Uma descoberta científica realizada na terça-feira, 12 de julho de 2026, revelou que a pressão intensa encontrada nas profundezas do oceano pode estar alimentando a vida microbiana e, ao mesmo tempo, influenciando o ciclo do carbono na Terra. O estudo da Universidade do Sul da Dinamarca (SDU) aponta para uma fonte de alimento até então desconhecida, mudando a percepção dos ecossistemas marinhos profundos, que antes eram considerados ambientes carentes de nutrientes.
A pesquisa demonstrou que pequenas partículas em suspensão, conhecidas como neve marinha, liberam carbono e nitrogênio dissolvidos enquanto afundam rumo às camadas mais profundas do oceano. Esses nutrientes, uma vez liberados, tornam-se imediatamente disponíveis como alimento para os micróbios que habitam as águas circundantes.
Como a pressão das águas profundas revela nutrientes essenciais
A neve marinha é formada por minúsculos aglomerados de algas mortas, microrganismos e outras substâncias orgânicas que flutuam na água. Quando essas partículas alcançam profundidades entre 2 e 6 quilômetros, a gigantesca pressão hidrostática começa a expelir a matéria orgânica dissolvida de seu interior.
“A pressão funciona quase como um espremedor gigante”, explicou o biólogo e professor associado Peter Stief, que atua nos centros de pesquisa Nordcee e Centro Dinamarquês de Pesquisa Hadal, e foi o principal autor do estudo. “Ela extrai os compostos orgânicos dissolvidos das partículas, e os micróbios podem usá-los imediatamente.” As conclusões foram detalhadas na revista Science Advances, em um artigo intitulado “A pressão hidrostática induz um forte vazamento de matéria orgânica dissolvida de partículas de ‘neve marinha’”.
Os cientistas estimam que, durante sua jornada para o fundo do mar, a neve marinha pode perder até 50% de seu carbono original e entre 58% e 63% de seu nitrogênio inicial.
Nova pesquisa promete redefinir o entendimento sobre o ciclo global do carbono
Esses resultados possuem implicações importantes para a compreensão do ciclo do carbono em nosso planeta. Por muito tempo, presumia-se que uma grande parte do carbono transportado pela neve marinha era finalmente depositada e armazenada nos sedimentos oceânicos profundos.
No entanto, se volumes significativos de carbono escapam antes que essas partículas atinjam o leito marinho, menos carbono pode ser armazenado permanentemente nos sedimentos do que se pensava anteriormente. Em vez de ser enterrado, grande parte desse carbono dissolvido permanece em suspensão nas águas profundas, onde pode persistir por séculos ou até milênios antes de gradualmente retornar à superfície e, eventualmente, à atmosfera. O carbono que é depositado nos sedimentos, por outro lado, pode ficar aprisionado por milhões de anos, acumulando-se ao longo de vastos períodos de tempo e formando recursos como petróleo e gás natural.
“Esse processo influencia a quantidade de carbono que o oceano é capaz de armazenar e por quanto tempo”, afirmou Peter Stief, destacando que a descoberta é “relevante para a compreensão dos processos climáticos e para o aprimoramento de modelos futuros”.
Testes de laboratório recriam a neve marinha em condições de alta pressão
Para investigar esse fenômeno, os pesquisadores recriaram a neve marinha em laboratório, utilizando diatomáceas — algas microscópicas que se agrupam naturalmente ao afundar no oceano. A equipe inseriu essas partículas artificiais em tanques de pressão rotativos projetados especificamente para manter a neve marinha em suspensão, impedindo seu depósito.
Essa configuração experimental permitiu aos cientistas quantificar a quantidade de carbono e nitrogênio liberada em condições que replicavam as profundezas oceânicas. Os experimentos revelaram que até metade do conteúdo de carbono de uma partícula vazava durante o processo de afundamento. A maioria do material liberado consistia em proteínas e carboidratos, substâncias facilmente consumidas pelos micróbios de vida livre encontrados nas profundezas.
Micróbios marinhos demonstram resposta imediata aos compostos orgânicos
Os nutrientes liberados provocaram um rápido crescimento microbiano. Em apenas dois dias, a abundância bacteriana aumentou trinta vezes, e as taxas de respiração elevaram-se drasticamente. Esses resultados demonstram que a matéria orgânica dissolvida, liberada pela neve marinha, constitui uma fonte de energia rápida e valiosa para os microrganismos que habitam grandes profundidades.
Os pesquisadores também verificaram o mesmo padrão de vazamento em diversas espécies de diatomáceas, sugerindo que esse mecanismo está provavelmente difundido por todos os oceanos do mundo.
Pesquisadores se preparam para próxima fase de estudos no Oceano Ártico
A próxima etapa da pesquisa migrará do ambiente controlado do laboratório para o oceano aberto. A equipe planeja buscar assinaturas moleculares desse processo em águas superficiais e profundas durante uma futura expedição ao Ártico, a bordo do navio de pesquisa alemão Polarstern.
A detecção dessas assinaturas na natureza será crucial para confirmar que o vazamento impulsionado pela pressão, observado em laboratório, realmente ocorre em todo o oceano profundo, solidificando a compreensão desse fenômeno global.
