de um encaixe em um espaço limitado. Quando a tensão acumulada atinge um ponto crítico, as rochas se fraturam e se rompem, similar a uma pedra que, sob pressão extrema, acaba trincando e quebrando.

No contexto das vastas dimensões das placas tectônicas, essa ruptura é denominada falha geológica. A energia liberada por esse movimento é imensa, provocando vibrações que se propagam por todo o solo circundante, gerando os tremores.

A área onde duas placas colidem é conhecida como limite convergente, local de intensa atividade sísmica.

Bandeira de Venezuela na terra rachada, conceito de terremoto
Bandeira de Venezuela na terra rachada, conceito de terremoto – ollegN/ Istockphoto.com

Estabilidade sísmica no centro da placa sul-americana

“O Brasil está posicionado no meio da placa tectônica, e os terremotos de maior intensidade ocorrem predominantemente próximos aos seus extremos, nos limites convergentes. Assim, o país permanece distante dessas regiões de instabilidade”, detalha o geógrafo Anderson Andrade, pesquisador do Instituto Mackenzie.

Andrade complementa que os países vizinhos ao Brasil, especialmente aqueles próximos à Cordilheira dos Andes, estão muito mais próximos desses limites convergentes.

O que ocorre nos países adjacentes ao Brasil é a interação entre as placas Sul-Americana e de Nasca, que se encontram na costa oeste da América do Sul, banhada pelo Oceano Pacífico. “Nesse ponto, o movimento é mais intenso, gerando os abalos sísmicos. Embora esses tremores possam chegar ao Brasil, sua intensidade é significativamente reduzida, pois estamos no centro da placa”, explica Paulo.

Santos ressalta que foi justamente a fricção entre essas duas placas tectônicas que deu origem à imponente cadeia montanhosa da Cordilheira dos Andes.

“Os países andinos da América do Sul, a oeste, estão assentados sobre o contato entre duas grandes placas tectônicas”, sintetiza o engenheiro Antonio Eduardo Giansante, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Qualquer movimento entre elas provoca tremores e, se for mais intenso, resulta em um terremoto. Frequentemente, o contato entre essas placas armazena uma grande quantidade de energia, e qualquer variação entre elas libera essa energia e causa uma reacomodação, gerando terremotos de grande intensidade.”

O histórico de abalos sísmicos no território nacional

Dados fornecidos pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) revelam que o Brasil registrou cerca de 100 terremotos ao longo do último século. A grande maioria desses eventos foi de baixa intensidade, passando imperceptível para a população.

Os terremotos são mensurados pela escala Richter, e geralmente apenas os abalos que ultrapassam 7 graus nessa medição são capazes de causar destruição. O tremor mais forte já registrado no Brasil ocorreu em 1955, com localidades no Mato Grosso atingindo 6,6 graus e no Espírito Santo marcando 6,3 graus na escala.

Em 1980, um terremoto de 5,2 graus na escala Richter foi registrado no Ceará. Três anos depois, sismógrafos detectaram um abalo de 5,5 graus no estado do Amazonas.

No século atual, alguns episódios significativos também foram sentidos em território brasileiro. Em 2007, um sismo de 6,1 graus foi percebido por moradores na divisa entre Acre e Amazonas. No mesmo ano, Minas Gerais registrou um tremor de 4,9 graus.

Em abril de 2008, ocorreu o que talvez tenha sido o evento sísmico de maior repercussão recente no Brasil. Na ocasião, um abalo de 5,2 graus na escala Richter foi sentido em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina.

O caso mais recente de tremores com impacto foi em 2018, quando os reflexos de um terremoto na Bolívia foram percebidos em diversas regiões do Brasil.

De acordo com as medições do Centro de Sismologia da USP, os últimos tremores registrados em solo brasileiro aconteceram em 11 de junho, quando três pequenos terremotos ocorreram na região de Tucuruí, no Pará, com o maior deles atingindo 3,5 graus de magnitude.

A visibilidade dos tremores é diretamente proporcional à sua intensidade. Em outras palavras, abalos sísmicos de pequena magnitude são extremamente comuns, mas raramente ganham destaque. “Acabamos tendo notícias apenas daqueles mais intensos, que geram imagens impressionantes e causam danos”, observa o geógrafo Paulo.

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