Imigrante senegalês Amadou Onana, destaque da Bélgica, revê país natal em confronto decisivo da CopaPor Thiago Lemos
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O volante Amadou Onana, que atua pelo Aston Villa, havia feito um apelo antes do sorteio da Copa do Mundo para evitar um confronto com a seleção de Senegal. Embora seu desejo tenha sido inicialmente concedido na fase de grupos, o destino reservou um encontro inevitável: a Bélgica, sua atual nação, enfrentará seu país de origem. Na próxima quarta-feira, às 17h (horário de Brasília), o jogador nascido no Senegal defenderá as cores belgas em um duelo crucial pelas oitavas de final.
Compartilhando seus sentimentos antes do torneio, em uma conversa com o youtuber Just Riadh, Onana revelou a intensidade dessa situação. Ele afirmou que “preferiria perder para a França”, destacando a particularidade de jogar contra Senegal. Para o atleta, manter as conexões com seu país de nascimento é fundamental, pois o reconecta à sua essência e o faz recordar suas raízes familiares.
Amadou Onana veio ao mundo em Dakar, capital de Senegal, em um lar islâmico com fortes tradições. Sua infância foi marcada por uma casa sempre acolhedora, que frequentemente abrigava até quarenta pessoas, servindo como um porto seguro para o jovem. Aos 11 anos, em 2012, ele partiu para a Bélgica acompanhado da mãe e de sua irmã caçula, então com três anos.
A Bélgica não representava um território totalmente inédito para Amadou, que já havia visitado seu pai, um camaronês residente em Bruxelas, apesar da relação distante entre eles. Essa conexão paterna possibilitou a Onana obter o passaporte belga. Contudo, os primeiros tempos na Europa foram desafiadores para os imigrantes, marcados por dificuldades e ausência de qualquer luxo.
Em um relato recente publicado pelo “The Players’ Tribune”, Onana expressou a simplicidade de sua chegada ao novo país. A memória inicial que ele guarda é vívida: “Aquele colchão inflável…”, uma imagem que sintetiza os primórdios da sua jornada na Europa.
Enquanto a mãe repousava em um sofá, o jovem Amadou e sua irmã compartilhavam um colchão de ar. Nesse período, a meia-irmã mais velha, Mélissa, assumiu um papel significativo em seus cuidados. Foi então que Onana iniciou sua trajetória no futebol, ingressando nas categorias de base do clube Anderlecht.
Aos quinze anos, Amadou Onana fez uma pausa temporária em sua carreira esportiva para oferecer suporte a Mélissa, que enfrentava um diagnóstico de câncer. Sua irmã passou por sessões intensas de quimioterapia, resultando na perda de cabelo, uma batalha que solidificou profundamente o laço familiar. Mesmo durante o tratamento, Mélissa assumiu o papel de agente informal do irmão talentoso, dedicando-se a registrar suas performances em campo e editar vídeos que foram enviados a grandes equipes europeias.
O TSG Hoffenheim, da Alemanha, foi o primeiro time a acolher tanto Amadou quanto Mélissa, marcando o início da ascensão na carreira do jogador. Sua jornada o levou por clubes como Hamburgo, Lille e Everton, culminando na chegada ao Aston Villa em 2024. Ao seu lado, a irmã, agora recuperada do câncer, tornou-se sua agente oficial. Onana recebeu sua primeira convocação para a seleção principal em 2022 e participou da Copa do Mundo no Catar.
Conforme declarado em entrevista à revista Humo, Amadou explicou sua decisão de representar a Bélgica. Ele enfatizou que o país o “acolheu de braços abertos” em um momento de necessidade, e que ele progrediu por todas as categorias de base da seleção nacional, chegando inclusive a ser capitão. A escolha foi natural, também porque Senegal nunca havia feito um chamado oficial.
O jogador frequentemente comenta que, possivelmente, a seleção senegalesa desconhecia sua existência, o que explicaria a ausência de convocações. No entanto, uma parcela da torcida de Senegal considera o atleta um traidor, a ponto de Mélissa ter recorrido às redes sociais com um apelo para que o irmão não seja alvo de vaias no jogo desta quarta-feira.
Independentemente do resultado em campo na Copa do Mundo, a ligação de Amadou Onana com Senegal permanecerá inalterada, transcendendo qualquer disputa esportiva.
Ele conclui sua reflexão sobre identidade afirmando: “Carrego os dois países no coração: sinto-me senegalês e belga ao mesmo tempo.”







